Fake News: o jogo Baleia Azul e a histeria coletiva

O suposto “jogo”ou desafio do suicídio, chamado de Baleia Azul ganhou as manchetes de toda a mídia online e offline brasileira nos últimos dias. Isso coincidiu com o sucesso da série 13 Reasons Why do Netflix, que aborda o tema do suicídio na adolescência. Supostas vítimas do jogo aparecem, mas as investigações policiais ainda são inconclusivas.

Surgiu em 2015, por meio de uma notícia falsa que foi publicada em um jornal russo e desmascarada em seguida. A história circulou nos meios de comunicação na Rússia, Cazaquistão e Quirguistão, chegando também a países como a Bulgária. Em fevereiro deste ano, o Centro para a Internet Segura de Sofia, na Bulgária, investigou e chegou à conclusão que era um reavivamento de uma farsa que circulou na Rússia em 2015. “Essa incrível história atrai sites de tablóides, que lucram com visitas, acrescentando mais e mais detalhes e histórias horríveis, que não são apoiados por fatos”, disse o Centro para a Internet Segura para o jornal Balkan Insight.

O assunto, com fotos e vídeos de pessoas mutiladas por causa do jogo, tem circulado por redes sociais, pelo whatsapp, mas não fornece informações claras. Algumas dessas fotos e vídeos já foram desmascaradas por sites especializados em desfazer boatos online. A epidemia de preocupação e histeria, principalmente entre quem tem filhos adolescentes, tem impulsionado a avalanche de mensagens.

Uma das mensagens distribuídas, dizia ser de um participante do jogo informando que cumpriria o desafio proposto, de distribuir balas envenenadas em uma escola. Ele disse o nome das escolas, em Minas Gerais, o que causou grande alvoroço entre pais e diretores da escola. Uma operação da Polícia foi montada, mas tudo não passou de uma ameaça falsa, pois nenhum caso foi relatado.

A temática do suicídio

Embora muitos casos de suicídio estejam sendo seriamente associados ao jogo, de acordo com as informações apuradas até o momento, fica claro que se trata de um exagero para gerar comoção popular. Mas por que motivo alguém disseminaria algo assim? As causas podem ser várias, mas o importante são os alvos mais evidentes.

A temática do suicídio no jornalismo demanda certa atenção quando pretendemos analisar a cobertura da imprensa sobre o assunto. Na prática jornalística, ainda hoje, é praticamente proibido noticiar suicídios. Trata-se de uma convenção profissional, uma espécie de acordo de cavalheiros. Além de ser uma prática obviamente reprovável por todos os vivos, ninguém duvidou jamais que noticiá-la poderia incentivar pessoas já predispostas. Além disso, outro motivo é a óbvia exposição da vida íntima do suicida que uma notícia traria. A outra consequência é a social: a notícia de uma epidemia de suicídios poderia desestabilizar a ordem social, provocando um verdadeiro apocalipse de desesperança e caos. Mas diante disso, será que as notícias diárias sobre a violência já não fazem isso? Segundo os sociólogos tradicionais, não. O suicídio seria a gota d´água. Mas isso está para mudar.

Novas discussões no âmbito do jornalismo prático questionam a renúncia de noticiar casos de suicídios baseando-se em crenças como a manifestada em um artigo da jornalista Carolina Grando, no Observatório da Imprensa:

Da mesma forma que o jornalismo dá conta de cobrir noticiosamente outros temas tabus que figuram entre as manchetes dos jornais diários, como pedofilia ou incesto, contribuindo para a denúncia de práticas ilegais e para informar acerca de outras realidades, as notícias sobre suicídios poderiam obter o mesmo êxito, alcançando senão a finalidade do jornalismo, que é gerenciar a arena simbólica e proporcionar um compartilhamento de informações e experiências, promovendo debate e maior compreensão sobre temas sociais.

Essa afirmação deixa de fora um fato importantíssimo: tanto pedofilia e incesto, quanto o uso de drogas (outro tabu rompido) vêm se tornando pauta de movimentos que reivindicam aceitação pública, exigindo descriminalizações e direitos sociais. Na Alemanha, o incesto já não é crime. A pedofilia da mesma forma, já conta com entidade com status consultivo na ONU, que defende a prática sob o nome de “direitos sexuais para crianças” e as drogas estão prontas para ter seu comércio legalizado, já que o seu uso já é descriminalizado.

A observação da autora do artigo do Observatório da Imprensa é bastante ingênua, fruto de profissionais que acreditam na auto-suficiência do jornalismo como força integradora da sociedade, esquecendo de quando ele responde bovinamente aos estímulos de movimento sociais e influências cujo dinheiro e credibilidade, há décadas, o jornalismo depende.

Toda nova disposição legal, no Ocidente, vem primeiro pela boca inconsequente e submissa dos jornais. A questão do suicídio já conta com discussões aprofundadas em muitos países, mas também no Brasil abordando razões ou personagens que apelam para histórias comoventes. Em matéria da Revista Fórum o “tabu do suicídio” é considerado um atentado contra a laicidade do estado.

O problema da depressão e suas causas

Os problemas alegados pelas notícias assustadoras sobre o jogo Baleia Azul parecem alertas importantes, como o cuidado dos pais com filhos adolescentes, crianças etc. O problema da depressão parece outra sub-pauta levantada, tendo como consequência o suicídio, discussões que servem de alarme social para catalizar reações de pânico diante do aparentemente inevitável e incontrolável. Muitas discussões parecem infrutíferas quando surgem nos meios mais populares, como papos de família, escolas e universidades ou no ambiente de trabalho. Em geral, a tendência é a obediência a um fluxo de pautas recebido gratuitamente, sem qualquer justificativa. A longa exposição a notícias de tragédias e males incontroláveis, porém, gera nas pessoas uma perda de esperança na liberdade humana, fazendo com que algumas pessoas já predispostas a isso, comecem a sugerir controles absolutos sobre as atitudes humanas.

A depressão cada vez mais é vista como doença de ordem puramente química, quanto mais notícias, impulsos e todo tipo de estímulos as pessoas recebem desde a infância. O mundo moderno, com a presença constante de tecnologias de altíssima velocidade, complexidade e incognoscibilidade, produz evidentemente uma ansiedade que pode ser mortal. Os motivos da depressão ninguém sabe ao certo. Mas é extremamente sintomático que os defensores mais ardorosos da “causa química” admitam ser portadores de algum grau do problema.

É evidente que todas as causas para a depressão estão presentes na nossa sociedade. Famílias desestruturadas, secularização crescente da educação e das famílias, cultura juvenil destruidora e desequilibrada. Mas afinal, onde estavam os preocupados com a adolescência de hoje na época de festivais como Woodstock?

Já faz algum tempo que portadores desse problema dizem, ao serem perguntados se estão bem, “estou quimicamente bem”. Isso nos leva a perguntar sobre a responsabilidade da indústria farmacêutica e de psiquiatras que têm respostas químicas para todos os problemas, o quanto de dinheiro estão levando ao transformar milhares de pessoas em escravos de medicamentos. E até que ponto esses medicamentos não terão também a sua efetividade política, moral e social sobre a democracia quando decidirmos sobre questões importantes. Será que ouviremos um sonoro “sou quimicamente a favor”?

 

 


Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.
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