Como fazer crítica cultural em um país sem cultura superior

arte-invisívelO que é cultura superior ou alta cultura? Em termos práticos, é o longo diálogo de gerações que no decurso de séculos dedicaram-se ao esforço hercúleo de traduzir os valores morais universais e gerais à vida concreta do indivíduo particular. Isso foi feito por meio de reflexões, impressões particulares ou da ficção. Mas já que a base desses valores é cristã, quando uma civilização divorcia-se dela o resultado é a mais aberrante das decadências. E o fruto mais óbvio dessa decadência expressa-se pela crença de que o bem, a beleza e a verdade são relativos às “culturas” existentes em cada época. O que de fato é relativo e contingente é a feiura, a maldade e a mentira, dispondo-se no mundo como convém às tendências, impulsos e modismos. Mas mesmo elas possuem uma universalidade que é a negação da ordem e consequentemente da inteligência.

É impossível escrever ou pensar sobre cultura sem uma noção de superioridade de determinadas artes sobre outras. A hierarquia dos bens está intimamente ligada à hierarquia dos valores. Quando perde-se a noção de alta cultura, perdem-se de vista os valores com os quais se vai defender ou atacar qualquer coisa. Mesmo a crítica dessa hierarquia pressupõe hierarquia de valores preferíveis a outros. Não há como escrever sobre arte ou cultura sem ter isso como premissa básica.

Escrever é apelar para o entendimento. Para o escritor, o artista ou o crítico, há diferentes funções, todas elas gravitando a seu modo o globo celeste dos valores superiores. O escritor roga ao entendimento de si mesmo, busca a compreensão do que é o ser. O artista tenta registrar o sentido percebido e imortalizar um instante solene na expressão mais bela possível. Já o crítico, faz das expressões e dos registros pessoais de obras, uma busca de sentido para elevar o público acima das perplexidades da hora e do correr do tempo.

A hierarquia está em todo lugar. Da realidade à ficção, o mundo gira em torno de prioridades e dispersões, reuniões e fragmentações, sendo as primeiras preferíveis às últimas. O músico erudito busca por meio da disciplina e do estudo da técnica, a perfeição sonora e harmônica, segundo um padrão estético que o artista se vê identificado. Na música erudita ou na música popular existem diferentes formas de padrões estéticos, que chamamos estilos. É indispensável entendermos a complexidade que envolve o pertencimento ou não de um produto cultural a um estilo. Isso porque cabe ao crítico, e não ao artista, classificar e catalogar o produto no seu devido gênero ou estilo. Ao mesmo tempo, cabe ao artista, e não ao crítico, ser aplaudido ou admoestado (embora o crítico não esteja acima de críticas). De críticos que buscam aplausos, já estamos cheios e este é o motivo pelo qual desapareceu a crítica no Brasil. Pelo mesmo motivo que desapareceu a coragem e a sinceridade inerentes à verdadeira sensibilidade artística.

O que são estilos musicais?

Estilos existem. Não são apenas abstrações catalogadas para vender discos ou separar um tipo de público de outro. Isso porque há diferentes formas de manifestar a arte segundo as variedades das tendências humanas. Mas isso não anula o primeiro caráter do estilo, isto é, o de catalogação de públicos. Este sentido nasceu junto com a Indústria Fonográfica e cultural, cujo poder de persuasão no comportamento das massas passou a conduzir movimentos de ideias ao longo do século XX.

A música erudita, por sua vez, se caracteriza na sua execução pela busca da perfeição sonora naquilo que pretende o compositor transmitir. As emoções vindas da sonoridade e da multiplicidade de escolhas do artista devem ser respeitadas pelo músico que executa e a sensibilidade do artista é a medida e critério dos músicos, mesmo tendo ele morrido há vários séculos ou estar presente nos ensaios de uma orquestra. O esforço e a dedicação à técnica e ao domínio perfeito do instrumento é essencial para esse trabalho. A música erudita depende inteiramente do compositor.

Já a música popular, como depende essencialmente do critério das massas, possui menor compromisso com os bens superiores e valores universais. Sua premissa está na popularidade e no retratar de algum tipo de sensibilidade mais ou menos comum ou corriqueira, ligada ao modo de vida de uma parcela da população, seja urbana ou rural, regional ou nacional. O fenômeno da música pop internacional diz respeito à universalização de comportamentos e não à algum tipo de influência que se restrinja ao universo da música em si. Modos de viver identificam-se com ritmos determinados e estéticas sonoras específicas. Este aspecto é o que determina a diversidade ou não de estilos musicais que tocam em rádios.

Chamar a música erudita de estilo musical tal e qual se chama o forró ou o rock, por exemplo, me parece falsear totalmente a realidade do fenômeno musical. Há a música erudita e a música popular, ambas com seus estilos e características estéticas, sejam elas aplicadas diversamente por vários músicos ou grupos, ou específicas de compositores individuais. Dentro da música popular, encontram-se infinitas formas e estilos que possuem uma variabilidade infinita, o que depende do mercado e da apreciação crítica da mídia, que os cataloga conforme vários critérios dispersos nos campos que vão desde a opinião pública até as rodas de amigos auto referentes. A música popular não está livre do critério da beleza, da técnica e dos princípios de uma cultura superior. Ela apenas está mais conectada e aproximada com os valores relativos e flutuantes das massas, já que são muitas vezes resultado de mudanças comportamentais e sociais. Embora a música erudita possa também ter esse caráter, ela possui uma exigência muito maior quanto à sua “liturgia” e forma, significado e profundidade artística. Mesmo a música contemporânea, ligada aos ditames pós-modernos e anti-modernos, há essa profundidade que limita a possibilidade do consumo no sentido da música popular. Na verdade, a música modernista ou a sua descendente contemporânea, exige ainda mais profundidade neste dito consumo, pois têm em si uma propensão, digamos, ideológica ou mais construtiva do que propriamente o intuito clássico de retratar em sentido consonante os bens superiores. Assim como a música popular vira-se à massa e ao critério disperso dos gostos correntes, aquele modernismo dissonante vira-se ao drama e à tensão psicológica humana para expor contradições e idiossincrasias, diferente da arte clássica que buscava elevar o homem às alturas do firmamento por meio da contemplação.

Contemplação é um conceito que foi abusado por modernistas justamente devido à falta da sua capacidade contemplativa. Não há meios de contemplar uma obra artística moderna. No lugar da contemplação, há o incômodo propositalmente gerado para criar na psique a reflexão filosófica existencial, existencialista até, colocando o indivíduo diante de um espelho junguiano e sartriano. Algumas obras até mesmo causam literalmente náuseas, tal o título do livro de Sartre. Pela característica reflexiva e ideativa, isto é, subjetiva e racional, pode possuir em si possibilidades de elevação moral ou transcendência artística, mas essa potencialidade encontra-se disposta ao lado de outras menos nobres.

Diversamente, a música popular busca o apreço das massas do mesmo modo que a tenta retratar e repetir. Mas como é intimamente ligada a indústria e, com isso, a grandes grupos empresariais ou estatais, sofre do instrumentalismo típico da arte panfletária ou mesmo da pastiche chique, caricatura de modernismo ou classicismo enrustido. A sua superficialidade tende ao anestesiamento de suas intenções ou acobertamento de efeitos psicológicos, já que sua função está ligada à engenharia comportamental, mesmo que possa ser usada para denunciá-lo.

É característica da música popular a mistura com elementos estéticos do clássico e do moderno, sendo portanto fácil confundir com estes últimos, especialmente em sociedades em que não há no imaginário das suas elites esclarecidas a tradição e os valores para a distinção entre verdadeiras obras e suas imitações. Uma imitação, porém, pode ter grande profundidade e retratar algo de sublime verdade. Mas dificilmente atenderá aos critérios dos bens superiores, aqueles ligados à cultura superior autêntica.

Portanto, a primeira preocupação do pretendente a crítico em nossa época parece ser a da distinção entre a verdade e a imitação, mesmo que seja para classificá-lo sumariamente ou denunciar o premeditado engodo. Trata-se da distinção essencial entre o real e o caricato. Imitação pode ser uma palavra batida quando se fala em arte, pois nos parece que toda a beleza já foi retratada e que agora nos sobram as colagens, a edição e disposição do que já foi, buscando o sentido construído a posteriori. Não é verdade. O que de fato aconteceu foi que formos privados da imaginação verdadeira e sincera.

 

 

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

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