Onde está o autêntico tradicionalismo cultural?

Nossa degradação tem nome, sobrenome e endereço. É a ignorância. Ignorância sobre quem somos e quem devíamos ser. Porque a resposta a isso está na cultura. Mais profundamente, essa ignorância se tornou indiferença. Indiferença cultural é o que promovem aqueles que, por acreditarem-se donos dos rumos da humanidade, optam por esterilizar o ambiente para que ninguém mais saiba quem somos e para onde vamos. No Brasil, o problema pode ser visto de longe, não só na música como no modo de entender, seja entre os que se dizem esquerdistas seja entre os que se dizem conservadores, tradicionalistas.

A respeito da música muitos remeteriam ao Estado Novo, ou ao início do século XX e à campanha política que buscava uma nova identidade nacional negando ao brasileiro a sua verdadeira identidade portuguesa, mais fatalista, triste e dramática, para travesti-la da neurose carnavalesca, essa mentira de estética histriônica e simultaneamente depressiva (ou deprimente). Poderíamos também conceder aos modernistas de 22 o troféu da transformação em nome do abstratismo elitista. De fato, a partir daí o povo brasileiro já teria sido apartado de uma vez da cultura, tornando-a incompreensível aos olhos e ouvidos populares. Mas poderíamos inclusive nos concentrarmos nos primeiros gemidos da modernidade, quando a velha e conservadora exigência do uso dos tons celestiais pelos platônicos e neoplatônicos dos cruéis cristãos ia sendo aos poucos substituída pela também exigente matematização vivaldiana, filha do deslumbre da técnica. Essas exigências tonais são os antepassados dos estilos musicais, ritos que mais tarde serviram de runas iniciáticas da cultura pop. Mas a decadência musical que vivemos hoje é bem menos chique, bem menos erudita ou sofisticada. Ao menos aparentemente. Falemos de nossa mais recente precipitação. O que poderia soar aos sofisticados modernistas como um abismo vertiginoso, vista daqui de baixo nos parece uma tranquila planície. Afinal, eles nunca imaginariam. Assim, nós também não imaginamos a distância que estamos mesmo dos modernistas.

Depois de todo o percurso musical que a técnica ditou a partir da modernidade, os velhos tons celestiais conhecidos dos chineses antigos e clérigos medievais tornaram-se peças de museu. Mas isso nunca significará que a música tenha perdido o seu caráter espiritual. Aquilo que apenas não é percebido não deixa de ser eficiente. E embora tenhamos a tendência a achar que a cultura pop apenas destrói nossa espiritualidade, não podemos esquecer que algo sobrou de ordem mesmo que por meio de uma moldura caótica. O artista busca sempre uma linguagem que possa dizer ao homem do seu tempo. Por isso a tendência a fugir do tradicional, o que nos levou muitas vezes ao antitradicional, nem sempre significou o desejo de destruição que pareceu. Sempre será necessário, no entanto, um passo adiante para um virar de cabeça, que ao franzir das testas tradicionais compreendia de modo diverso a verdade universal que sempre esteve presente. Digo tudo isso pra lembrar que não podemos nos fechar ao que imaginariamente nos remete ao tradicional, o culturalmente tradicional, a caricatura que é produto da cultura e não da tradição, para ser mais específico. Afinal, quem nos garante que a arte tradicional não esteja sendo para nós apenas um passa tempo nostálgico que em nada toca os problemas reais do nosso tempo? O produto da tradição é sempre invisível e pode ser acessado em qualquer época, seja qual for a sua linguagem. A isso deveríamos chamar um autêntico tradicionalismo.

O advento do cinema pareceu nos mostrar perfeitamente como refletir o universal por meio de uma linguagem nova. Afinal, se as verdades universais se caracterizam por não dependerem do contexto ou da interpretação de uma época ou modo de ver, qualquer linguagem pode dar conta de abarcá-las. O problema não reside, portanto, na adaptação a novas linguagens, formas ou modos de ver, mas na distância que estamos da experiência humana real e, por isso, universal.

A série de TV americana Once Upon A Time criou um contexto diferente para abordar as verdades dos contos de fada. Personagens como Branca de Neve, Príncipe encantado, os sete anões e muitos outros, são surpreendidos por uma maldição lançada pela Rainha Má exilando-os fora do mundo dos contos de fada, ou seja, no nosso mundo. Desprovidos da memória de quem são, eles vivem vidas comuns em nosso mundo, mas repetem comportamentos dos personagens dos contos de fadas. Muitas verdades universais presentes nessas histórias infantis se tornam mais claras quando transpostas para o nosso mundo. A relação entre fantasia e realidade é bastante complexa e engana-se quem identifica o reino da fantasia como o da pura ficção, mentira ou da falsidade. O reino da fantasia é o ideal, o mundo dos princípios platônico ou, no cristianismo, o Paraíso. Assim, os personagens da série vivem no mundo pensando serem do mundo, mas aos poucos vão sendo informados de que não pertencem àquele mundo e sim ao mundo onde os heróis sempre têm finais felizes. A salvação prometida aos justos começa, aos poucos, a provocar a inveja da Rainha Má, responsável pela maldição que os fazia pensar que o seu reino não existia (uma queda do Paraíso). Adaptado a um mundo onde as mulheres detém cada vez maior liderança, o contexto traz tanto o demônio representado por uma mulher (a Rainha Má) como o Salvador, representado pela personagem Emma Swan, filha da Branca de Neve com o Príncipe Encantado, que foi exilada desde o nascimento neste mundo e portanto é a única capaz de quebrar a maldição que os mantinha na ignorância de quem eram e do mundo de onde vieram. O cisne (Swan) representa a beleza e a pureza imaculada. Mas o cisne também representa a dualidade pois pode ser branco ou negro, representando as trevas. As trevas são o grande vilão da série, combustível da magia usada pelos maus e pela Rainha Má, sempre como uma tentação. As trevas surgem associadas à inveja e ao ressentimento, como o do ódio da Rainha Má à inocência de Branca de Neve. Em dado momento, Rumplestistiskin, o bruxo lendário, mentor e algoz da Rainha, alerta sua majestade: “As trevas não são como um banquete que você se serve à vontade. Quando se trata dela, você é o banquete”. O Senhor das Trevas, como é conhecido no mundo da fantasia, se chama Sr. Gold em nosso mundo, fazendo referência ao poder econômico como meio de ação do mal e das tentações. “A magia sempre tem um preço”, diz Rumple sempre que sela um pacto. Ao longo dos episódios, porém, por estarem fora do seu mundo, os personagens se tornam mais complexos, mais humanos. Os bons ficam mais expostos a tentações, assim como os maus sentem-se muitas vezes inclinados a bons sentimentos, o que aumenta a revolta diante da fatalidade do destino dos que foram predestinados pela história a serem vilões. A revolta contra Deus e Sua verdade é apresentada como característica humana quase inevitável e em momento algum os personagens tomam decisões fáceis. Muitas decisões aparentemente boas podem carregar maldades profundas e desejos inconfessados. Mesmo a Branca de Neve pode ter o seu coração obscurecido por decisões que a aproxima daquelas tomadas por vilões. Este é o mundo que conhecemos visto pelo ângulo dos princípios universais, representados pelo mundo dos contos de fada. A série nos ensina que essas histórias tradicionais não têm nada de fantasia. Ao contrário, são de um realismo tão profundo que faz o realismo filosófico e materialista parecer história da carochinha.

No entanto, a maior parte do cinema feito hoje busca unir o realismo clássico a um ultra-realismo que mais serve para maquiar ou ocultar a profunda irrealidade que retrata. A ficção científica é prova disso. Apresenta relações humanas em grande realismo, situações cotidianas verossímeis, mas num universo absurdo e surreal. Mas dentro dessa neurose de verossimilhança, encontramos muitas vezes dramas humanos reais e discussões contemporâneas, se analisarmos as tramas simbolicamente. As histórias de super-heróis que povoam hoje o cinema procuram trazer dramas modernos ou pós-modernos de maneira simbólica, mas muitas vezes também preenchidos com conteúdos ideológicos atuantes na política cultural. Os filmes dos X-Men, por exemplo, que até os anos 1990, representava na ideia dos mutantes o drama da adolescência na sua dificuldade de aceitação social tensionada com sensações de superioridade e inferioridade, hoje declara assumidamente o caráter da agenda da Ideologia de Gênero, em que a liberdade da identidade humana busca na subjetividade do gênero (ou mutação genética) o vértice delimitador do poder humano sobre si mesmo ou a submissão ao padrão social. Os mutantes do cinema hoje representam o universo LGBT, quer percebamos ou não. Ainda assim, encerrar a trama neste aspecto pode ser o mesmo que falsificá-lo para transformar a cultura em campo de batalha política. É preciso ir além em busca da interpretação mais universal possível. A evidente divisão entre os mutantes que pretendem ajudar a humanidade e os que pretendem destruí-la parece ser também um claro desenho do aspecto político entre “direita e esquerda” como é visto hoje, isto é, entre as correntes liberal e social-democrata, na visão da esquerda norte-americana e na europeia. Afinal, a separação entre um discurso retórico de poder e controle (modernidade, liberalismo) e o dialético, da compreensão das complexidades (pós-modernidade, social-democracia), acaba ditando a quase totalidade dos conflitos do ocidente desde o século XIX e não é difícil interpretar assim o modo como é exposta a luta entre bem e mal neste mundo dominado pelo mal.

Ora, nem toda relação entre bem e mal precisa vir representada pela dicotomia herói contra vilão no mundo da fantasia. Super-homem e Batman, ambos heróis, representam essa dualidade muito claramente, embora em nossos dias possam coexistir uma variedade maior de interpretações. O Super-homem surgiu em 1932, como uma resposta à depressão pós-crise de 1929, quando pareceu necessário um forte símbolo que unisse a sociedade americana ao espírito do capitalismo, no qual o homem tudo pode. Não por acaso ele possui as cores da bandeira americana. Batman, por outro lado, representa um universo bem mais sombrio, embora não fosse tão evidente no princípio. Inicialmente como crônicas de investigação e combate ao crime, Batman pode ser considerado o símbolo do controle social. Motivado pela convicção de que a sociedade é imperfeita e doente, Batman simboliza o saneamento violento e forçado que impediria que a sociedade se autodestrua. Fica evidente a crença no contrato social de Hobbes, sem o qual o homem devoraria a si mesmo e a sociedade iria abaixo. Batman é o estado, a representação do contrato. Não por acaso, sua identidade secreta é o milionário e filantropo Bruce Wayne, referência às elites das grandes fundações internacionais. Também não é por acaso que absolutamente todos os inimigos de Batman são loucos e psicopatas, reforçando a visão da sociedade como essencialmente doente. A grande tensão entre este herói e seus inimigos aparece frequentemente na forma da insinuação de que o próprio Batman padece de problemas mentais. Provavelmente muito piores do que seus inimigos.

Outra referência importante no universo de Batman é o Asilo Arkham, onde é internada a maioria dos seus inimigos. Arkham Asylum é uma criação do escritor norte-americano H. P. Lovecraft, que embora tenha escrito somente contos de horror psicológico, criou uma vasta mitologia em torno de personagens e locais que se repetiam em suas histórias. Seus personagens costumeiramente terminavam internados no Arkham. A loucura é o ambiente comum dos contos de Lovecraft. Sua influência no cinema de horror do século XX é incontestável e a principal marca dos seus contos é a mistura entre sonho e realidade, na qual os personagens frequentemente eram guiados até os despenhadeiros da loucura por seus próprios medos. Os contos de Lovecraft podem ser usados como genealogia dos vilões de Batman e até mesmo do próprio Batman. Gotham City (um antigo apelido de Nova York) representa a sociedade americana, ocidental e, de modo mais abrangente, a sociedade humana refém do medo da violência, das aglomerações urbanas e de si mesma. A solução só pode ser o governo invisível, noturno, da repressão sistemática e oculta, que espreita os homens como um morcego, que além de cego como a justiça, alimenta-se do sangue (vida) humano. Batman é o símbolo da crença na sociedade má, a desesperança total no gênero humano.

De modo geral, a ideia dos super-heróis carrega um aspecto revolucionário intrínseco, embora possa conter em suas histórias dramas humanos e noções morais profundas sobre as tensões que envolvem a liberdade humana. Mascarados que fazem justiça fora do mundo das leis podem indicar tanto a subversão de um sistema que não concordamos, indicando a pura rebeldia anárquica, quanto pode servir para mostrar os perigos da identificação entre lei e justiça. Essas duas visões estão quase sempre presentes em todos os filmes e histórias de heróis.

Os super-heróis, portanto, parecem muito mais complexos e humanos se compararmos com a descrição literal dos heróis dos contos de fada. Mas a complexidade se iguala quando entendemos a profundidade que o realismo das histórias infantis pode trazer tratando-se dos dramas morais que são lá compactados. Ambos possuem uma grande capacidade de compactar significados, desde que sejam lidos ou assistidos de maneira atenta. Sabemos que com a evolução técnica do cinema, muitos conteúdos importantes ficam de lado e dá-se mais importância ao prazer figurativo e estético. Se nossa capacidade de perceber o conteúdo moral ou social compactado nas histórias está se perdendo, isso significa que as histórias recentes possuem um perigo muito maior para a juventude do que teriam os benefícios das histórias tradicionais.

Mas não podemos dizer que houve exatamente uma perda de sensibilidade para a percepção do conteúdo mais profundo das histórias recentes. O que aconteceu foi uma seletiva perda de percepção. Enquanto algumas coisas ficam despercebidas, outras, muito mais profundas, são apreendidas de modo subliminar por se tratarem de pressupostos ou crenças necessárias à formação de opiniões, quase sempre de cunho político ou filosófico. O conteúdo compactado do qual falamos, presente nas histórias do Batman, do Super-Homem etc, são normalmente percebidos de um modo pré-linguístico e, portanto, comportamental. O ambiente cultural e político atual se baseia na identificação democrática que dá ênfase à diversidade de opiniões. Isso pressupõe a existência de uma inevitável identificação grupal entre as pessoas. Grupal quer dizer, neste caso, cultural. Das categorias profissionais até os subgrupos periféricos e étnicos, há um universo de subjetividades passíveis de seleção e segmentação de conteúdo. Esse mosaico de possibilidades é rapidamente percebido pelo jovem sedento de identificação e atenção. As histórias atuais, por trazerem um componente estético bastante sedutor, oferecem-se como produtos aos desejos de um público que aprendeu a desejar do mesmo modo que forma opiniões. Desejar é o mesmo que opinar, participar, deliberar na sociedade. Pertencer a um grupo, não ético mas estético, acaba sendo sinônimo de democracia e, portanto, de crescimento pessoal. Adquirir maturidade, o que sempre foi um objetivo compartilhado por grande parte dos jovens a partir de determinada idade, passa a ter como símbolo, identificar-se com uma intersubjetividade, isto é, uma subjetividade compartilhada com um grupo de referência que lhe concederá o alvará da vida como ela deve ser.

 

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Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

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