Existe cultura superior ou tudo é cultura?

Quando falamos a palavra cultura, o nosso imaginário nos leva à Sheakespeare, Homero ou Camões. Beethoven, Verdi ou Mozart, povoam de sons e sensações à mera evocação da palavra. Ao menos é o que devia ser. É por isso que estranhamos quando vemos ser chamado de cultura uma exposição de fotos tiradas em um vestiário destinado a travestis, ou uma coleção de esculturas feitas em lixo reciclável. Nem mesmo o velho, batido e ultrapassado mictório de Duchamp faz com que se apague em nós a impressão de estranhamento do uso costumeiro que se tem feito da palavra cultura. É necessário cada vez mais cuidar de nossa cultura como quem cuida de um doente terminal. E faremos isso por sabermos que é dela, e não da política, que vieram e virão sempre as barbáries totalitaristas. O esvaziamento do seu sentido a torna manobrável pelos cesares do templo, pelos doutores da Lei Rouanet e outros braços do Leviatã humano.

A palavra cultura tem hoje duas acepções básicas e formais: a clássica, que considera cultura somente o que se inscreve na tradição das grandes obras da humanidade e a antropológica, aquela que chama pelo nome de cultura todo tipo de prática coletiva. Este sentido é análogo ao uso dado por ciências como a botânica ou agricultura (cultura do arroz, cultura da soja), no sentido de cultivar costumes. Resume-se em um culto a atividades sociais e comunitárias. É este sentido e não o primeiro que tem o potencial da destruição e consequentemente do despotismo mais cruel. Sem destruição cultural, nenhum governo fará rebanho.

Sem conhecimento histórico, toda cultura se torna relativa ao seu tempo e, com ela, os valores.

A cultura no sentido das artes clássicas (música, pintura, escultura, arquitetura, etc) teve seu sentido influenciado pelo uso antropológico ao ponto do relativismo cultural. Muitos acadêmicos podem até sustentar que essa “evolução” do termo possa contar com alguma justiça (social?) ao tratar sem distinção as práticas que não estejam inscritas na tradição clássica. Na verdade, sustentam isso sem grande originalidade. Foi o modernismo que popularizou este uso, fazendo já quase 100 anos do início deste movimento. Desde então, o que se tem percebido foi uma decadência não somente estética ou técnica (que são também evidentes) mas moral. Somente por este fato, por esta queda moral incensada pela prática dita artística dos modernistas, já se poderia concluir que se trata de uma valoração objetiva, isto é, se o relativismo inerente a essa crença (de que tudo pode ser chamado de cultura) levou a um relativismo moral, certamente os defensores do sentido clássico da palavra estavam certos o tempo todo.

O poeta, ensaísta e crítico de arte português Fidelino de Figueiredo (1889), no texto Um colecionador de angústias, do livro Mortos vivos na academia, de 1953, chamava atenção para o resultado dessa hábil confusão no trecho intitulado “Falsificação da cultura”:

“Parece que este despertar da inteligência coletiva [proporcionado pelas facilidades da comunicação que produz uma sede de saber e de informação acerca de tudo] é tão contagioso como um andaço mórbido. À sombra desta manifestação de saúde é que se definiu a doença nova: a falsificação da cultura. Pensam os fornecedores da cultura – fornecedores que não são nunca os criadores dela – pensam que a vida moderna é vertiginosa, precisa de aproveitar o tempo avaramente; as massas têm um nível de recepção mental muito baixo e carecem de sentido crítico. (…) será preciso condensar, abreviar, simplificar, tornar assimilável pela pequenez do seu espírito e grandeza do pensamento e a imensidade da cultura acumulada.”

O percurso cadente do termo cultura, desde o uso como cultivo de bens espirituais superiores (beleza, verdade e bem), disponíveis no longo diálogo acumulado pelas grandes obras da humanidade, até o seu sentido de culto a atividade lúdica qualquer, desde que somente reflita ou registre vidas, emoções ou sensações por menores ou banais que sejam, teve a sua razão de ser. Foi preciso, neste século catastrófico que foi o XX, condensar tudo o que era inalcançável à apreensão das massas dentro do rótulo de ultrapassado, velho ou elitista. Com isso, os vilões da política, representados por seus militantes na cultura, tornam seu conceito maleável a seus interesses estratégicos.

Com o advento de leis estatais de incentivo à cultura, o problema se ampliou drasticamente. Cultura passou a significar tudo o que o governo aceitar como tal. A perda da percepção das nuances artísticas, como referências tradicionais, ocasionou um fetichismo endêmico: adora-se toda representação ou imitação de arte, considerando-a somente aquilo que atender os requisitos para a imitação, o simulacro perfeito, convertido inevitavelmente em grossa caricatura. Entrega-se a publicitários a curadoria de bens pretensamente superiores, que de superior mantém apenas imagem ou a sensação de pertencimento ao mundo erudito. Não podem faltar ilustrações publicitárias: um violino ou o seu timbre tocado em caótica insanidade, uma foto de pincel com tintas, tela em óleo retratando vasos de flores, fotografias em preto e branco dispostas em um secador e acompanhadas de frases soltas. Versos livres que evocam emoções banais entregam a quem tiver mínima sensibilidade ou conhecimento histórico, o mero desejo mimético, como uma criança a brincar com as ferramentas do pai, fantasiando ser ele.

Há um movimento cultural silencioso e quase oculto, que rasteja por debaixo da aparência de erudição. É a influência da mundanidade no que pretende ser superior. É um cheiro pútrido que emana do esgoto subcultural e infesta todas as artes. Este cheiro emana das produções e é identificado mais facilmente por quem conhece o submundo. O modernismo abriu as comportas do inferno. Bestas ancestrais libertaram-se e roçam seus ventres pelas escadarias do velho e sagrado templo das artes rumo ao espírito humano. Tendo a contestação, a originalidade e o susto como critérios, envenena toda sensibilidade e pôs abaixo todo o reinado da beleza, do bem e da verdade. Frutos do relativismo cultural, que ensejou o moral e estético, borbulha como lava por debaixo dos palcos e ateliers, prontos a pular em assalto aos espíritos criadores. O que vemos hoje não é nada perto do que virá.

O único remédio contra isso é a verdade. Remédio amargo, que só será aplicado por uma geração de corajosos e sinceros homens de fé, que aceitem entregar sua vida e obra para sanar uma chaga que, se não contida, levará a humanidade à mais abjeta escravidão e a resultados muito piores do que os espetáculos totalitários do século XX. Nunca nos esqueçamos de que Hitler foi, antes de ditador sanguinário, um frustrado artista.

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.
2 respostas
  1. Luis Antonio Galbiatti
    Luis Antonio Galbiatti says:

    HOJE EM DIA QUALQUER PORCARIA É CULTURA.O QUE VEMOS NA MÚSICA,NAS ESCULTURAS,NAS PINTURAS E EM OUTROS SEGMENTOS DO QUE CHAMAMOS DE ARTE É DE ESTARRECER.NO MUNDO MODERNO EXISTE O CULTO A TUDO O QUE É FEIO E DISFORME,MOSTRANDO QUE O ASSIM CHAMADO SER HUMANO MODERNO,É ELE PRÓPRIO,UMA CRIATURA MONSTRUOSA!

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