Esquerda latino-americana busca união de discursos e estratégias

Esquerda latino-americana busca união de discursos e estratégias

27/04/2018 0 Por Cristian Derosa

Após a prisão do ex-presidente Lula, os discursos do Partido dos Trabalhadores tomou uma única temática: a união dos segmentos de esquerda do país em torno do objetivo primário da colocação de Lula de volta ao poder. Mais do que isso, suas ações vão na direção clara da busca de apoio de toda a esquerda da América Latina para este fim. Apesar de esforços extras para o apoio de movimentos progressistas mundiais para além do continente, o que ficou evidente no pronunciamento de Gleisi Hoffmann à TV Al-Jazeerah, o foco principal tem sido o continente onde Lula e Fidel construíram, desde 1990, as bases do Foro de São Paulo para a construção da tão sonhada hegemonia.

Foi neste espírito que, no dia 7 de abril, em Lima, Peru, alguns dias antes da Cúpula das Américas, 11 partidos comunistas de toda a região se reuniram, para, entre outras coisas, afirmar solidariedade ao ex-presidente Lula, isto é, ao PT no Brasil. O objetivo do encontro foi o de “debater a conjuntura do continente, a ofensiva da direita e reorganização da esquerda neste cenário”.

Embora a reunião se restringisse somente aos partidos que tivessem “comunista” no nome (Só o PCB e o PCdoB representaram o Brasil), um dos pontos altos do evento foi a declaração conjunta de apoio a Lula e ao PT. Nenhuma ação internacional foi admitida nestes encontros. Os 11 partidos apenas afirmaram a concordância em três pontos básicos:

1 – Expressar nossa solidariedade ao Camarada Lula.
2 – Trazer nossa solidariedade internacionalista ao Partido dos Trabalhadores e outras forças progressistas e esquerdistas.
3 – Exigindo a liberdade do camarada Lula.

União do discurso para embasar ações

Por outro lado, em um editorial do site Resistência, o jornalista e membro da Comissão Política Nacional do PCdoB, José Reinaldo Carvalho, buscou reforçar a tese de que o Brasil vive “sob o domínio ditatorial, apesar da aparência de normalidade jurídica e constitucional” e considerando ilegítimo o governo atual, que governa através do “presidente da Câmara, setores do Poder Judiciario, do Ministério Público, a Polícia Federal e a Mídia, sob hegemonia da Globo”.

Dessa forma, nomeiam a necessária resistência, que se articula com a “luta pela democracia”, ancorando-a na luta pela libertação de Lula, além do seu direito à candidatura. A liberdade de Lula, para Carvalho, condenado por um sistema inteiro ilegítimo, só pode significar a vitória da democracia sobre a tirania, do povo sofrido sobre seus algozes. Eis a dialética simbólica da revolução, que condiciona todas as liberdades humanas mais subjetivas ao retorno ao poder do ungido pelo povo.

Com um discurso messiânico revolucionário, o PT busca aproximar Lula dos muitos “santos” revolucionários como Che Guevara, Fidel Castro, Marighela e outros, na tentativa de redefinir ou atualizar o senso de justiça social, tarefa que a esquerda se dedica de tempos em tempos para adequar à dinâmica presente.

Estes pressupostos buscam reforçar um elo de união ideológica para embasar eventuais ações conjuntas. Esse foi um dos objetivos da criação do Foro de São Paulo, quando entidades progressistas e revolucionárias de todo o continente se uniram para definir compreensões em comum sobre a realidade da região. Esse compartilhamento de noções e consensos é chave para qualquer ação embasada. A união dos discursos e formação de consensos precede a ação prática, mas sempre com abertura à dinâmica das situações e possibilidades dialéticas que se apresentam. Ou seja: divisões dentro desses blocos regionais sempre podem ocorrer, mas a união naquilo que importa deve ser crucial para a conquista da hegemonia.

Nota aprovada pela assembléia dos partidos comunistas, em Lima

Os partidos reunidos no Encontro de Partidos Comunistas Latino-Americanos expressam sua solidariedade internacionalista ao companheiro Luiz Inácio Lula da Silva e manifestam seu repúdio a sua prisão arbitrária, resultado de um processo viciado, manipulado e pleno de ilegalidades.

Este processo que se encontra sobre a pressão de forças antidemocráticas e reacionárias, representa não só a tentativa de retirar Lula da disputa eleitoral, onde ele é francamente favorito, representa um atentado contra as liberdades democráticas e as forças progressistas.

Denunciamos a ofensiva conservadora da extrema direita e do fascismo, que vem realizando atos de violência contra os protestos populares nas ruas, contra a caravana de Lula no Sul do país e que busca gerar um clima de terror e ódio no Brasil.

Chamamos todas as forças progressistas e anti-imperialistas da América Latina a derrotar as manobras políticas e anticonstitucionais que levaram à prisão de Lula.

Um dos pontos de sustentação, portanto, é a condição de favorito de Lula na intenção de votos, o que significa que a estratégia discursiva está sob a credibilidade dos institutos de pesquisa que apontam Lula favorito. Isso poderia ajudar a explicar o motivo pelo qual Lula, um condenado preso, ainda está presente nas pesquisas. A estratégia regional, pelo visto, também não pode prescindir do auxílio desses órgãos de pesquisa.