Institutos de pesquisa eleitoral na mira da justiça

Fraudes envolvendo institutos de pesquisa e políticos demonstram uma tamanha promiscuidade com a política que não há como excluir a sua influência premeditada na opinião pública. Afinal, foi para isso que as pesquisas de opinião foram criadas.

Recentemente, em depoimento de delação premiada, o ex-executivo da JBS, Ricardo Saud afirmou que sua empresa repassou propina ao senador Renan Calheiros por intermédio do instituto de pesquisa Ibope, durante as eleições de 2014. De acordo com o delator, a JBS também ajudou o PT comprar o apoio de partidos naquelas eleições, entre eles o PMDB, que ameaçava fazer aliança com Aécio Neves em Minas Gerais. A negociação com o Ibope, a princípio, apenas consistia em notas frias para repasse de propina.

“O Ibope fazia pesquisa para ele [Renan] e eles pagavam com essas propinas. O Ibope recebia propina. Nunca fez serviço para o grupo [JBS]”, afirmou o delator. O Ibope é o principal órgão de pesquisa responsável por resultados eleitorais e de popularidade de políticos. Ainda esta semana divulgou o último índice de popularidade de Temer, que não passaria de 5%, além de apontar Lula como favorito para 2018. A relação do instituto com a JBS, cuja delação incluiu a gravação de Temer que provocou o estopim da crise atual, provocou suspeita sobre suas pesquisas. Mas o Ibope não é o único instituto a se tornar suspeito.

Ainda este ano, a Polícia Federal indiciou Marcos Coimbra, proprietário do instituto de pesquisa Vox Populi na Operação Acônimo, por suspeita de simular um contrato em operação de caixa dois para a campanha de Fernando Pimentel (PT). O Vox Populi costuma fazer pesquisas para partidos e movimentos de esquerda. Recentemente, apontou que 68% da população acreditava que a Operação Lava-Jato está sendo injusta e errando ao acusar Lula. O marqueteiro João Santana, em delação, afirmou que a campanha eleitoral do PT pagou diversos institutos de pesquisa com o dinheiro de empresas como a Andrade Gutierrez.

Portanto, a participação dessas empresas para o financiamento em caixa dois de campanhas, juntamente com o pagamento de institutos de pesquisa com este mesmo dinheiro não declarado, põe em dúvida todas as pesquisas eleitorais.

Os institutos de pesquisa disseram, em sua defesa, que de fato fizeram pesquisas a pedido da JBS para os produtos da empresa, o que justificaria o montante pago por meio deles. Ainda não explica.

Afinal, os institutos de pesquisa estão historicamente ligados à influência da opinião pública. O seu sucesso, no entanto, se deve muito mais ao desconhecimento público a respeito da sua verdadeira função.

Pesquisas de opinião foram criadas para influenciar a opinião pública

As primeiras pesquisas científicas no sentido de avaliar o clima de opinião da sociedade foram orientadas a partir dos estudos de Paul Lazarsfeld, no instituto Mass Comunication Research, financiado pela fundação Rockefeller. Na época, até mesmo Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt, fez parte do instituto de pesquisa. Mas desistiu depois de perceber que o objetivo estava mais alinhado a produzir influência na opinião pública do que conhecê-la. Diversos avanços foram feitos na área da pesquisa social sobre o percurso da opinião nas massas, de modo que o grupo de Lazarsfeld passou a ser chamado e consultado por campanhas eleitorais do mundo todo (conheça essa história em A transformação social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda).

Nos anos seguintes, muitos outros avanços foram feitos. Não há mais como dizer que políticos e marqueteiros, assim como organismos internacionais de mediawacht, não conheçam esses estudos ou não saibam do seu principal efeito.

Pelo menos desde o início da década de 1980, cientistas políticos, jornalistas e políticos profissionais conhecem muito bem o efeito e as potencialidades de uso das pesquisas de opinião para o seu proveito. Isso porque data dessa época a primeira publicação da pequisa que virou livro A Espiral do Silêncio, no qual se relaciona e comprova a causalidade intrínseca entre a percepção da opinião geral e a formação do juízo individual.

Na chamada Teoria da Espiral do Silêncio, a cientista política Elisabeth Noelle-Neumann percebeu a incrível coincidência entre o desejo ou não dos indivíduos falarem suas opiniões em público com a sua percepção da hegemonia de determinada opinião. Quando se percebe a opinião majoritária diferente da individual, opta-se pelo silêncio, gerando uma verdadeira espiral onde as opiniões individuais seguem a percepção do clima de opinião. A publicação de pesquisas de opinião, portanto, agem diretamente na determinação da fala pública ou do silêncio.

Em alguns países, as pesquisas eleitorais são proibidas em épocas próximas do pleito, já que sabidamente influenciam a opinião pública, incentivando-a a optar pelo candidato ou corrente que pareça mais apoiado socialmente.

Talvez tenha sido bastante providencial que o livro A espiral do silêncio não tenha sido publicado em língua portuguesa até agora.

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