Vaticano e as consequências da excomunhão de corruptos e mafiosos

Vaticano e as consequências da excomunhão de corruptos e mafiosos

05/02/2018 0 Por Cristian Derosa

Há décadas utilizando-se dos símbolos e bispos da Igreja, a máfia siciliana declarou guerra ao Vaticano e a Francisco. A condenação à máfia pela Igreja promete não retroceder e estuda formas de ampliar a excomunhão aos corruptos e mafiosos, não apenas na Itália. No Brasil, a excomunhão devia preocupar os padres e bispos “defensores dos pobres” e dos condenados pela Operação Lava-Jato.

Em junho de 2014, em um discurso na região da Sicília, o Papa Francisco excomungou publicamente os integrantes da máfia italiana Ndrangheta, após a comoção italiana diante de um atentado da máfia que vitimou uma criança. Desde João Paulo II, o Vaticano tem feito declarações e ataques à máfia e sua relação com o clero. Nunca havia sido proferida, porém, uma excomunhão pública e coletiva.

revista estudos nacionaisA organização que desde a Segunda Guerra tem relações promíscuas com membros do clero, começou a ser rechaçada em 1993, pelo Papa João Paulo II, depois da qual a Itália viu sucessivos atentados à bomba, com dezenas de vítimas, às portas de igrejas em diversos lugares do país. Na ocasião, disse o então pontífice, em Agrigento: “mafiosos, convertam-se, um dia chegará o julgamento de Deus”. O Papa Bento XVI também chegou a criticar a máfia e alfinetar a relação escandalosa com bispos e cardeais da Sicília, ao dizer: “É preciso ter vergonha do mal, do que ofende a Deus e ao homem, é preciso ter vergonha do mal que fere a comunidade civil e religiosa com ações que não suportam a luz do dia”.

Francisco, porém, em junho de 2014, foi mais claro e incisivo: “A Ndrangheta é a adoração do mau, o desprezo do bem comum. Tem que ser combatida, afastada. Isso nos pedem nossos filhos, nossos jovens. E a Igreja tem que ajudar. Os mafiosos não estão em comunhão com Deus. Estão excomungados”.

Após o ocorrido, uma procissão organizada pela própria máfia, na qual levavam uma imagem da Virgem Maria, prestaram reverência diante da casa de um dos mais importantes membros da Ndrangheta, que cumpre prisão domiciliar devido a problemas de saúde. Na ocasião, a polícia italiana abandonou a escolta que fazia ao evento, diante de clara provocação. Mas a provocação era ao papa que os havia excomungado.

A excomunhão que alcança o mundo

A partir de 2016, o Vaticano começou a fazer um estudo aliado a outras organizações, para ampliar formas de condenação pública à corrupção e máfia, incluindo a aplicação da excomunhão de mafiosos e corruptos da Igreja. Segundo Nicola Gatteri, procurador e autor de livros sobre a máfia italiana, um dos efeitos da declaração do Papa tem sido o aumento das declarações e ações públicas por parte de cardeais e arcebispos, padres e lideranças da Igreja, contra a máfia e a sua relação com o clero.

Em agosto de 2017, o Vaticano anunciou que criará uma “rede internacional” para combater a máfia e a corrupção espalhadas pelo mundo. A decisão vem na sequência de uma reunião sobre os temas, realizada no dia 15 de junho, pela Consulta sobre a Justiça do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral.

De acordo com especialistas no poder e meios de ação mafiosos na Itália, a guerra empreendida contra Francisco se daria em várias frentes, uma delas na mídia, pela qual tentariam criar uma imagem negativa do papa diante dos católicos.

Excomungados brasileiros

No Brasil, bispos e sacerdotes confessam publicamente o seu apoio aos partidos e políticos, personalidades e intelectuais ligados à máfias políticas como o PT. Os tentáculos da Ndrangheta no Brasil ficaram evidentes em uma operação da Polícia Federal que funcionou dentro da Operação Lava-Jato e apurou relações da máfia italiana com o contrabando de cocaína para a Europa, envolvendo o doleiro Alberto Youssef e a doleira gaúcha Maria de Fátima Stocker. operações mafiosas ocorridas nos portos de Santa Catarina. No mês de janeiro, durante o 14º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, em Londrina, bispos participaram de um verdadeiro comício político em apoio público ao ex-presidente Lula, que estava sendo julgado, naquele momento, em segunda instância em Porto Alegre.

No evento, os realizadores promoveram um minuto de silêncio contra a condenação do ex-presidente, acusado de lavagem de dinheiro e corrupção ativa.

Leia a matéria com a história completa na segunda edição da Revista Estudos Nacionais, em março. Assine!