Excesso de apego a bicho de estimação sugere carência e fuga da realidade

21/12/2011 5 Por Cristian Derosa

Recentemente, o caso da enfermeira que maltratou um animal na frente de uma criança transformou-se em verdadeiro drama nacional. Mensagens de ódio e ameaças de morte vindos de todos os lados tinham como alvo a tal enfermeira, que terá seu registro profissional cassado. A justiça brasileira tem feito o possível para atender às milhares de manifestações contra a enfermeira “assassina”. A mesma indignação não é vista, porém, sobre os casos de homicídio ou infanticídio. O que está acontecendo? O que dizem os especialistas sobre isso?

“Congelei meu passarinho porque não tive coragem de enterrar”

“Pessoas que apresentam um grau de depressão ou de carência muito elevado estão mais suscetíveis ao apego em excesso pelos seus bichos”, diz o psicólogo Paulo Tessarioli. “Muitas vezes, essas pessoas vivem em função do sue animalzinho, esquecendo muitas vezes da sua vida social, por exemplo”, diz.

“Pela minha experiência em consultórios, o homem não pode viver sem dar carinho. Por isso quem sente dificuldade em mostrar afeto canaliza essa necessidade nos animais de estimação. Essas pessoas demonstram amor pelo cachorro, mas não conseguem dizer aos próprios pais que os ama”, contou a psicóloga clínica Mirian Santos, da organização não-governamental Espaço Família.

O amor aos animais está em alta. Eles alcançaram o posto de membros da família, mas em alguns casos são a única família. Segundo especialistas, o que acontece é reflexo de uma crescente incapacidade no trato com humanos.

Mirian Goldenberg, antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que o que mudou, também, é que a sociedade ficou mais individualista. “As pessoas percebem mais reciprocidade do que nos relacionamentos convencionais, onde se sentem constantemente cobradas e criticadas.”

Muitas vezes esse comportamento denota uma tendência antissocial muito forte além da repulsa por seres humanos. A fisioterapeuta Egle Della Paschoa, de 29 anos, é noiva e seu futuro marido terá de adotar Beatriz, sua cadela vira-lata, pois, dela, Egle não abre mão. “Ela é minha filha, sim, e não me importo com o que as pessoas pensam disso. Eu não faço questão de manter muita proximidade com quem não gosta de animais”, diz.

Segundo o psicólogo Guilherme Cerioni, cuidar de animais é uma forma de receber de volta o amor que doamos. “As pessoas, hoje em dia, sentem dificuldade de se relacionar ou de estabelecer um vínculo social, por diversos fatores da forma de vida contemporânea”.

O animal aceita qualquer companhia independente dos problemas sociais e psicológicos que a pessoa tenha, então se trata de uma verdadeira terapia. Qualquer coisa que a pessoa espere dos seres humanos e se vê frustrada pode ser compensada na companhia dos animais de estimação.

Ainda assim, lembre-se de que é impossível viver sem o afeto humano. “O animal não pode se tornar uma armadilha de isolamento afetivo e social”, afirma a psicóloga Malu Favarato.