Quando a farinha descia o rio

O antigo porto do rio Ratones é um dos últimos resquícios de uma época de emergente comércio entre as freguesias da Ilha.

Na entrada do bairro, uma homenagem aos pescadores da região. Um barco rudimentar onde se lê o nome de uma afastada localidade de Florianópolis. A referência, no entanto, não é exclusiva aos que ainda pescam no principal rio da Ilha. É o símbolo de um período pouco conhecido da história de Ratones, uma época que hoje faz parte da memória dos moradores mais antigos desse povoado que fica a 15 quilômetros do Centro de Florianópolis.

Começa na SC-401 e contorna as montanhas por mais de 12 quilômetros onde velhas proprieda-des disputam espaço com novos loteamentos. A única estrada de Ratones termina no Canto do Mo-reira, encurralada entre os morros onde não há mais como continuar de carro. Do outro lado está a Costa da Lagoa, outra região que fica praticamente isolada do desenvolvimento e ao lado, a Vargem Pequena. O rio que leva o nome do bairro não é mais navegável devido ao assoreamento de quase toda a bacia.

Hoje Ratones restringe sua produção agrícola a pequenas hortas familiares. É do comércio e da colheita que subsiste uma boa parte da população. Segundo os dados do Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis, (Ipuf), dos 2,8 mil habitantes da Vargem Pequena e Ratones, apenas as fa-mílias mais antigas ainda sobrevivem da pesca. Dos engenhos de farinha que faziam parte da paisa-gem há 40 anos, ficaram só as histórias que os moradores contam sobre os tempos de fartura.

Eles dizem que as localidades de Ratones, Rio Vermelho e Santo Antônio de Lisboa mantinham mais de 60 engenhos de farinha durante as primeiras décadas do século passado. Talvez o suficiente para ter transformado o lugar em uma promissora região comercial.

Bairro não é mais o mesmo

“Seu” Aldo tem 80 anos e vive em Ratones desde que nasceu. É dono de um armazém quase no final da estrada geral do bairro. Passa todos os dias em frente ao rio cuja história só ele e poucas pessoas conhecem. Pela manhã, olha para a margem e vê aquelas casinholas que servem de abrigo a pequenos barcos de pesca. Era lá que funcionava o porto de embarque e de-sembarque das lanchas que vinham de Santo Antônio de Lisboa, Canasvieiras, Daniela e demais fre-guesias, para o abastecimento dos mercados e armazéns do Norte da Ilha. Transportavam café, man-dioca e cana. Mas isso já faz mais de 70 anos.

“Quando eu era pequeno, havia 62 engenhos de farinha por aqui”, conta Aldo de trás do balcão de sua venda. “O que não era levado pelo rio ia de carreta pelas estradas”. Os caminhos que hoje são de terra, no tempo dele, eram invadidos pelo mato, assim como a trilha que leva ao pequeno porto, há alguns metros do seu armazém.
O atracadouro deixou de ser utilizado depois do fim da maioria dos engenhos que funcionavam em Ratones e Rio Vermelho. Hoje esses engenhos estão reduzidos a ruínas e muitos deles não se sabe mais onde ficavam. “A Prefeitura acabou com todos”, lembra Cleonice, 70 anos, mulher de Aldo. “Ninguém mais quer trabalhar na roça, preferem ir trabalhar no Centro, em empregos públicos”.

História que se perdeu

O pai de Aldo tinha uma venda que ficava em frente do seu atual estabele-cimento. Ele aponta com ressentimento para as ruínas tomadas pela vegetação e pela poeira da estra-da de chão batido. “Nem parece, mas isso aqui mudou muito. Era muito diferente”, lembra olhando para a rua por onde já passaram carros-de-boi levando a farinha produzida nos engenhos. Os cabelos brancos e o rosto avermelhado demonstram a sua vida de trabalho pelas fazendas que havia por toda a extensão onde hoje se espalham as casas.

Ele conta que seus pais nasceram no Distrito e que sempre morou em Ratones. Nunca andou de barco pelo rio na época em que o pai transportava farinha e cana, mas levou diversas vezes cargas para o porto a bordo das carretas para serem despachadas pelo rio. Com um modo tranqüilo e pensa-tivo, Aldo descreve as lanchas do tempo de garoto, que eram bem maiores do que as utilizadas hoje. “Eram lanchas a remo. Tinham dois remadores de cada lado e a cabine era improvisada. Só bem de-pois é que vieram os barcos de motor”.

As embarcações maiores só podiam chegar até o porto. A partir dele somente as menores prosse-guiam, pois o rio estreitava-se. Alguns barcos eram guardados em ranchos improvisados na beira do atracadouro. Mas nem mesmo esses abrigos tiveram sempre o aspecto que têm hoje. “Eram feitos de palha e troncos que seguravam dos lados”, explica. “Aquilo que está ali foi construído depois, para o pessoal que pesca”. “Seu” Aldo sente saudades daquele tempo e se irrita ao ser questionado sobre o futuro do porto e do principal curso d’água da região.”Estão dizendo que vão fazer uma associação de pescadores no lugar, mas acho que não vão fazer nada não”, desabafa. “Aquilo vai ficar entregue e daqui a pouco não tem mais nada lá”.

O atracadouro de Ratones fica dois quilômetros abaixo da principal nascente do rio, onde o bairro se confunde com a Vargem Pequena, no primeiro ponto navegável. O curso deságua na Barra do Sambaqui e até lá ele se estende por nove quilômetros. No trecho que passa a ponte da estrada geral se vê as primeiras propriedades à margem de um canal que já começa a se alargar preparando-se para atravessar o Norte da Ilha.
Na beira do rio, onde ficavam as casas de palha, ficava uma espécie de armazém em que os co-merciantes se encontravam vindos das freguesias vizinhas para vender ou embarcar para o Centro o excedente do que era produzido para o consumo das famílias.
Mas o uso do porto não era restrito à passagem das mercadorias.

Muitas pessoas viajavam de um lado ao outro e iam até o Centro por meio de Sambaqui e dali prosseguindo pela Baía até a Cidade. A alternativa representava muitas vezes um caminho mais rápido e mais seguro para moradores e co-merciantes.

As histórias que trazem um passado de desenvolvimento, no entanto, parecem cada vez mais dis-tantes no cotidiano do povoado de Ratones e, aos poucos, vai também se apagando da memória dos que viveram aquele período. A maioria dos clientes da venda de “Seu” Aldo é da localidade, mas os novos moradores aparecem de vez em quando. “Só quem é do Ratones lembra dessas coisas. Quem vem de fora morar aqui acha tudo bonito, mas não sabe como era”, reclama.

Revitalização

Existem projetos de alargamento do rio Ratones, afim de revitalizar a prática da pes-ca e estimular o turismo na região desde 2000. O impasse entre o Ibama e a associação de moradores, que propôs a idéia, é o que mantém as análises em espera, pois os moradores querem a garantia da qualidade de vida mesmo depois da vinda de turistas.

Alguns loteamentos já surgem na região e apontam para um desenvolvimento urbano. O asfalto já está presente em alguns trechos da estrada geral e carros de luxo passeiam por entre as ruas onde, por muito tempo, só os nativos andavam. No entanto, o rio perdeu grande parte da sua vida devido à ur-banização e às instalações de esgoto clandestinas feitas pelos próprios moradores.

“Seu” Aldo, junto com “dona” Cleonice, vive do comércio como o seu pai. Mas dos produtos que traz do Centro ou compra de fornecedores de fora. Não tem esperanças de que aquele lugar se desen-volva, pois sabe que, assim como o curso do rio, o passado não vai voltar.

O rio ameaçado

O rio Ratones tem 9,8 quilômetros de extensão. Faz parte da maior bacia hidrográ-fica da Ilha de Santa Catarina e recebe atualmente a atenção dos técnicos do Ibama através da Esta-ção Ecológica Carijós, que fica no entorno da reserva. Através de análises da qualidade da água, os técnicos monitoram o estado de poluição que decorre da ocupação desordenada e esgoto clandestino. Para a coordenadora do Laboratório de Qualidade da Água do Ibama, Alessandra Fonseca, já existem focos considerados críticos. “A falta de uma rede de esgoto contribui para que os moradores despe-jem dejetos diretamente no rio”, aponta.

Em abril de 2004, o Comitê SOS Rio Ratones, tentou chamar a atenção para a saúde e a preservação da bacia organizando uma “canoata”. Eles viajaram desde o porto até a ponte da SC- 401, onde co-meça a Estação de Carijós. Entre as reivindicações, o comitê pede que a área do manguezal seja in-corporada à zona de preservação. O coordenador do comitê, Rogério Queiroz, alerta para a explora-ção imobiliária na região. “Precisamos de desenvolvimento sustentável. Ratones é a última fronteira agrícola da Ilha”, diz.

400 anos de história

O bairro de Ratones é uma das mais antigas freguesias da Ilha, tendo registros de propriedades rurais que antecedem a 1660, segundo diários de bordo de exploradores que aporta-ram na Ilha nesse período. Os numerosos engenhos de farinha da região são da época em que o atual bairro de Santo Antônio de Lisboa, pertencia à mesma freguesia. Dona Cleonice conta que Ratones e Rio Vermelho tinham, juntos, o maior número de engenhos da Ilha. Apesar dessa ter sido uma ativi-dade comum em toda a região metropolitana, a informação é confirmada no livro Santo Antônio de Lisboa, Memória e Histórias, de Iaponan Soares, onde também consta menção sobre a existência de portos de parada na extensão do rio Ratones e os engenhos da região.

Reportagem CRISTIAN DEROSA

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

1 responder
  1. SANTOS, Izidoro Azevedo dos ...
    SANTOS, Izidoro Azevedo dos ... says:

    Caro Cristian.

    Tenho o prazer de morar em Ratones, no centro geodésico da Ilha de SC, que a tua matéria bem retrata.
    Agradeço, em nome da comunidade, a divulgação do nosso belo distrito, que poucos conhecem, porque é o único não tem praia, no nosso Município.

    Responder

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