Como o fact-checking pode ser usado para pautar temas

Como o fact-checking pode ser usado para pautar temas

12/09/2018 0 Por Cristian Derosa

O fact-checking amplia a possibilidade de criação de eventos, por oferecer a checagem de uma notícia falsa que não foi publicada pelo veículo que checa. Por este motivo e pelo fato de que as “fake news” existem em número e circulação desconhecidos, oferecem uma valiosa oportunidade para a criação da ganchos e a escolha arbitrária de temas para gerar debate público.

Você já deve ter visto uma checagem de algum departamento de fact-checking cuja notícia falsa ou boato ainda não havia chegado a você. Diante da checagem, o assunto o interessa e você passa a pensar a respeito. Claro que o sucesso de uma checagem se mede pela sua capacidade de ultrapassar a circulação da mentira. Mas você não estava pensando no assunto e nem havia algum debate público sobre o tema, mas, de repente, lá está você discutindo com seus amigos, sua esposa, seus colegas. E no dia seguinte, surge uma reportagem tentando “dar conta” do debate, desta vez com especialistas.

Isso é muito fácil de acontecer e essa nova modalidade de jornalismo pode estar fazendo isso mais do que você imagina. As checagens de candidatos mais ainda. Afinal, por que motivo os checadores escolheram determinada pauta para checar e não outra? A checagem também insinua divergência sobre o tema ou ignorância popular, ambas coisas que podem não existir, mas são geradas no momento em que se pauta o tema.

Gabriel Tarde dizia que a opinião existe onde aparece divergência. Não há opinião sobre comer com talheres ou com as mãos, porque não existe divergência visível.

Colocar um tema em pauta sempre demandou grandes esforços e uma grande quantidade de mentiras ou falsificações da realidade, do clima de opinião, para criar uma ilusão de que o tema estava sendo debatido publicamente, o que nem sempre era verdade.

Como o jornalismo funciona?

Todos os dias milhares de fatos acontecem e o jornalismo precisa escolher quais irá cobrir. Essa é uma escolha difícil. Mas, para isso, o jornalismo possui certos critérios. Quanto mais aberto o critério maior a possibilidade de se atender a interesses externos ao jornalismo.

O combustível do jornalismo é a credibilidade pública. Para obtê-lo, precisa demonstrar atualidade, que é o valor do seu produto, e estar sempre atenta aos fatos do dia, da hora e do minuto. O imediatismo, portanto, é um valor essencial da prática noticiosa, já que precisa atrair para si o valor da atualidade, com o qual vai manter consigo seus anunciantes, que pagam pela confiança pública que tem o veículo.

A característica mais importante do jornalismo, em sua versão clássica e informativa, é a busca pelo acontecimento. O jornalismo só fala daquilo que acontece e não daquilo que simplesmente existe, de modo que tudo o que existe precisa, para ser motivo de notícia, acontecer ou envolver um acontecimento. É por isso que ONGs e movimento sociais fazem protestos, greves, eventos, organizam seminários ou encontros públicos, gerando fatos para chamar a atenção da mídia, que cobrirá seus eventos. Assim, forçam o jornalismo a falar deles.

A atividade de relações públicas e assessoria de imprensa consiste exatamente disso: chamar a atenção dos jornalistas oferecendo informações com a roupagem que atrairá o profissional, ou seja, adaptar a informação desejada para exalar o “cheiro” de notícia que vai fisgar o jornalista.

Fact-checking como gancho fácil

Já que a atividade jornalística se tornou mesmo uma máquina de propaganda, que tal mudar também o seu nome? jornalismo soa algo ultrapassado em uma época em que qualquer blogueiro pode escrever e relatar fatos. Transformando o jornalismo em atividade checadora acaba concedendo-o uma autoridade de legitimação da informação ou um tipo de gabinete de certificação de veracidade.

A checagem de notícias já está sendo desempenhada por quase todos os grandes veículos, com setores especializados nisso. Esta atividade, à margem do jornalismo tradicional, possui critérios próprios: seu critério não é o que acontece, mas o que se está dizendo que acontece. Este critério é tão amplo e aberto que permite que se escolha entre uma multiplicidade de “fake news” imensa, além do fato de fazer do objeto do jornalismo a mentira e não a verdade. A busca por notícias falsas distrai o jornalista da verdade e o direciona na busca da mentira para justificar a pauta de um tema. As fake news são um terreno fértil de gancho de notícias.