Quem é contra a Escola Sem Partido

Declarações como as de Leandro Karnal sobre o Movimento Escola Sem Partido normalmente são avaliados e criticados pelo tom ideológico da sua defesa de uma “escola com partido”. Evidentemente, é disso que se trata. Mas há um pouco mais a ser observado: o pressuposto do pretenso cientista político liberal é o de que tudo o que se pode dizer e ensinar carrega em si uma ideologia, um princípio de doutrinação. Esta é a verdadeira crença que merece ser estudada e rebatida. Não é difícil refutar essa declaração, uma vez que está calçada na impossibilidade de se dizer verdades objetivas. Este assunto tem sido discutido pela filosofia há séculos, mas parece que ninguém conhece essa discussão e mais fazem elevar suposições ou hipóteses rasas à categoria de conclusões irrefutáveis.

Se essas pessoas pudessem julgar o que dizem pelo mesmo viés que julgam os temas desconfortáveis para eles, pouco sobraria de suas crenças para contar a história. Ora, o que diz Karnal não pode ser avaliado pela sua própria “doutrina” da impossibilidade objetiva ou ultrapossibilidade subjetiva. Se tudo é ideologia e alguma forma de doutrinação, certamente ele não deve discordar do fato de que ele mesmo, desde que seja parte da realidade, esteja manifestando uma mera ideologia como as outras.

Mas o que ele, junto dos seus pares acadêmicos, faz é enaltecer de fato uma ideologia específica como única forma de refletir o mundo. Diante disso, sobra a pergunta: uma ideologia pode ser mais verdadeira que a outra? A resposta que ele não quer dar é: sim, pode. Os marxistas ortodoxos acreditavam que tudo era dividido entre ideologia burguesa ou proletária. Obviamente, a burguesa visa apenas explorar e manter o status de exploração eterna das classes trabalhadoras. Já a proletária, propõe denunciar a exploração e lutar pela transformação da sociedade em um sistema mais justo. Caberia a esta última uma missão sagrada que abrangeria todo o planeta. Mas como os intelectuais (que não eram proletários) precisaram ensinar aos proletários que a ideologia burguesa era hegemônica e devia ser combatida, a noção de uma ideologia total exploradora foi consagrada como síntese do fenômeno expressivo humano. Como toda a realidade, para os marxistas, é produto das relações econômicas, a ideologia exploradora está literalmente em tudo. A ideologia proletária e oprimida, porém, era silenciada porque era inconveniente à sociedade burguesa. A verdade pertence, portanto, às vítimas do sistema, seja ele qual for. Mas os esquerdistas contemporâneos como Karnal esqueceram de observar que a ideologia vitimista do proletário hoje é hegemônica. Caberia então à “ideologia de direita” o papel de oprimida e portanto de verdadeira? Claro que não. Porque essa besteira toda não existe e é fruto da cabeça de quem quer justamente dominar todo o discurso humano.

A escola pode ensinar mentiras ou ensinar verdades, não importando se estão defendendo verdadeiros oprimidos ou a figura histórica e ideológica de um oprimido fictício usado apenas para voltar as mentes contra grupos que são alvos políticos.

O problema por trás do que diz Karnal e outros críticos do Escola Sem Partido é que eles não acreditam que um professor possa ensinar a verdade aos seus alunos. Pois para eles, a verdade é sempre parcial e submissa a um sistema ideológico, o que Horkheimer e outros chamaram de Aparelhos ideológicos de estado, dentre os quais figura a família, a Igreja etc. São estes os inimigos de Karnal. Qualquer voz que tiver a família ou a Igreja na escola, para eles, é demais, é acintoso e injusto. Pois por mais hegemônica que seja a voz da esquerda nas escolas e universidades, ela se sente sempre ameaçada por quem quer que queira denunciar o seu domínio. A esquerda, para existir, tem de ser sempre inimiga mortal da verdade, onde quer que ela esteja. Ela tem de ser hegemônica e ao mesmo tempo vítima de uma hegemonia inventada. Ela nutre-se sempre do ódio de classe, do conflito entre explorado e explorador. A esquerda sempre dirá que a verdade é opressora e maligna. Opressora ela é de fato. Mas maligno é o pai que eles têm em comum com a mentira.

 

Sugestões de leitura sobre o assunto:

Emmanuel Todd. O louco e o proletário: filosofia psiquiátrica da história.

P. A. Sorokin. Novas teorias sociológicas.

A. Genro Filho. O segredo da pirâmide.

Olavo de Carvalho. Apoteose da vigarice.

Jean Sevillá. O terrorismo intelectual.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta