Entretendo e modificando o comportamento: as ideologias presentes na diversão pública

capa do livro em 3dTrecho do livro A transformação social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda

Há séculos que as narrativas são eficientes para a transmissão de ideias e sugestão de comportamentos. Gustav LeBon, em seu livro Opiniões e as Crenas, explica o importante papel das histórias de cavalaria na Espanha do século XV, quando os reis as tiveram de proibir devido a quantidade de homens a abandonarem suas famílias em busca de aventuras. A influência das histórias vinha sendo percebida como um efeito mais ou menos fortuito das narrativas e não uma deliberada busca por mudança de padrões. Mas este potencial não poderia ficar de fora das ambições dos reformadores. O Brasil é internacionalmente conhecido pelas suas telenovelas e o seu potencial transformador já foi há muito percebido pelos engenheiros sociais.

Em 2009, dois estudos realizados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) comprovaram que nos últimos 40 anos as telenovelas tiveram um impacto profundo nas famílias brasileiras. O resultado comprovou o efeito delas no tocante à estrutura familiar: Menos filhos e mais divórcios, apontou o estudo. A pesquisa coordenada pelo economista Alberto Chong, analisou 115 novelas transmitida pela Rede Globo entre os anos de 1965 e 1999, nos horários das 19 horas e das 20 horas. Nessa amostragem, 62% das principais personagens femininas não tinham filhos e 26% delas eram infiéis a seus parceiros, o que suavizou o tabu do adultério. Para Chong, a telenovela é um excelente canal de difusão de programas sociais, como prevenção à AIDS e direitos das minorias. “A família está no centro dessas transformações”, declarou Chong.

As novelas de hoje, porém, vão muito além do adultério. As produções investem em todo tipo de causas sociais visando a conscientização de modo que pouco das tramas pode ser chamado de entretenimento em sentido estrito.

O padre Paulo Ricardo de Azevedo, em seu site, chama atenção para uma novela em especial que foi ao ar nos anos de 1970 e que bem representou o marco para a mudança de mentalidade da população sobre a questão do divórcio. Na novela Roque Santeiro, ficava evidente a luta do autor Dias Gomes contra o que acreditava ser o grande entrave para o desenvolvimento do Brasil: o Cristianismo. A trama que envolvia um amor impossível colocava a proibição do divórcio como uma norma cruel da sociedade patriarcal e antiga, ligada à Igreja, caracterizando o povo brasileiro como um povo atrasado, preconceituoso e avesso às “novidades”. Não é preciso dizer que pouco tempo depois foi aprovado o divórcio no Brasil.

Não se trata aqui de condenar ou aprovar a possibilidade do divórcio. O fato inegável é que a partir daquele momento esta porta foi escancarada e a família como era conhecida passou a ser modificada, dando origem a uma legião de pessoas atomizadas e órfãs cada vez mais carentes de atenção estatal. Como já dissemos, o alvo da família sempre foi caro aos socialistas que a veem como berço por excelência da exploração do homem pelo homem, já que é um dos chamados “aparelhos ideológicos de estado”, encarnando o que consideram a ideologia burguesa por excelência.

Se uma mudança nos padrões morais dessas proporções foi levada a efeito em pouco mais de 40 anos, calculemos o estrago feito pelo aumento à exposição de conteúdos de entretenimento entre jovens entre 10 e 19 anos observado nas últimas décadas. Desde as tradicionais formas de diversão dos anos 80 e 90, resumidas a programas de TV, novelas, filmes e seriados, a transformação ocorrida com programas de incentivo governamental para as novas produções cinematográficas ligadas à febre das séries possibilitada por serviços como o Netflix, novas formas de entretenimento estão mudando drasticamente a estrutura social. Ferramentas tecnológicas que antes tinham simples interesses lucrativos, hoje se transformaram em verdadeiras máquinas de propaganda política, servindo a operações pouco disfarçadas que se resumem à atividade do advocacy para ideologias. Longe de representar uma abertura ao uso de lobbys simplesmente, o advocacy direciona todo o poder em uma única direção ideológica, não servindo meramente a quem paga mais e sim aos já consagrados donos da hegemonia cultural, algo bem mais sutil.

Em 2015, o Netflix estreou a série brasileira e norte-americana Narcos, dirigida por José Padilha, famoso pelo sucesso de Tropa de Elite. O ator Wagner Moura interpretou ninguém menos que o narcoterrorista colombiano Pablo Escobar em uma verdadeira epopeia sobre as relações entre cartéis de drogas e os governos da América Latina. A série perdeu a oportunidade de fazer uma verdadeira denúncia da atividade comunista das Farc junto ao Foro de São Paulo para, na verdade, empenhar-se na denúncia do suposto fracasso ou hipocrisia inerente à guerra contra as drogas, com o claro objetivo de mobilizar e conduzir a opinião pública na direção da descriminalização de drogas hoje ilícitas. Os indícios deste objetivo vão além da simples análise da trama. Basta lembrar as clássicas produções cinematográficas sabida e declaradamente financiadas pelo narcotráfico mexicano, conhecidas como “narcos”, cujo intuito é o de glamourizar vida e obra de chefes do crime organizado. Uma rápida busca pela palavra no Google e o leitor encontrará centenas de filmes mexicanos independentes que cumprem esse papel, além de músicas, formando juntas uma verdadeira “narcocultura”. É igualmente conhecido o culto religioso prestado em outros países de língua hispânica a traficantes famosos que contam até mesmo com imagens, orações e capelas feitas em sua homenagem. Pablo Escobar é um deles, conhecido na Colômbia como Pablito. A série Narcos, além de homenagear o estilo consagrado naqueles países, fortalece a narrativa romantizada que põe a polícia e forças armadas dos países como caricaturas ineficientes e por vezes más.

São incontáveis os esforços de conformação da opinião por meio das narrativas ficcionais ou revisões históricas e seria tedioso listar todos os empreendimentos neste sentido nos últimos anos. As novelas brasileiras abordam cada vez mais os temas sociais e com isso acumulam duvidosos prêmios globalistas. A temática homossexual tem sido a mais recorrente, o que providencialmente vem junto da defesa da adesão da Ideologia de Gênero no sistema educacional, há muito já hegemônica nos meios jornalísticos e midiáticos e na prática da educação das famílias.

Junto da Ideologia de Gênero, o ambientalismo forma uma poderosa corrente do novo transhumanismo globalista, que ambiciona respectivamente o controle populacional, por meio da moralidade e reestruturação da família a estilos politicamente amoldáveis, e da ecologia radical global que se encarregará do controle econômico dos recursos globais. Nenhum governo mundial que se preze poderá angariar poder total sem essas duas armas de controle social. E nenhum empreendimento desta envergadura terá sucesso se não influenciar diretamente na matriz imaginativa das pessoas.

Assim, há um jogo de cooperação entre a ficção e o jornalismo. Enquanto a ficção trata de alargar imaginariamente as possibilidades, o jornalismo vai, aos poucos, difundindo ideias já existentes no meio intelectual. Catástrofes climáticas só puderam alcançar atenção mundial depois de suficientemente temidas no campo da possibilidade por meio da ficção. Empreende-se o mesmo caminho no âmbito familiar e da sexualidade humana até o almejado controle dos comportamentos.

Reserve o livro A transformação social

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.
0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta