Quem são e o que representam os presidenciáveis de 2018 para o Brasil de sempre

Bolsonaro e Lula são antagônicos porque representam algo de verdadeiro sobre o Brasil. Para ambos os lados, um representa o melhor e o outro, o pior. Dória e Huck, assim como Serra, Aécio, junto da maioria das opções apresentadas ao longo de nossa história, representam a doce mentira sempre usada para disfarçar nossa verdadeira face. Não há coisa mais insuportável para o brasileiro do que contemplar sua face no espelho.

A despeito do que tantos dizem e se perguntam sobre quem é o brasileiro, desde os patriarcas do Império, passando pelos tradicionalistas que se opunham aos modernistas de 1922, somos apenas portugueses com algo de franceses. Um pouco de América Latina ainda nos faz falta. Mas a nossa índole concreta tem pouco a ver com o Brasil que a mídia nos apresenta e nos ensina, que fomos ensinados inclusive a amar, desde o Estado Novo e a bossa nova. O país do novo, porém, sempre alegre e saltitante, tem mais da depressiva bossa nova do que dos alegres carnavais. A imagem de um palhaço triste na sarjeta combina melhor as duas nações que se digladiam dentro de nossas esperanças políticas. Brasileiro, como o português, resume-se num triste fado (ou tango), cuja lamentação nunca cessa e entorpece uma alegria fingida e tímida, em um otimismo falso que disfarça a profunda desilusão com este mundo. Digo isso para introduzir o entendimento da natureza verdadeira da nossa mentira e da nossa hipocrisia.

Toda campanha presidencial precisa pintar um líder, um guia da nação, um brasileiro típico, algo que pressupõe uma imagem da nação. Historicamente, essa imagem sempre foi um resumo de nosso próprio conflito: a resposta para a desilusão só pode ser uma solução total, final e triunfante. Mas se o triunfo não pode esperar, deveria ser preciso defini-lo. Mas uma definição nos poria no caminho de um realismo filosófico oposto ao oportunismo dos vendedores de soluções, que se nutrem da esperança e do sonho, marcas do nosso romantismo. Seja a vassorinha que vai varrer a sujeira (nem que seja para debaixo do tapete) ou o caçador de marajás, o romantismo ibérico se nutre de utopias estáticas e fora do tempo, cuja fronteira com o real se pode empurrar indefinidamente para a frente.

O suposto mito do conservadorismo português, que temeroso da entrada das ideias iluministas na colônia, empenhou alguns esforços contra a instalação de universidades por aqui, não é de todo infundado. Tem a seu favor não só uns tantos livros de história, mas a própria inexistência do pensamento reflexivo, o que os monarquistas militantes creditam somente ao monstro republicano. Ao baixo nível de instrução, some-se o sentimentalismo do nosso povo, ao mesmo tempo dócil e varonil.

Com uma vitória indefinida, o sentimentalismo de um país romântico e sem instrução só pode se fixar na emoção mais forte, o que evidentemente varia conforme os tempos, a estação do ano ou a lentidão do trânsito.

Nossos presidenciáveis sempre se dividiram entre dois tipos básicos de promessas: a do fim da corrupção e a do início do reinado do progresso

Assim como uma grande parte dos presidentes do século XX, Lula chegou ao poder prometendo o fim definitivo da corrupção e da concupiscência. Com o apoio da Igreja Católica, apelando ao moralismo da indignação, o Partido dos Trabalhadores apenas utilizou um mecanismo consagrado. A esquerda brasileira teve o mérito de compreender melhor a essência do brasileiro, enquanto a direita apenas obedecia os estímulos naturais. O conservadorismo nacional, como dito por Paulo Mercadante, é o da conciliação, do arranjo artificial dos poderes, em um país tradicionalmente comandado e dirigido pelas elites que dominam (ou usurpam) o Estado. O patrimônio nacional, da união, como propriedade do rei, do monarca, é sagrado, como o seu direito. Raymundo Faoro não nos deixa dúvidas quanto à tradição portuguesa monárquica no entendimento da propriedade, no Brasil. Tudo pertence ao Estado, portanto, tudo é sagrado assim como o Estado. Tudo pode e tudo nos convém, mas o roubo do dinheiro público merece a pena de morte.

Essa esquerda que se tornou o próprio estamento burocrático a pretexto de combatê-lo, desaprendeu, com o poder, a agir na realidade, porque acreditou na mentira midiática dos direitos infinitos e, assim, perdeu o fio que o conectava ao povo, à sua base popular. Mas Lula, com a força da sua personalidade, não representa a esquerda, mas o Brasil. Sua personalidade transmite algo de verdadeiro no brasilianismo: a sua malícia e ao mesmo tempo sua indignação emotiva e moral contra a injustiça. Assim como Bolsonaro.

Jair Bolsonaro representa o Brasil de sempre, aquele país que é comandado, não pela força da personalidade, mas pela personalidade de força. A força da ordem e do progresso é amalgamada na força da indignação. A indignação contra o “roubo do país” perpetrado pelo PT, a desilusão com Lula. A opção Bolsonaro tem a mesmíssima motivação da opção Lula de décadas atrás. Ambos pareciam opções radicais e absurdas à primeira vista, o que foi sendo modificado pelas contingências da situação atual. Ambos representam a imagem tipicamente brasileira e não oferece qualquer ameaça ao intelecto o brasileiro médio. Como lembra Olavo de Carvalho, o ódio do brasileiro ao conhecimento o faz partidário de qualquer pessoa cuja inteligência não o humilhe suficientemente para tornar o eleitor menor que o eleito. “Se ele, que é simples, pode, então eu posso me achar alguma coisa”. Como vemos, a tristeza depressiva e portuguesa do brasileiro não chega a ter o charme de um fado.

Ciro Gomes também simboliza essa natureza brasileira, embora de maneira mais ideológica. Mas é em Dória e Luciano Huck (surgido como opção de emergência), que aparece a cara da mentira midiática sobre a essência tupiniquim. A sugestão de Huck, logo descartada, provavelmente diante da percepção da impopularidade, demonstra justamente o desespero da tentativa de manutenção da mentira. Isso não significa, porém, que rumamos  ao reino da verdade. A mentira tem a perna curta, mas nunca cessa de dar os seus pulinhos.

Cultura brasileira na mídia: a cara do Brasil

Tanto Dória quanto Huck representaram, na verdade, tentativas de impedir o levante de Lula ou de Bolsonaro, justamente por estes representarem o desmoronamento das imagens erguidas sobre o país. Engana-se quem crê que a mídia foi, alguma vez, de fato, lulista. A mídia apenas exerceu seu tradicional papel conciliador com o poder. A imagem de Lula nunca foi agradável aos analistas políticos, embora corroborasse parte da imagem do brasileiro coitadinho que sempre se tentou fazer. Mas o coitadinho é uma imagem real usada e abusada pelas elites tipicamente brasileiras, mas que cataliza uma parte importante da essência do brasileiro. A imagem do brasileiro batalhador, alegre e de bem com a vida, popularizada hoje em dia pela Globo, é oposta ao coitadismo. Dória é o representante do que o brasileiro gostaria de ser, de como a mídia o pinta. Do mesmo modo, Huck é o Brasil Mulambo, do Esquenta, do espetáculo da pobreza, do palhaço e do caldeirão da alegria, que ajuda o pobre para mostrar que tem uma personalidade solidária, mas não sofre, não é pobre e é exemplo. É a diversidade das soluções para satisfazer o desejo brasileiro pelo pai dos pobres, o salvador da pátria.

Dória é o Brasil norte-americano, do empreendimento e da eficiência, algo que Ciro tenta utilizar com cara esquerdista. Bolsonaro é o Brasil da ordem e do progresso, do petróleo e do nióbio, país rico e soberano, braço forte e mão amiga! O inimigo agora é outro: a corrupção tomou a cara do socialismo e vice-versa. Mas a sua personalidade encanta o Brasil com a sinceridade e espontaneidade do seu jeito de falar. Apesar da personalidade cativante, para alguns, Bolsonaro conta com um contexto bem mais favorável em um país sensível às próprias emoções do momento. O contexto que Lula precisa pintar é o do golpe, do avanço da direita, algo compartilhado apenas pela esquerda, uma parcela muito pequena da população. Para a grande maioria, a única força de Lula é sua personalidade brasileira. Por isso, as opções para a esquerda estão acabando, fazendo-os retomar seus métodos tradicionais.

A luta contra um governante que encarne, de alguma maneira, a natureza do brasileiro (para o bem ou para o mal), motiva todo tipo de estratégia, buscando substitui-lo pelas opções que dialoguem com o mundo e suas novas utopias.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

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