Testemunho: a carta que pede renúncia do Papa

Testemunho: a carta que pede renúncia do Papa

28/08/2018 1 Por Estudos Nacionais

Por Markian Kalinoski

Eis a carta em que Sua Excelência Carlo M Viganò pede a renúncia do Papa e denuncia a máfia infiltrada no Vaticano, que ocupa postos de destaque nos EUA (já esmiuçada no livro “Adeus, Homens de Deus – Como Corromperam a Igreja Católica nos EUA”). Nela, também descreve como Papa Bento XVI teria tentado punir o ex-Cardeal McCarrick (peça central do último escândalo de abusos sexuais que recentemente veio à tona nos EUA) e como o Papa Francisco e o Cardeal Wuerl teriam agido para protegê-lo e acobertá-lo.

***

Testemunho
De
Sua Excelência Carlo Maria Viganò
Arcebispo Titular do Núncio Apostólico de Ulpiana

Tradução: Markian Kalinoski

Neste momento trágico para a Igreja em várias partes do mundo (Estados Unidos, Chile, Honduras, Austrália, etc.) os bispos têm uma responsabilidade muito grave. Estou pensando, particularmente, nos Estados Unidos da América, para onde fui enviado como Núncio Apostólico pelo Papa Bento XVI, em 19 de outubro de 2011, a dia da festa memorial dos primeiros mártires norte-americanos. Os Bispos dos Estados Unidos são chamados, e eu juntamente com eles, a seguir o exemplo destes primeiros mártires que trouxeram o Evangelho às terras da América, para serem testemunhas fidedignas do incomensurável amor de Cristo, o Caminho, a Verdade e o Vida.

Bispos e sacerdotes, abusando de suas autoridades, cometeram crimes horrendos em detrimento de seus fiéis, menores, vítimas inocentes e jovens ansiosos por oferecerem suas vidas à Igreja ou, por seu silêncio, não impediram que tais crimes continuassem a ser perpetrados.

Para restaurar a beleza da santidade na face da Noiva de Cristo, que vem sendo terrivelmente desfigurada por tantos crimes abomináveis, e se, realmente, queremos libertar a Igreja do pântano fétido em que ela caiu, devemos ter a coragem de demolir a conspiração do segredo e confessar, publicamente, as verdades que mantivemos ocultas. Devemos demolir a conspiração de silêncio com que bispos e padres se protegeram à custa de seus fiéis, uma conspiração de silêncio que, aos olhos do mundo, arrisca fazer com que a Igreja pareça uma seita, uma conspiração de silêncio não tão diferente da que prevalece na máfia. “Tudo o que disserem na escuridão… será proclamado dos telhados das casas” (Lc 12: 3).

Eu havia sempre acreditado e esperado que a hierarquia da Igreja pudesse encontrar dentro de si os recursos espirituais e a força para contar toda a verdade, para emendar-se e renovar-se. É por isso que, apesar de eu ter sido repetidamente solicitado a fazê-lo, sempre evitei fazer declarações à mídia, mesmo quando teria sido meu direito fazê-lo, a fim de me defender das calúnias publicadas sobre mim, mesmo por prelados do alto escalão da Cúria Romana. Mas agora que a corrupção atingiu o topo da hierarquia da Igreja, minha consciência determina que eu revele essas verdades sobre o penoso caso do Arcebispo Emérito de Washington, Theodore McCarrick, que eu vim a conhecer no curso dos deveres que me foram confiados por São João Paulo II, como Delegado para as Representações Pontifícias, de 1998 a 2009, e pelo Papa Bento XVI, como Núncio Apostólico nos Estados Unidos da América, de 19 de outubro de 2011 até o final de maio de 2016.

Como Delegado para as Representações Pontifícias na Secretaria de Estado, minhas responsabilidades não se limitaram às Nunciaturas Apostólicas, mas também incluíram o pessoal da Cúria Romana (contratações, promoções, processos informativos sobre candidatos ao episcopado, etc.) e o exame de casos delicados, inclusive os referentes a cardeais e bispos, que foram confiados ao Delegado pelo Cardeal Secretário de Estado ou pelo Substituto da Secretaria de Estado.

Para dissipar as suspeitas insinuadas em vários artigos recentes, direi imediatamente que os Núncios Apostólicos nos Estados Unidos, Gabriel Montalvo e Pietro Sambi, ambos prematuramente falecidos, não deixaram de informar a Santa Sé imediatamente, tão logo souberam do comportamento gravemente imoral do Arcebispo McCarrick com seminaristas e sacerdotes. De fato, de acordo com o que o Núncio Pietro Sambi escreveu, a carta do padre Bonifácio Ramsey, de 22 de novembro de 2000, foi escrita a pedido do falecido núncio Montalvo. Na carta, o padre Ramsey, que havia sido professor no seminário diocesano de Newark, do final dos anos 80 até 1996, afirma que havia um rumor recorrente no seminário de que o o Arcebispo “compartilhava sua cama com seminaristas”, convidando cinco pessoas de cada vez para passar o fim de semana com ele em sua casa de praia. E acrescentou que conhecia um certo número de seminaristas, alguns dos quais foram posteriormente ordenados sacerdotes para a Arquidiocese de Newark, que foram convidados para esta casa de praia e dividiram a cama com o arcebispo.

O gabinete que ocupei na época não foi informado de nenhuma medida tomada pela Santa Sé depois que essas acusações foram apresentadas por Núncio Montalvo no final de 2000, quando o cardeal Angelo Sodano era secretário de Estado.

Da mesma forma, o Núncio Sambi transmitiu ao Cardeal Secretário de Estado, Tarcisio Bertone, um Memorando de Acusação contra McCarrick elaborada padre Gregory Littleton da diocese de Charlotte, que foi reduzido ao estado laico por uma violação de menores, junto com dois documentos do mesmo Littleton, no qual ele contou sua trágica história de abuso sexual pelo então Arcebispo de Newark e vários outros padres e seminaristas. O Núncio acrescentou que Littleton já havia enviado seu Memorando para cerca de vinte pessoas, incluindo autoridades civis e judiciais eclesiásticas, policiais e advogados, em junho de 2006, e que era, portanto, muito provável que as notícias fossem tornadas públicas em breve. Ele, portanto, requisitou uma intervenção imediata da Santa Sé.

Ao redigir um memorando sobre esses documentos que me foram confiados, como Delegado para as Representações Pontifícias, em 6 de dezembro de 2006, escrevi a meus superiores, Cardeal Tarcisio Bertone e o Substituto Leonardo Sandri, que os fatos atribuídos a McCarrick por Littleton foram de tal gravidade e vileza a ponto de provocar perplexidade, um sentimento de nojo, profunda tristeza e amargura no leitor, e que constituíam os crimes de sedução, solicitando atos depravados de seminaristas e sacerdotes, repetida e simultaneamente com várias pessoas, escárnio de um jovem seminarista que tentou resistir às seduções do arcebispo na presença de dois outros sacerdotes, a absolvição dos cúmplices nestes atos depravados, e celebração sacrílega da Eucaristia com os mesmos sacerdotes depois de cometer tais atos.

Em meu memorando, que entreguei no mesmo dia 6 de dezembro de 2006 ao meu superior direto, o Substituto Leonardo Sandri, propus as seguintes considerações e linhas de ação aos meus superiores:
– dado que parecia um novo escândalo de gravidade peculiar, pois relativo a um Cardeal, seria adicionado ao conjunto de muitos escândalos da Igreja nos Estados Unidos;
– e que, uma vez que este assunto tinha relação com um Cardeal, e de acordo com o can. 1405 § 1, No. 2˚, “ipsius Romani Pontificis dumtaxat ius est iudicandi”;
– eu propus que fosse tomada uma medida exemplar contra o Cardeal que pudesse ter uma função medicinal, além de prevenir futuros abusos contra vítimas inocentes e aliviar o escândalo seríssimo para os fiéis que, apesar de tudo, continuaram a amar e a acreditar na Igreja.

Acrescentei que seria salutar se, por uma vez, a autoridade eclesiástica interviesse perante as autoridades civis e, se possível, antes que o escândalo tivesse surgido na imprensa. Isso poderia ter restaurado alguma dignidade a uma Igreja tão duramente julgada e humilhada por tantos atos abomináveis por parte de alguns pastores. Se isso fosse feito, a autoridade civil não teria mais que julgar um Cardeal, mas sim um pastor contra quem a Igreja já tinha tomado medidas apropriadas para impedir que o cardeal abusasse de sua autoridade e continuasse a destruir vítimas inocentes.

Meu memorando de 6 de dezembro de 2006 foi mantido por meus superiores e nunca me foi por eles devolvido com qualquer decisão concreta sobre esse assunto.

Posteriormente, por volta de 21-23 de abril de 2008, a declaração do Papa Bento XVI sobre o padrão de crise dos abusos sexuais nos Estados Unidos, por Richard Sipe, foi publicada na internet, em richardsipe.com. Em 24 de abril, foi transmitido pelo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal William Levada, ao Cardeal Secretário de Estado Tarcísio Bertone. Foi entregue a mim um mês depois, em 24 de maio de 2008.

No dia seguinte, entreguei um novo memorando ao novo Substituto, Fernando Filoni, que incluía o meu anterior de 6 de dezembro de 2006. Nele, resumi o artigo de Richard Sipe, que terminou com este apelo respeitoso e sincero ao Papa Bento XVI: “Eu me aproximo de Sua Santidade com a devida reverência, mas com a mesma intensidade que motivou Peter Damian a apresentar ao seu predecessor, o Papa Leão IX, uma descrição da condição do clero durante seu tempo. Os problemas de que ele falou são semelhantes e tão grandes nos Estados Unidos atualmente como eram então em Roma. Se Sua Santidade requisitar, eu pessoalmente apresentarei a você uma documentação daquilo sobre o qual eu falei.”

Encerrei meu memorando repetindo aos meus superiores que achava necessário intervir o quanto antes, retirando o status de cardeal de McCarrick e que ele fosse submetido às sanções estabelecidas pelo Código de Direito Canônico, que também prevê redução ao estado laico.

Este segundo memorando meu também nunca foi devolvido ao Departamento de Pessoal, e fiquei muito consternado com meus superiores pela ausência inconcebível de qualquer medida contra o Cardeal e pela contínua falta de qualquer comunicação comigo desde meu primeiro memorando de dezembro de 2006.

Mas, finalmente, fui informado com segurança, pelo Cardeal Giovanni Battista Re, então Prefeito da Congregação para os Bispos, que a corajosa e meritória declaração de Richard Sipe teve o resultado desejado. O Papa Bento XVI havia imposto as sanções ao Cardeal McCarrick semelhantes às que lhe foram agora impostas pelo Papa Francisco: o cardeal deixaria o seminário onde estava morando, ficaria proibido de celebrar [Missa] em público, de participar de reuniões públicas, de dar palestras, viajar, e com a obrigação de se dedicar a uma vida de oração e penitência.

Não sei quando o Papa Bento XVI tomou essas medidas contra McCarrick, se em 2009 ou em 2010, porque, durante esse período, fui transferido para o Governorato da Cidade do Vaticano, assim como não sei quem foi responsável por esse atraso incrível. Certamente não acredito que tenha sido o Papa Bento XVI, que, como Cardeal, havia denunciado repetidamente a corrupção presente na Igreja, e nos primeiros meses de seu pontificado já tomara uma firme posição contra a admissão no seminário de jovens com profundas tendências homossexuais. Creio que foi devido ao primeiro colaborador do Papa na época, o Cardeal Tarcisio Bertone, que notoriamente favoreceu a promoção de homossexuais em posições de mando, e estava acostumado a administrar as informações que julgava apropriadas para transmitir ao papa.

Em todo caso, o que é certo é que o papa Bento XVI impôs as citadas sanções canônicas a McCarrick e que elas foram comunicadas a ele pelo Núncio apostólico nos Estados Unidos, Pietro Sambi. Monsenhor Jean-François Lantheaume, então primeiro Conselheiro da Nunciatura em Washington e Encarregado de Negócios a.i. após a morte inesperada do Núncio Sambi em Baltimore, contou-me quando cheguei a Washington – e ele está pronto para testemunhar a respeito – sobre uma conversa tempestuosa, que durou mais de uma hora, que o Núncio Sambi teve com o Cardeal McCarrick, que ele havia convocado para a Nunciatura. Monsenhor Lantheaume me disse que “a voz do Núncio podia ser ouvida por todo o caminho até o final do corredor”.

As mesmas disposições do Papa Bento XVI foram então comunicadas a mim pelo novo Prefeito da Congregação para os Bispos, Cardeal Marc Ouellet, em novembro de 2011, em uma conversa ocorrida antes de minha partida para Washington, e foram incluídas entre as instruções da mesma Congregação para o novo Núncio.

Por sua vez, repeti-as ao Cardeal McCarrick no nosso primeiro encontro na Nunciatura. O cardeal, resmungando de maneira quase incompreensível, admitiu que talvez tivesse cometido o erro de dormir na mesma cama com alguns seminaristas em sua casa de praia, mas disse isso como se fosse algo que não tivesse importância.

Os fiéis insistentemente se perguntam como foi possível que ele fosse designado para Washington – e como Cardeal – e eles têm todo o direito de saber tanto quem sabia como quem cobria seus graves malfeitos. Portanto, é meu dever revelar o que sei sobre isso, começando com a Cúria Romana.

O cardeal Angelo Sodano foi secretário de Estado até setembro de 2006: toda a informação foi comunicada a ele. Em novembro de 2000, Nunzio Montalvo enviou-lhe seu relatório, passando-lhe a carta do padre Bonifácio Ramsey, acima mencionada, na qual denunciava os sérios abusos cometidos por McCarrick.

Sabe-se que Sodano tentou encobrir o escândalo do padre Maciel até o fim. Ele até mesmo removeu o Núncio na Cidade do México, Justo Mullor, que se recusou a ser cúmplice de seu esquema para cobrir Maciel e, em seu lugar, nomeou Sandri, então núncio para a Venezuela, que estava disposto a colaborar no encobrimento. Sodano até mesmo chegou ao ponto de emitir uma declaração à assessoria de imprensa do Vaticano em que se afirmava uma falsidade: a de que o papa Bento XVI decidira que o caso Maciel deveria ser considerado finalizado. Bento reagiu, apesar da vigorosa defesa de Sodano, e Maciel foi considerado culpado e irrevogavelmente condenado.

Foi a nomeação de McCarrick para Washington – e como Cardeal – uma obra de Sodano, quando João Paulo II já estava muito doente? Não nos é dado saber. No entanto, é legítimo pensar assim, mas não acho que ele tenha sido o único responsável por isso. McCarrick frequentemente ia a Roma e fez amigos em todos os lugares, em todos os níveis da Cúria. Se Sodano tivesse protegido Maciel, como parece certo, não há razão para que não tivesse feito o mesmo para McCarrick que, segundo muitos, possuia os meios financeiros para influenciar decisões. Sua nomeação para Washington teve a oposição do então prefeito da Congregação para os Bispos, o cardeal Giovanni Battista Re. Na Nunciatura, em Washington, há uma nota sua, escrita de próprio punho, na qual o cardeal Re se desassocia da indicação de McCarrick e declara que este foi o 14º na lista de Washington.

O relatório do Núncio Sambi, com todos os anexos, foi enviado ao cardeal Tarcisio Bertone, como secretário de Estado. Meus dois memorandos mencionados acima, de 6 de dezembro de 2006 e 25 de maio de 2008, também foram presumivelmente entregues a ele pelo Substituto. Como já foi mencionado, o Cardeal não teve dificuldade em, insistentemente, apresentar ao episcopado os candidatos conhecidos por serem homossexuais praticantes (cito apenas o muito bem conhecido caso de Vincenzo de Mauro, que foi nomeado Arcebispo-Bispo de Vigevano e depois removido porque estava debilitando seus seminaristas) e na filtragem e manipulação da informação que ele transmitiu ao Papa Bento XVI.

O cardeal Pietro Parolin, atual secretário de Estado, também foi cúmplice encobrindo os erros de McCarrick que, após a eleição do Papa Francisco, ostentava abertamente suas viagens e missões a vários continentes. Em abril de 2014, o Washington Times publicou uma reportagem de primeira página sobre a viagem de McCarrick à República Centro-Africana, e nada menos do que em nome do Departamento de Estado. Como Núncio para Washington, escrevi ao cardeal Parolin perguntando se as sanções impostas a McCarrick pelo papa Bento 16 ainda eram válidas. Nem é preciso dizer que minha carta nunca recebeu qualquer resposta!

O mesmo pode ser dito do Cardeal William Levada, antigo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, dos Cardeais Marc Ouellet, Prefeito da Congregação para os Bispos, Lorenzo Baldisseri, ex-Secretário da mesma Congregação para os Bispos e Arcebispo Ilson de Jesus Montanari, atual secretário da mesma Congregação. Eles estavam todos cientes, em razão de seu cargo, das sanções impostas pelo papa Bento XVI a McCarrick.

Os cardeais Leonardo Sandri, Fernando Filoni e Angelo Becciu, como Substitutos da Secretaria de Estado, conheciam em todos os detalhes a situação do Cardeal McCarrick.

Nem teria como os Cardeais Giovanni Lajolo e Dominique Mamberti não estarem sabendo disso. Como Secretários de Relações com os Estados, participaram várias vezes por semana de reuniões colegiadas com o Secretário de Estado.

No que diz respeito à Cúria Romana, por enquanto vou parar por aqui, mesmo que os nomes de outros prelados no Vaticano sejam bem conhecidos, mesmo alguns muito próximos do Papa Francisco, como o Cardeal Francesco Coccopalmerio e o Arcebispo Vincenzo Paglia, que pertencem à corrente homossexual em favor da subversão da doutrina católica sobre a homossexualidade, uma corrente já denunciada em 1986 pelo Cardeal Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, na Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a Pastoral das Pessoas Homossexuais. Os Cardeais Edwin Frederick O’Brien e Renato Raffaele Martino também pertencem à mesma corrente, embora com uma ideologia diferente. Outros pertencentes a esta corrente residem até mesmo no Domus Sanctae Marthae.

Agora para os Estados Unidos. Obviamente, o primeiro a ter sido informado das medidas tomadas pelo Papa Bento XVI foi o sucessor de McCarrick na Diocese de Washington, o Cardeal Donald Wuerl, cuja situação está agora completamente comprometida pelas recentes revelações sobre seu comportamento como bispo de Pittsburgh.

É absolutamente impensável que Nunzio Sambi, que era uma pessoa extremamente responsável, leal, direto e explícito em seu modo de ser (um verdadeiro filho de Romagna), não tenha falado com ele sobre isso. De qualquer forma, eu mesmo levantei o assunto com o cardeal Wuerl em várias ocasiões, e certamente não precisei entrar em detalhes porque ficou imediatamente claro para mim que ele estava plenamente ciente disso. Também me lembro, em particular, do fato de que tive que chamar sua atenção para isso, porque percebi que em uma publicação arquidiocesana, na contracapa em cores, havia um anúncio convidando jovens, que pensavam ter uma vocação para o sacerdócio, para uma reunião com o cardeal McCarrick. Telefonei imediatamente para o Cardeal Wuerl, que expressou sua surpresa para mim, dizendo que não sabia nada sobre o anúncio e que o cancelaria. Se, como ele agora continua afirmando, ele não sabia nada sobre os abusos cometidos por McCarrick e as medidas tomadas pelo papa Bento XVI, como explicar sua resposta?

Suas declarações recentes de que ele não sabia nada sobre isso, mesmo que a princípio ele astuciosamente se referisse à compensação para as duas vítimas, são absolutamente risíveis. O Cardeal mente desavergonhadamente e tenta persuadir seu chanceler, Monsenhor Antonicelli, para que minta também.

O cardeal Wuerl também mentiu claramente em outra ocasião. Após um evento moralmente inaceitável, autorizado pelas autoridades acadêmicas da Universidade de Georgetown, chamei a atenção de seu Presidente, Dr. John DeGioia, enviando-lhe duas cartas seguidas. Antes de encaminhá-las ao destinatário, para tratar adequadamente as coisas, entreguei pessoalmente uma cópia ao Cardeal com uma carta que eu havia escrito. O cardeal me disse que não sabia nada sobre isso. No entanto, ele não acusou o recebimento de minhas duas cartas, ao contrário do que ele costumava fazer. Mais tarde soube que o evento em Georgetown ocorreria há sete anos. Mas o Cardeal não sabia nada sobre isso!

O Cardeal Wuerl, bem ciente dos contínuos abusos cometidos pelo Cardeal McCarrick e das sanções impostas pelo Papa Bento XVI, transgredindo a ordem do Papa, também permitiu que ele residisse em um seminário em Washington D.C. Ao fazê-lo, ele colocou outros seminaristas em risco.

O bispo Paul Bootkoski, emérito de Metuchen, e o arcebispo John Myers, emérito de Newark, encobriram os abusos cometidos por McCarrick em suas respectivas dioceses e indenizaram duas de suas vítimas. Eles não podem negar isso e devem ser interrogados para revelar todas as circunstâncias e toda a responsabilidade com relação a esse assunto.

O cardeal Kevin Farrell, que foi recentemente entrevistado pela imprensa, também disse que não tinha a menor idéia sobre os abusos cometidos por McCarrick. Dadas suas posições exercidas em Washington, Dallas e agora Roma, acho que ninguém pode honestamente acreditar nele. Não sei se alguma vez ele foi perguntado se sabia sobre os crimes de Maciel. Se ele negasse isso, alguém acreditaria nele, já que ele ocupava posições de responsabilidade como membro dos Legionários de Cristo?

Em relação ao cardeal Sean O’Malley, eu simplesmente diria que suas últimas declarações sobre o caso McCarrick são desconcertantes e obscureceram totalmente sua transparência e credibilidade.

* * *

Minha consciência exige que eu também revele fatos que presenciei pessoalmente, com relação ao Papa Francisco, e que têm um significado dramático, que na condição de Bispo, compartilhando a responsabilidade colegiada de todos os bispos pela Igreja universal, não me permite permanecer silencioso, e que eu afirmo aqui, pronto para reafirmá-los sob juramento, invocando Deus como minha testemunha.

Nos últimos meses de seu pontificado, o Papa Bento XVI convocara uma reunião de todos os núncios apostólicos em Roma, como Paulo VI e São João Paulo II haviam feito em várias ocasiões. A data marcada para a audiência com o Papa foi sexta-feira, 21 de junho de 2013. O Papa Francisco manteve esse compromisso feito por seu antecessor. É claro que também vim para Roma de Washington. Foi meu primeiro encontro com o novo Papa, eleito apenas três meses antes, após a renúncia do papa Bento XVI.

Na manhã de quinta-feira, 20 de junho de 2013, fui ao Domus Sanctae Marthae, para juntar-me aos meus colegas que estavam hospedados lá. Assim que entrei no salão, encontrei o cardeal McCarrick, que usava a batina vermelha. Eu o cumprimentei respeitosamente como sempre fiz. Ele imediatamente me disse, em um tom entre ambíguo e triunfante: “O Papa me recebeu ontem, amanhã estou indo para a China”.

Na época, eu não sabia nada de sua longa amizade com o cardeal Bergoglio e do papel importante que ele desempenhou em sua recente eleição, como o próprio McCarrick revelaria mais tarde em uma palestra na Universidade de Villanova e em uma entrevista ao National Catholic Reporter. Também nunca pensei no fato de ele ter participado das reuniões preliminares do recente conclave e do papel que ele pôde desempenhar como cardeal eleitor no conclave de 2005. Portanto, não percebi imediatamente o significado da mensagem criptografada que McCarrick havia comunicado a mim, mas isso ficaria claro nos dias imediatamente seguintes.

No dia seguinte, a audiência com o Papa Francisco ocorreu. Depois de seu discurso, que foi parcialmente lido e parcialmente improvisado, o Papa quis saudar todos os núncios um a um. Em fila indiana, lembro que estava entre os últimos. Quando chegou a minha vez, tive tempo de dizer-lhe: “Eu sou o Núncio dos Estados Unidos”. Ele imediatamente me atacou com um tom de reprovação, usando estas palavras: “Os bispos nos Estados Unidos não devem ser ideologizados! Eles devem ser pastores!” É claro que eu não estava em posição de pedir explicações sobre o significado de suas palavras e a maneira agressiva com que ele havia me censurado. Eu tinha em mãos um livro em português que o cardeal O’Malley havia me enviado para que o entregasse ao papa alguns dias antes, dizendo-me “para que ele pudesse repassar seu português antes de ir ao Rio para a Jornada Mundial da Juventude”. Eu entreguei a ele imediatamente e, assim, me libertei daquela situação extremamente desconcertante e embaraçosa.

No final da audiência, o Papa anunciou: “Aqueles de vocês que ainda estiverem em Roma no próximo domingo estão convidados a concelebrar comigo no Domus Sanctae Marthae”. Pensei naturalmente em continuar esclarecendo o quanto antes o que o papa pretendeu me dizer.

No domingo, 23 de junho, antes da concelebração com o Papa, perguntei ao Monsenhor Ricca que, como encarregado da casa, ajudou-nos a colocar as vestes, se poderia perguntar ao Papa se poderia me receber em algum momento da semana seguinte. Como eu poderia retornar a Washington sem ter esclarecido o que o Papa queria de mim? No final da Missa, enquanto o Papa cumprimentava os poucos leigos presentes, Monsenhor Fabian Pedacchio, seu secretário argentino, aproximou-se e disse: “O Papa me disse para perguntar se você está livre agora!” Naturalmente, respondi que estava à disposição do Papa e que agradeci a ele por ter me recebido imediatamente. O Papa me levou ao primeiro andar de seu apartamento e disse: “Temos 40 minutos antes do Angelus”.

Comecei a conversa, perguntando ao Papa o que ele pretendia me dizer com as palavras que ele me dirigira quando o cumprimentei na sexta-feira anterior. E o Papa, num tom muito diferente, amistoso, quase afetuoso, disse-me: “Sim, os Bispos nos Estados Unidos não devem ser ideologizados, não devem ser de direita como o Arcebispo de Filadélfia (o Papa não me disse o nome do Arcebispo) eles devem ser pastores, e eles não devem ser de esquerda (e ele acrescentou, levantando ambos os braços) e quando eu digo de esquerda quero dizer homossexual”. É claro que a lógica da correlação entre ser de esquerda e ser homossexual me escapou, mas não acrescentei mais nada.

Imediatamente depois, o Papa me perguntou de maneira enganosa: “Como é o cardeal McCarrick?” Respondi-lhe com total franqueza e, para ser mais preciso, com grande ingenuidade: “Santo Padre, não sei se conhece o cardeal McCarrick, mas se você perguntar à Congregação para os Bispos há um dossiê muito espantoso sobre ele. Ele corrompeu gerações de seminaristas e padres e o papa Bento ordenou que ele se retirasse para uma vida de oração e penitência”. O Papa não fez o menor comentário sobre minhas palavras muito severas e não demonstrou nenhuma expressão de surpresa em seu rosto, como se já soubesse do assunto há algum tempo, e imediatamente mudou de assunto. Mas então, qual foi o propósito do papa em me fazer essa pergunta: “Como é o cardeal McCarrick?” Ele, claramente, queria descobrir se eu era um aliado de McCarrick ou não.

De volta a Washington, tudo ficou muito claro para mim, graças também a um novo evento que ocorreu apenas alguns dias depois do meu encontro com o Papa Francisco. Quando o novo Bispo Mark Seitz tomou posse da Diocese de El Paso, em 9 de julho de 2013, enviei o primeiro Conselheiro, Monsenhor Jean-François Lantheaume, enquanto eu fui a Dallas nesse mesmo dia para uma reunião internacional sobre bioética. Quando voltou, o Monsenhor Lantheaume disse-me que em El Paso conhecera o cardeal McCarrick e que, ao afastá-lo, disse-lhe quase as mesmas palavras que o Papa me dissera em Roma: “os Bispos nos Estados Unidos não devem ser ideologizados, eles não devem ser de direita, eles devem ser pastores… ” Eu fiquei surpreso! Ficou claro, portanto, que as palavras de censura que o Papa Francisco me dirigira em 21 de junho de 2013 foram postas em sua boca no dia anterior pelo Cardeal McCarrick. Também a menção do Papa “não como o Arcebispo de Filadélfia” pode ser atribuída a McCarrick, porque houve um forte desacordo entre os dois sobre a admissão à Comunhão de políticos pró-aborto. Em sua comunicação aos bispos, McCarrick manipulou uma carta do então cardeal Ratzinger que proibia dar-lhes comunhão. Na verdade, eu também sabia como certos cardeais, como Mahony, Levada e Wuerl, estavam intimamente ligados a McCarrick; eles se opuseram às nomeações mais recentes feitas pelo papa Bento XVI para cargos importantes como Filadélfia, Baltimore, Denver e San Francisco.

Não feliz com a armadilha que ele havia armado para mim em 23 de junho de 2013, quando me perguntou sobre McCarrick, apenas alguns meses depois, no encontro que me concedeu em 10 de outubro de 2013, o Papa Francisco preparou uma segunda armadilha para mim, desta vez a respeito de um segundo de seus protegidos, o Cardeal Donald Wuerl. Ele me perguntou: “Como é o Cardeal Wuerl, ele é bom ou ruim?” Eu respondi: “Santo Padre, eu não lhe direi se ele é bom ou ruim, mas eu lhe contarei dois fatos”. Esses fatos são os que eu já mencionei acima, que dizem respeito ao descuido pastoral de Wuerl em relação aos desvios aberrantes da Universidade de Georgetown e ao convite da Arquidiocese de Washington aos jovens aspirantes ao sacerdócio para uma reunião com McCarrick! Mais uma vez, o Papa não mostrou qualquer reação.

Também ficou claro que, desde a época da eleição do Papa Francisco, McCarrick, agora livre de todas as restrições, sentia-se livre para viajar continuamente, para dar palestras e entrevistas. Em um esforço conjunto com o cardeal Rodriguez Maradiaga, ele se tornou o responsável principal e organizador das nomeações na Cúria e nos Estados Unidos, e o mais consultado no Vaticano para as relações com o governo Obama. É assim que se explica que, como membros da Congregação para os Bispos, o Papa substituiu o cardeal Burke por Wuerl e imediatamente nomeou Cupich logo depois de ter sido nomeado Cardeal. Com essas nomeações, a Nunciatura em Washington estava agora fora de cena na nomeação dos bispos. Além disso, ele nomeou o brasileiro Ilson de Jesus Montanari (o grande amigo de seu secretário particular argentino Fabian Pedacchio) como secretário da mesma Congregação para os Bispos e secretário do Colégio dos Cardeais, promovendo-o em um único salto de um simples servidor daquele departamento a Arcebispo Secretário. Algo sem precedentes para uma posição tão importante!

As nomeações de Blase Cupich para Chicago e Joseph W. Tobin para Newark foram orquestradas por McCarrick, Maradiaga e Wuerl, unidos por um pacto perverso de abusos pelo primeiro e, pelo menos, de encobrimento de abusos pelos outros dois. Seus nomes não estavam entre os apresentados pela Nunciatura para Chicago e Newark.

Em relação a Cupich, não se pode deixar de notar sua arrogância ostensiva e a insolência com que ele nega as evidências que agora são óbvias para todos: que 80% dos abusos encontrados foram cometidos contra jovens adultos por homossexuais que estavam em uma relação de autoridade com suas vítimas. Durante o discurso proferido quando tomou posse na Diocese de Chicago, na qual estive presente como representante do Papa, Cupich brincou que certamente não se deve esperar que o novo Arcebispo ande sobre a água. Talvez fosse o suficiente para ele poder permanecer com os pés no chão e não tentar transformar a realidade de cabeça para baixo, cegado por sua ideologia pró-gay, como afirmou em uma recente entrevista para a America Magazine. Exaltando sua especialidade na matéria, tendo sido presidente do Comitê de Proteção de Crianças e Jovens da USCCB, ele afirmou que o principal problema na crise de abuso sexual por parte do clero não é a homossexualidade, e que afirmar isso é apenas uma maneira de desviar a atenção do problema real que é o clericalismo. Em apoio a esta tese, Cupich “estranhamente” fez referência aos resultados de pesquisas realizadas no auge da crise de abuso sexual de menores no início dos anos 2000, enquanto ele “abertamente” ignorou que os resultados dessa investigação foram totalmente negados pelos subsequentes Relatórios Independentes da Faculdade John Jay de Justiça Criminal em 2004 e 2011, que concluíram que, em casos de abuso sexual, 81% das vítimas eram do sexo masculino. Na verdade, o padre Hans Zollner, SJ, vice-reitor da Pontifícia Universidade Gregoriana, presidente do Centro de Proteção da Criança e membro da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores, disse recentemente ao jornal La Stampa que “na maioria dos casos é uma questão de abuso homossexual”.

A nomeação de McElroy em San Diego também foi orquestrada a partir de cima, com uma ordem peremptória criptografada para mim, como Núncio, do cardeal Parolin: “Reserve a Diocese de San Diego para McElroy”. McElroy também estava ciente dos abusos de McCarrick, como pode ser visto em uma carta enviada a ele por Richard Sipe em 28 de julho de 2016.

Esses personagens estão intimamente associados a indivíduos pertencentes em particular à ala desviada da Companhia de Jesus, infelizmente hoje uma maioria, que já havia sido motivo de séria preocupação para Paulo VI e posteriores pontífices. Precisamos apenas considerar o padre Robert Drinan, S.J., que foi eleito quatro vezes para a Câmara dos Representantes, e foi um firme defensor do aborto; ou o padre Vincent O’Keefe, S.J., um dos principais promotores do ‘The Land O’Lakes Statement de 1967’, que comprometeu seriamente a identidade católica de universidades e faculdades nos Estados Unidos. Deve-se notar que McCarrick, então presidente da Universidade Católica de Porto Rico, também participou dessa tarefa inauspiciosa que era tão prejudicial à formação das consciências da juventude americana, intimamente associada, como era, com a ala desviada dos jesuítas.

Padre James Martin, SJ, aclamado pelas pessoas mencionadas acima, em particular Cupich, Tobin, Farrell e McElroy, nomeado Consultor da Secretaria de Comunicações, conhecido ativista que promove a agenda LGBT, escolhido para corromper os jovens que em breve reunir-se-ão em Dublin para o Encontro Mundial das Famílias, nada mais é que um triste exemplo recente daquela ala desviada da Companhia de Jesus.

O Papa Francisco pediu repetidamente a total transparência na Igreja e para que os bispos e fiéis atuem com parrésia. Os fiéis em todo o mundo também exigem isso dele, e de maneira exemplar. Ele deve declarar honestamente quando soube dos crimes cometidos por McCarrick, que abusou de sua autoridade com seminaristas e padres.

Em todo caso, o Papa soube, por mim, em 23 de junho de 2013, e continuou a encobri-lo. Ele não levou em conta as sanções que o Papa Bento tinha imposto a ele e fez dele seu conselheiro de confiança junto com Maradiaga.

Este último [Maradiaga] está tão confiante na proteção do papa que pode descartar como “fofoca” os apelos sinceros de dezenas de seminaristas, que encontraram coragem para escrever-lhe depois que um deles tentou cometer suicídio por abuso sexual homosexual no seminário.

A essa altura, os fiéis já entenderam bem a estratégia de Maradiaga: insultar as vítimas para salvar a si mesmo, mentir até o fim para encobrir o abismo de abusos de poder, má-administração do patrimônio da Igreja e desastres financeiros mesmo contra amigos íntimos, como no caso do embaixador de Honduras Alejandro Valladares, ex-decano do Corpo Diplomático da Santa Sé.

No caso do ex-bispo auxiliar Juan José Pineda, depois do artigo publicado no semanário L’Espresso em fevereiro passado, Maradiaga afirmou no jornal Avvenire: “Foi meu bispo auxiliar Pineda quem pediu a visita, assim como para “limpar” seu nome depois de ter sido submetido a muita calúnia.” Agora, em relação a Pineda, a única coisa que se tornou pública é que sua renúncia foi simplesmente aceita e, por causa disso, qualquer possibilidade de responsabilização, tanto de Pineda como de Maradiaga, acabou se esvaindo.

Em nome da transparência tão aclamada pelo Papa, o relatório que o “Visitador”, o bispo argentino Alcides Casaretto, entregou há mais de um ano só e diretamente ao Papa, deve ser tornado público.

Finalmente, a recente nomeação como Substituto do Arcebispo Edgar Peña Parra também está conectada com Honduras, ou seja, com Maradiaga. De 2003 a 2007, Peña Parra trabalhou como conselheira na Nunciatura de Tegucigalpa. Como Delegado para as Representações Pontifícias, recebi informações preocupantes sobre ele.

Em Honduras, um escândalo tão grande quanto o do Chile está prestes a se repetir. O Papa defende seu homem, o Cardeal Rodríguez Maradiaga, até o amargo fim, como fizera no Chile com o bispo Juan de la Cruz Barros, a quem ele próprio nomeara bispo de Osorno contra o conselho dos bispos chilenos. Primeiro, ele insultou as vítimas de abuso. Então, somente quando foi forçado pela mídia e por uma revolta das vítimas e fiéis chilenos ele reconheceu seu erro e pediu desculpas ao declarar que tinha sido mal informado, causando uma situação desastrosa para a Igreja no Chile, mas continuando a proteger os dois cardeais chilenos Errazuriz e Ezzati.

Mesmo no trágico caso de McCarrick, o comportamento do Papa Francisco não foi diferente. Ele sabia pelo menos em 23 de junho de 2013 que McCarrick era um predador em série. Embora ele soubesse que ele era um homem corrupto, encobriu-o até o amargo fim; de fato, ele fez McCarrick seu próprio conselheiro, o que certamente não foi inspirado por boas intenções e por amor à Igreja. Apenas quando forçado pelo relatório do abuso de um menor (novamente com base na atenção da mídia), é que ele resolveu agir [em relação a McCarrick] para salvar sua imagem na mídia.

Agora, nos Estados Unidos, um coro de vozes está aumentando, especialmente junto aos fiéis leigos, aos quais recentemente se juntaram vários bispos e padres, pedindo para que todos aqueles que, por seu silêncio, encobrem o comportamento criminoso de McCarrick, ou que o usaram para avançar sua carreira ou promover suas intenções, ambições e poder na Igreja, renunciaem.

Mas isso não será suficiente para curar a situação de comportamento imoral extremamente grave do clero: bispos e padres. Um tempo de conversão e penitência deve ser proclamado. A virtude da castidade deve ser recuperada no clero e nos seminários. A corrupção no mau uso dos recursos da Igreja e das ofertas dos fiéis deve ser combatida. A gravidade do comportamento homossexual deve ser denunciada. As redes homossexuais presentes na Igreja devem ser erradicadas, como escreveu recentemente Janet Smith, professora de Teologia Moral no Seminário Maior do Sagrado Coração, em Detroit. “O problema do abuso do clero”, ela escreveu, “não pode ser resolvido simplesmente pela renúncia de alguns bispos, e menos ainda por diretivas burocráticas. O problema mais profundo está nas redes homossexuais dentro do clero que devem ser erradicadas”. Essas redes homossexuais, hoje difundidas em muitas dioceses, seminários, ordens religiosas, etc., atuam ocultas em segredo e encontram-se no poder dos tentáculos do polvo, estrangulam vítimas inocentes e vocações sacerdotais e estrangulam toda a Igreja.

Imploro a todos, especialmente aos Bispos, que se manifestem a fim de derrotar essa conspiração de silêncio tão difundida e que denunciem os casos de abuso de que tenham ciência à mídia e às autoridades civis.

Atentemo-nos para a mensagem mais poderosa que São João Paulo II nos deixou como herança: não tenha medo! Não tenha medo!

Em sua homilia de 2008 na festa da Epifania, o Papa Bento XVI nos lembrou que o plano de salvação do Pai havia sido plenamente revelado e realizado no mistério da morte e ressurreição de Cristo, mas precisa ser bem recebido na história humana, que é sempre um história de fidelidade da parte de Deus e infelizmente também de infidelidade por parte de nós homens. A Igreja, depositária da bênção da Nova Aliança, assinada no sangue do Cordeiro, é Santa, mas composta de pecadores, como Santo Ambrósio escreveu: a Igreja é “imaculada ex maculatis”, ela é santa e imaculada, embora em sua jornada terrena, ela seja composta de homens manchados de pecado.

Quero relembrar essa indefectível verdade da santidade da Igreja para as muitas pessoas que foram tão profundamente escandalizadas pelo comportamento abominável e sacrílego do ex-arcebispo de Washington, Theodore McCarrick; pela grave, desconcertante e pecaminosa conduta do Papa Francisco e pela conspiração do silêncio de tantos pastores, e que são tentados a abandonar a Igreja, desfigurados por tantas ignomínias.

No Angelus de domingo, 12 de agosto de 2018, o Papa Francisco disse estas palavras: “Todo mundo é culpado pelo bem que poderia ter feito e não fez… Se não nos opomos ao mal, nós o alimentamos tacitamente. Precisamos intervir onde o mal está se espalhando, porque o mal se espalha onde cristãos ousados que se opõem ao mal com o bem estão faltando”. Se isto é justo para ser considerado uma responsabilidade moral séria para todo crente, quanto mais grave é para o pastor supremo da Igreja, que no caso de McCarrick não só não se opôs ao mal mas se associou em fazer o mal com alguém que ele sabia ser profundamente corrupto. Ele seguiu o conselho de alguém que ele bem tinha em conta como pervertido, por isso multiplicou exponencialmente, com sua autoridade suprema, o mal feito por McCarrick. E quantos outros pastores malvados Francisco continua a apoiar na destruição ativa da Igreja por eles realizada!

Francisco está abdicando do mandato que Cristo deu a Pedro para endossar os irmãos. De fato, por sua ação, ele os dividiu, levou-os ao erro e encorajou os lobos a continuarem separando as ovelhas do rebanho de Cristo.

Neste momento extremamente dramático para a Igreja universal, deve reconhecer seus erros e, seguindo o princípio proclamado de tolerância zero, o Papa Francisco deve ser o primeiro a dar um bom exemplo para os cardeais e bispos que encobrem os abusos de McCarrick e deve renunciar juntamente com todos eles.

Mesmo com desânimo e tristeza pela enormidade do que está acontecendo, não percamos a esperança! Sabemos bem que a grande maioria dos nossos pastores vive sua vocação sacerdotal com fidelidade e dedicação. É em momentos de grande provação que a graça do Senhor é revelada em abundância e torna Sua clemência ilimitada disponível a todos; mas é concedida somente àqueles que estão verdadeiramente arrependidos e sinceramente propõem emendar suas vidas. Este é um momento favorável para a Igreja confessar seus pecados, converter-se e fazer penitência.

Rezemos todos pela Igreja e pelo Papa, lembremo-nos de quantas vezes nos pediu para rezar por ele!

Vamos todos renovar a fé na Igreja, nossa Mãe: “Eu acredito em uma igreja santa, católica e apostólica!”

Cristo nunca abandonará Sua Igreja! Ele a gerou em Seu Sangue e continuamente a revive com Seu Espírito!

Maria, Mãe da Igreja, rogai por nós!
Maria, Virgem e Rainha,

Mãe do Rei da Glória, rogai por nós!

Roma, 22 de agosto de 2018
Reinado da Santíssima Virgem Maria

Tradução oficial por Diane Montagna