Xuxa e a descriminalização da pedofilia

A polêmica envolvendo a apresentadora Xuxa serve muito mais às vozes pró-pedofilia do que ao combate a ela. Explico: a tensão inevitável entre a recente revelação e a antiga polêmica sobre o filme “Amor, estranho amor”, de 1982, tende a ser favorável àqueles que desejam em breve legalizar a prática sexual com menores. O suposto abuso sofrido pela apresentadora em sua infãncia deve agora determinar a sua conduta reprovável no início da carreira. Isso a transforma em vítima da própria pedofilia e consequentemente vítima da sociedade que a condena pela ação da qual não pode ser responsabilizada. A tensão dialética entre os dois tipos de vitimização vai possibilitar a mudança de mentalidade e a pedofilia será descriminalizada.

 

Engana-se quem pensa que a prática da pedofilia está muito “queimada” na sociedade só por causa das campanhas contra. A publicidade como meio de construção de sentido trabalha com uma noção dialética, o que torna o conteúdo da mensagem algo irrelevante para a causa. Bernard Cohen já dizia que a mídia pode não ser capaz de dizer como as pessoas pensam, mas é perfeitamente capaz de dizê-las sobre o quepensar. O que importa é gerar o debate, criar um horizonte simbólico que antes não existia para, depois, preenchê-lo com o sentido necessário à mudança desejada.

 

Essas técnicas foram primeiramente desenvolvidas por Edward Bernays, considerado o pai da publicidade e inspirador de Joseph Goebbels, publicitário de Hitler. Gênio sabiamente ocultado da história do século XX, Bernays, que era sobrino de Freud e teve suas técnicas amplamente aplicadas por institutos de pesquisa ligados à fundações internacionais de controle das massas que, coincidência ou não, controlam a maioria das empresas de comunicação do mundo atualmente.

Foi responsável, dentre centenas de outras campanhas, pela adesão das mulheres ao cigarro, o que antes era visto como tabu. A sua especialidade era modificar a imagem simbólica de determinada prática para torná-lo aceitavel e mais tarde relacionar a um determinado produto vendável. Este tipo de técnica é aplicada mediante a criação de eventos ou fatos midiáticos que estimulem a discussão e a opinião sobre o assunto, coincidentes com outros tipos de eventos ou fatos. O que antes não era discutido por questões de moralidade, passa a ser pauta dentro dos lares, empresas, cafés etc, dando a idéia de uma demanda natural do público. Com essa mudança de posição, o tema trabalhado ganha espaço consideravel.

Vejamos como isso acontece no caso recente de Xuxa. As declarações da apresentadora no programa Fantástico trazem à mente do telespectador minimamente informado as cenas de pedofilia do filme “Amor, estranho amor”, de 1982, onde a futura rainha dos baixinhos deita-se nua com um menino de 12 anos. Isso acenderá uma avalanche de menções ao passado. Ao ser colocada em pauta, Xuxa passa a ser um assunto vinculado à pedofilia, mesmo que oficialmente como vítima. O processo de vitimização da apresentadora iniciado a partir das declarações, torna o deslize do passado de sua carreira algo perdoável e até certo ponto determinado pelo abuso na infância. Vincular a apresentadora ao antigo deslize passará a ser considerado golpe baixo e Xuxa será então uma vítima de preconceito diante de um ato sem possibilidade de culpa. A descriminalização oficial da pedofilia, no caso de Xuxa, será fácil. A apresentadora na época era menor de idade, o que torna impossível qualquer punição jurídica, além do fato de que o suposto crime preescreveria dado o tempo decorrido. O fato simbólico de termos uma celebridade pedófila atiçará o desejo de autodeterminação de milhares de pedófilos ocultos, ou com desejos ocultos, criando uma demanda de fatos e informações antes inexistente.

Toda a teoria da comunicação de massa é a descrição deste tipo de processo de transferência e mudança de sentido e, mesmo que todos os teóricos estivessem bem intencionados, seria muito difícil que conseguissem transmitir suas boas intenções aos organismos de engenharia social que desde a Segunda Guerra tentam controlar a cognição das massas financiando o trabalho destes mesmos pesquisadores. Portanto, uma explicação mais ingênua deste processo deve ser descartada em favor do bom senso.

A causa da pedofilia

Recentemente a Comissão sobre População e Desenvolvimento das Nações Unidas considerou os “direitos de saúde sexual e reprodutiva” para crianças de até dez anos. Até mesmo o secretário-geral Ban Ki-Moon concordou. Numa declaração recentemente dada ele disse: “Os jovens, tanto quanto todas as pessoas, têm o mesmo direito humano à saúde, inclusive saúde sexual e reprodutiva”.

(http://www.c-fam.org/fridayfax/portuguese/volume-15/onu-poder%C3%A1-reconhecer-direitos-sexuais-para-crian%C3%A7as-de-dez-anos.html)

A associação desse direito com jovens, principalmente crianças, feita pelo secretário-geral e pela Comissão sobre População e Desenvolvimento (CPD) é mais polêmica considerando que se pôde definir o direito como incluindo acesso ao aborto e à contracepção. É claro que os pedófilos não querem ter que arcar com gravidez de suas vítimas.

Auxiliado de um lado pela noção de opressão sexual criada por seu tio Sigmund Freud (responsável máximo pela erotização das crianças) e de outro por Walter Lippmann, um dos fundadores do Council of Foreign Relations que via a opinião pública como uma turba de incultos sem o controle de uma classe de esclarecidos, Bernays entende que a necessidade de consumo é muito pouco para suprir a demanda de sonhos que seriam necessários para tornar a massa mais controlável. No livro Propaganda, de 1928 (que estranhamente não conta com tradução para o português), o pai das relações públicas admite ser extremamente imprudente que os governos do futuro não contem com técnicas bem definidas para controlar a opinião pública, já que ela se tornaria caótica e perigosamente incontrolável. Era consenso entre estudiosos de comunicação a necessidade daquilo que o romancista H. G. Wells chamava de “governo invisível”.

Quando aliadas a técnicas da psicanálise (Bernays foi o primeiro divulgador de Freud nas Américas), a temática sexual atraiu a atenção de teóricos que tinham a sociedade não como objeto de estudo mas como de experiências para as suas teorias. Alfred Kinsey, em 1948, ficou famoso por seu Relatório que apontava números sobre o homossexualismo que serviram bem para campanhas pela descriminalização nos EUA da época. O que podemos dizer de relevante sobre este sujeito é que ele era adepto declarado do satanista Aleister Crowley e que foi diversas vezes acusado de fazer experiências sexuais com crianças [ler O Movimento Homossexual, de Julio Severo (http://pt.scribd.com/doc/62711163/O-Movimento-Homossexual)]. Hoje sabe-se que o relatório de Kinsey foi um embuste dos mais escandalosos, mas pouco adiantou, já que o objetivo era somente criar uma militância e um desejo de autodeterminação entre homossexuais. Até hoje estes números são sempre utilizados por movimentos pela diversidade. Para Kinsey, amparado pela repressão sexual denunciada por Freud, a sociedade é enrustida e hipócrita, toda ela doente e libertina.

Quando o homossexualismo era sinônimo de safadeza e era crime, os movimentos lutaram para virar doença, vitimizando-os e tornando-os resultado de desvios mentais. Quando foi diagnosticado como doença, lutaram para virar opção e encaixá-la na luta de gênero e movimentos sociais, como é hoje. Com o caso Xuxa a pedofilia segue o mesmo caminho de vitimização.

A peça publicitária da entrevista de Xuxa é algo velho e batido, mas que funciona como método de modificação de mentalidades. John Coleman, no livro O Instituto Tavistock de Relações Humanas, conta como os engenheiros sociais do famigerado instituto de pesquisas financiado pela Fundação Rockfeller, pagava grandes somas para que celebridades concedessem entrevistas sobre temas sexuais. O objetivo era o mesmo das propagandas de cigarro que incluiam astros de Hollywood.

Sabendo disso, o telespectador comum pode experimentar relacionar fatos midiáticos, ligados a celebridades preferencialmente, com questões políticas que polarizem discussões, como o desarmamento, passeatas pela diversidade, racismo, violência contra mulheres etc. Não está em questão qual a real validade ou necessidade destas discussões para a sociedade, mas sim a procedência real de alguns fatos públicos orientados muitas vezes pelo interesse de grupos regados a financiamentos muitas vezes milionários. Assim, estes grupos buscam dar a idéia de uma singela coincidência de demandas populares por “direitos históricamente sonegados” contando, para isso, com a colaboração de uma imprensa que ou não conhece a procedência de suas próprias técnicas ou trabalha literalmente para do outro lado sem nenhuma consciência de culpa.

FONTES INDICADAS

Edward Bernays – Propaganda (1928)

Walter Lippmann – Opinião Pública (1922)

John Coleman – O Instituto Tavistock de Relações Humanas

(http://pt.scribd.com/doc/70253095/O-INSTITUTO-TAVISTOCK-DE-RELACOES-HUMANAS-I)

The Century of the Self (documentário da BBC)

Julio Severo – O movimento homossexual (http://homofobianaoexiste.wordpress.com/topicos-interessantes/homossexuais-e-os-relatorios-kinsey/)

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

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