Ideologia e o silêncio em espiral

A teoria da espiral do silêncio foi pensada pela cientista política Elisabeth Noelle-Neumann e diz respeito ao silêncio provocado pelo esforço social das pessoas em adequarem-se a uma determinada orientação opinativa que acreditam ser hegemônica. Diz-se “acreditam” pois pode ou não ser hegemônica. A primeira condição para que ocorra este fenômeno é o desejo, o anseio psicológico pela sociabilidade ou o medo do isolamento social. Obviamente que este medo vem de uma situação ou sensação de situação de dependência ou fragilidade diante da opinião massiva ou do efeito dela. Parecendo-nos impossível saber o que pensa a maioria, o esforço em diagnosticar o clima de opinião parece, portanto, infrutífero. Cansado, o indivíduo desiste e conforma-se ao pensamento hegemônico.

Diz Dante Alighieri no livro Banquete:
“Como a parte sensitiva da alma tem seus olhos, com os quais capta a diferença das coisas pelo fato que são extremamente coloridas, assim a parte racional tem seus olhos, com os quais capta a diferença das coisas enquanto são ordenadas para um certo fim. Isto é a distinção. Assim como aquele que é cego dos olhos sensíveis segue sempre aqueles que o guiam, bem ou mal, assim também aquele que é cego da luz da distinção segue sempre em seu julgamento a opinião corrente, seja correta ou falsa. Por isso, se por acaso o guia é cego, é certo que este e aquele, também cego e que nele se apóia, terminem mal. Por esta razão está escrito que ‘o cego que guia outro cego, ambos cairão no fosso'”.

O Brasil da mídia de monopólio revolucionário, a cegueira racional, esterilidade das distinções, causa coisa ainda pior: a cegueira provocada pela ideologia produz até mesmo a cegueira sensível. Vê-se uma mulher e é preciso trata-la como homem. Vê-se um travesti e é preciso fingir não ver, simular estar vendo um homem ou estar em uma situação tranquilamente normal.

A necessidade de conformação com a opinião massiva só pode ser uma consequência da sociedade de massas supostamente esclarecida, algo potencializado pela crença na “sociedade da informação” Quanta informação é preciso para se saber qual o clima real de opinião para, enfim, adaptarmos nossas ideias e olhos para evitar maiores problemas?

Dante resolve facilmente a questão falando da cegueira. A opinião pública serve de guia para o cego social. Sendo a mídia o canal pelo qual se vai saber a respeito da opinião pública, é ela a grande guia dos cegos. Mas o que acontece quando os guias também são cegos, como lembra Dante? Será que os guias conseguem guiar-se a si mesmos?

O que dizer do jornalista que se orienta por jornais, livros de jornalistas, blogs de colunistas e todo tipo de especulação vindas de outros jornalistas que, por sua vez, também se orientam por jornais?

Se a cegueira é generalizada, falta o apelo à distinção referida pelo poeta medieval. E não é a toa que nas faculdades de jornalismo diga-se que não há verdade, mas somente afirmações verdadeiras. Seguindo a máxima positivista na qual não há princípios eternos mas somente fenômenos empiricamente verificáveis, o jornalista pós-moderno se confronta com a lógica pré-socrática do consenso popular. Tendo como verdade um conceito subjetivo, não sobra muita coisa além de uma guerra de verdades individuais que concretiza o Omni contra omnis de Hobbes e a necessidade de um contrato social que virá profeticamente pela nomenklatura do regimen na pessoa mais do que insuspeita da reforma, do concílio, da assembleia, dos comitês, dos sovietes.

A destruição que começa na linguagem termina na política.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.
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