Resgatando o verdadeiro significado de “cultura”

Por Daniel J. Mahoney

Referências à “cultura” são onipresentes no discurso contemporâneo, embora a palavra tenha perdido quase todo o seu sentido. A palavra que costumava referir-se ao culto exigente da inteligência e da alma humana é, hoje, sinônimo de quase qualquer prática social (baixa ou degradante). Fala-se livremente sobre a cultura do rock, a cultura das drogas e coisas até piores. Raros são aqueles que reconhecem que o respeito salutar pelo pluralismo cultural, pela genuína diversidade humana, não exige relativismo ou abdicação de julgamento moral. Como chegamos a uma situação tão perturbadora?

Para começar, como o filósofo político Leo Strauss sugeriu há muitos anos, a cultura deixou de ser um “absoluto” e, em vez disso, identificou-se com o relativismo indiscriminado. Todos nos tornamos “antropólogos” vulgares, fascinados pela diversidade como um fim em si mesmo – junto do relativismo que muitas vezes a acompanha. Strauss resume provocativamente o ponto de vista dominante: “Todo ser humano fora dos manicômios é um ser humano de cultura, pois ele participa de uma cultura”. Sou, então, levado a perguntar: o que aconteceu com a relação entre o superior e o inferior? O que aconteceu com a capacidade civilizada de discriminar entre melhores e piores modos de vida?

A urbanidade, a civilidade, a mentalidade e a generosidade associadas à genuína cultura deram lugar a uma visão de que toda prática humana é digna do nosso respeito. A cultura é banalizada. Comer um burrito ou usar um sombreiro sem ser mexicano, ou praticar ioga sem ser indiano, pode ser tornar uma fonte de controvérsia para quem pensa sobre a cultura de forma redutiva e relativista. (E, como sabemos, a polícia do politicamente correto está em todos os lugares dos nossos campus universitários). O respeito pela especificidade da cultura exige supostamente uma política de identidade, onde as pessoas se aproximem de maneira mais estreita, espinhosa e sem graça. Qualquer noção de humanidade comum é rapidamente apagada e as práticas baixas de qualquer grupo se tornam sacrossantas e são tidas como grandes críticas sociais (dignas de imitação e admiração).

Respeito Genuíno

O que toda essa postura ideológica tem a ver com o respeito pela genuína cultura humana?

Não precisamos rejeitar o respeito pela dignidade e pelos penosos caminhos trilhados pelas altas culturas do mundo para reconhecer que o melhor pensamento e arte pertencem ao homem enquanto homem. Platão, Homero, Shakespeare, Dante, Goethe, Mozart, Beethoven, pertencem a todas as almas pensativas e discernidas, e não apenas às do Ocidente (o mesmo certamente pode ser dito, em princípio, sobre o melhor pensamento e arte do Oriente). Esses clássicos enriquecem o espírito humano e não são redutíveis às culturas que moldaram inegavelmente a sua formação e as suas aspirações. As culturas e civilizações elevadas se enriquecem enquanto enriquecem o espírito humano.

revista estudos nacionaisOs clássicos da literatura mundial, por exemplo, incrementam a literatura nacional sem, de modo algum, homogeneizar o pensamento e a experiência humana. Pense no auge da literatura russa: Dostoiévski, Tolstoi, Pasternak e Solzhenitsyn são expressões inegáveis da alma russa e dão uma expressão abrasadora à condição tanto humana quanto russa. Mas quem poderia dizer que os Irmãos Karamazov, a Guerra e Paz, o Doutor Zhivago e o Arquipélago Gulag (todos livros russos) só podem falar com os russos? Como Solzhenitsyn argumentou em seu discurso durante o Nobel, a arte literária de ordem elevada tem a capacidade de, se for o caso, transmitir a experiência de um povo e de uma nação para outro, superando a miopia que é coexistente com a condição humana. Dostoiévski luta contra a tentação do niilismo moral; Tolstoi, retrata o nevoeiro da guerra e as vicissitudes da história; Pasternak, relata o destino de homens dignos em uma grande nação, onde sua cultura foi mutilada por revolucionários fanáticos; Solzhenitsyn narra a alma do homem, agarrando a vida querida, sob a tirania ideológica e o reinado desumano da mentira.

Esses livros devem ser lidos por todos os seres humanos cultos e reflexivos. São aquisições preciosas para o Oriente e o Ocidente, para todos aqueles que enfrentam a condição humana, bem como as sombras que acompanham a modernidade. Precisamos refletir sobre a interação entre o universal e o particular, que define a nossa humanidade, em vez de tentarmos ser “cidadãos do mundo” ou praticantes de uma política de identidade que exige que todos os “grupos raciais, de gênero ou sexuais… tenham a sua própria cultura e não se permitam diluir por pessoas de fora”, como o jornalista britânico Brendan O’Neil colocou bem. A última compreensão da cultura – um conjunto de práticas, por mais banais que sejam, são valorizadas apenas por pertencerem a determinado grupo – perdeu toda a conexão com as aspirações espirituais e culturais elevadas. Se a cultura significa alguma coisa, deveria ser o cultivo autoconsciente de “o melhor que foi pensado e dito” dentro da nossa tradição, bem como de outras civilizações e culturas avançadas. A alta cultura é incompatível com o relativismo indiscriminado. Em vez disso, a alta cultura depende do reconhecimento de que nem todas as práticas sociais são intrinsecamente admiráveis. Nem todo ser humano (ou mesmo grupo social) é suficientemente culto. Esse reconhecimento, tão perturbador para o politicamente correto, certamente é o começo da sabedoria.

 

Redefinindo a Cultura

T.S. Eliot fornece algumas reflexões úteis nas páginas finais de seu clássico trabalho de 1948, Notas Sobre a Definição de Cultura. Ele nos lembra que a cultura digna de nome é impensável sem religião, e, no Ocidente, sem a religião cristã. O cristianismo ajudou a criar um cultura comum na Europa, uma vez que todos os europeus (ou os ocidentais, de forma mais ampla) foram profundamente moldados pelos “elementos culturais comuns que o cristianismo trouxe com ele”. Nesta ampla cultura, mesmo os incrédulos eram cristãos. Eliot observa de forma impressionante que “apenas uma cultura cristã poderia ter produzido” incrédulos como Voltaire ou Nietzche. Eles lutaram contra o cristianismo com uma intensidade espiritual e intelectual e a seriedade moral derivada do próprio cristianismo.

Recordando-nos dos altos fundamentos espirituais da cultura autêntica, Eliot comenta que é improvável que a Europa “possa sobreviver ao completo desaparecimento da fé cristã”. Isso é o que os seculares e multiculturais radicais de hoje não percebem. Sem fidelidade às nossas melhores tradições, sem deferência à lei moral ou a uma ordem de coisas acima da vontade humana, a cultura inevitavelmente degenera na anarquia, o inimigo da verdadeira cultura. Uma sociedade que coloca os direitos acima dos deveres, as preferências subjetivas acima da preocupação com o bem comum e que coloca o “alto materialismo da vida cotidiana” sobre o discernimento espiritual, dificilmente se sustentará ou dará origem a uma cultura digna de nome. Eliot, pelo menos, nos aponta para o fato de que a cultura, no sentido elevado e nobre do termo, não tem nada a ver com o relativismo vulgar ou com um desprezo ‘elegante’ pela religião. O grande crítico cultural britânico do século XIX, Matthew Arnold, pensou que a cultura poderia de alguma forma sobreviver ao declínio da fé religiosa. Todavia, Eliot teve dúvidas bem fundamentadas sobre a durabilidade dessa fé na cultura como um substituto da fé em Deus. Cultura e religião (e política decente, posso acrescentar) ficam ou caem juntos.

Eliot também aponta que “a confusão da cultura e da política” podea levar a duas direções problemáticas. Uma cultura que é “intolerante a toda cultura, exceto a sua própria”, pode tornar-se monstruosamente tirânica como a Alemanha de Hitler entre 1933 e 1945. O respeito pelo pluralismo cultural evita os extremos duplos do relativismo cultural e um imperialismo cultural assassino do tipo nazista. O outro erro é pensar que o respeito pela humanidade comum exige “um estado mundial” marcado por uma cultura única e uniforma. Ao mesmo tempo, é preciso respeitar o que é verdadeiramente universal para preservar o intelecto humano. Mais uma vez, somos chamados a refletir seriamente sobre – e fazer justiça – as dimensões “universal” e “particular” de nossa natureza humana comum. Este é um ato de equilíbrio que exige grande prudência intelectual e moral.

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Conservando a Verdadeira Cultura

Por sua parte, os críticos febris da “apropriação cultural” estão preocupados com a cultura em suas dimensões mais triviais. Eles pensam pouco na vida intelectual e no bem-estar da alma. Eles promovem uma política de caráter grosseiro e irritante. Não são dignos de consideração séria.

Thomas Sowell nos lembra em Conquests and Culture (1998) que a escravidão era uma verdadeira “instituição mundial”, enraizada em todas as culturas e continentes por milhares de anos. Foi a religião cristã a primeira a reconhecer a humanidade do escravo (ver a Epístola de Paulo para Filemom). E foi o poder naval britânico que pôs fim ao tráfico de escravos e, eventualmente, à escravidão em todo o mundo. Certamente, a lei moral e a dignidade espiritual do homem devem ser preferíveis a uma cultura bárbara, mesmo que enraizada desde antigamente. Há limites para a diversidade cultura, assim como há limites para o esforço de homogeneizar a experiência política e cultura da humanidade, negar a variedade preciosa de nações, cultura, povos e formas políticas. Como sempre, o desafio é conseguir o equilíbrio certo. Sendo a virtude da prudência, novamente, a coisa mais importante.

Precisamos de uma clareza muito maior sobre o significado desta palavra às vezes escorregadia e amorfa. Seria prudente deixar de usar o termo cultura de forma a prejudicar o respeito pelo culto autêntico da alma e do intelecto humano. A palavra deve tornar-se algo de “absoluto” novamente, não o brinquedo de diversos relativistas morais e culturais.


Autor: Daniel J. Mahoney

Mahoney é professor de política na Assumption College. Ele recebeu seu título de bachareal em ciência política na College of Holy Cross e realizou seu mestrado e doutorado na Catholic University of America. Em 1999, o professor Mahoney recebeu o prestigiado prêmio Prix Raymond Aron. Ele é editor da Perspectives on Political Science e da revista Society. Especialista renomado na filosofia política francesa, suas obras incluem Aleksandr Solzhenitsyn: The Ascent from Ideology, muito aclamado pela crítica.

Traduzido por Raul Effting

 

Escritor, pesquisador e cientista político, estudou Direito na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Ciências Políticas na UNINTER. É autor do livro “Perdão e Penitência” e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2014. Atualmente, é colunista no Estudos Nacionais.

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