A causa tibetana e o totalitarismo chinês

A chanceler alemã, Angela Merkel foi a terceira chefe européia a declarar que não vai participar das Olimpíadas de Pequim devido aos protestos do povo tibetano. O presidente francês Nicolas Sarkosy já sinalisa que pode adotar a mesma posição se a situação não tomar rumo pacífico na região asiática. A posição do governo chinês é agressiva diante dos protestos, mas não se sabe até onde isso pode lhe custar as Olimpíadas, a grande oportunidade do comunismo ganhar respeito internacional. Mas não será difícil declarar guerra ao povo tibetano, fazer outro genocídio e chamar o Dalai Lama de “terrorista”, pois Lula já chamou Chavez de “pacificador”.
A história do Tibete resume-se em uma milenar busca pela identidade nacional através da cultura, ciências e religião. Manteve-se quase sempre dominada por povos diversos como os mongóis, ingleses e principalmente os chineses. Sua fragilidade pode ser explicada pela política adotada desde cedo do pacifismo ao invez do desenvolvimento bélico-expansionista em voga na antiguidade. Por isso esteve em constante disputa entre diversos países e, desde muito tempo, cobiçada pelos chineses.
A causa da independência do Tibete ganhou força depois do histórico massacre de manifestantes pelo exército chines na Praça da Paz Celestial, em 1989. O episódio, junto com a concessão do Prêmio Nobel da Paz ao Dalai Lama Tenzin Gyatso, dá grande popularidade à causa tibetana e consequente indignação dos líderes chineses. Em 1999, os chineses iniciam uma campanha pela difusão do ateísmo na região do Tibete e o líder Karmapa Lama, terceiro maior líder tibetano foge e pede asilo à Índia.
Durante a Antigüidade, o Tibete foi um reino belicista e feudal, investindo contra os territórios vizinhos como muitos daquele período. Mas isso mudou no ano 617, quando o imperador Songtsen Gampo começou a transformação do Tibete em civilização pacífica. Desde então, o país centrou-se na religião, baseada no budismo e em princípios morais de proteção do meio ambiente. Mas a antiga cobiça chinesa pela região trouxe, no século XVII, a anexação da região ao território chines. Começa aí, a longa luta do Tibete pela independência, conseguida temporariamente em 1912. Depois disso, o século XX faz ir e vir o domínio chines, entre um genocídio e outro, e o povo tibetano manteve-se como refém de um imperialismo totalitário que ganha força hoje nos quatro cantos do mundo.
As Olimpíadas de Pequim têm lugar de destaque para o governo chinês que pretende atraves dela, manifestar ao mundo a superioridade do sistema chinês de “capitalismo de Estado”, exatamente o que os jogos de Berlím representaram para Hitler e o nazismo alemão das décadas de 30. Mas os protestos tibetanos promentem estragar tudo demonstrando o caráter genocida do governo chinês que já matou 50 milhões de pessoas desde a criação da República Popular da China, em 1949. O simples fato do país asiático manter a economia em base capitalista, é suficiente para animar os entusiastas liberais que se alegram ao perceber que países com o Brasil se dirigem a este modelo com a voracidade dos que almejam o sonhado progresso, mal sabendo que estão indo diretamente ao fundo do posso ao endoçar a obcenidade que é o modelo capitalista chinês.
Para começar, o sistema chinês mantém a produção capitalista, mas com domínio total do aparato estatal, ou seja, não há liberdade política no país. Isso acaba restringindo, na prática, qualquer liberdade econômica. Trata-se de um modelo falido, pois provoca o crescimento do PIB, mas não garante acumulação de riqueza para a população. O vício liberal ou “neo-liberal” do brasileiro de vincular automaticamente o crescimento do PIB com o desenvolvimento econômico e geração de riqueza pelo povo, não decorre dos manuais de economia que se encontram ultrapassados. É fruto único da crença nas palavras de formadores de opinião que, ou não entendem nada de economia e repetem jargões fora de contexto, ou estão aliados ao conluio de otimismo “neo-positivista” que assola nosso empresariado e, não raro, todo o establishment do mundo capitalista.
Gravitando em presença de todos os conceitos errôneos que se apresentem diante de nossos olhos nos meios de comunicação está o resultado do aparato totalitário chinês que atinge justamente a frágil informação ocidental da forma como bem entendem.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

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