“Mas e as propostas?”

Sem dúvidas, estas eleições que ora vivemos têm sido um exorcismo público de certas falácias e ilusões sobre a função do político, especialmente do presidente da República, no Brasil. Além disso, elas estão expondo várias canalhices e hipocrisias daqueles seres de muito bom coração, defensores da verdadeira política e que dizem querer protegê-la de aventureiros serviçais do imperialismo americano, do neoliberalismo, do fascismo, da homofobia, do extremismo religioso etc. etc. etc., per sæcula sæculorum, amen.

A principal dessas hipocrisias vem na forma de uma pergunta — uma pergunta muito irritante: “Mas que propostas ele tem?” Ele, claro, refere-se ao candidato Jair Bolsonaro.

Como tivesse se tornado um ponto agudo discutir e argumentar sobre as propostas e as falta delas no que tange à campanha do capitão do Exército, também quero deixar a minha contribuição a respeito dessa pauta. Na verdade, neste texto, quero discutir dois pontos que circundam o tema “proposta”. São estes:

(1) Um candidato à presidência do Brasil deve ter propostas?

(2) Quais são as propostas do candidato Jair Bolsonaro?

 

* * *

 

Como falei em meu último texto, o Brasil vive um estágio pré-cultural e pré-civilizacional. Não sabemos, absolutamente, em que tipo de sociedade nós vivemos porque simplesmente não é possível viver em sociedade no Brasil. Mas, mesmo assim, ainda lidamos com o Brasil como se fôssemos uma sociedade civilizacional; afinal, temos instituições que nos fazem acreditar que estamos num contexto minimamente organizado. E, por causa dessas instituições, é melhor nada fazer contra elas se não quisermos correr o risco de desmontar o frágil equilíbrio social no qual vivemos.

Isso tudo, na verdade, é um grande teatro. As instituições são uma fina maquiagem feita para passar uma camada de normalidade no profundo caos animalesco no qual vivemos — que desponta de ora em instante em algum grande arroubo de violência ou de confusão institucional. E nesse caminho teatral que criamos para nós mesmos, exigimos que o presidente faça alguma coisa; qualquer coisa — especialmente se essa coisa tiver algum tipo de conseqüência social.

Essas coisas são o que se chama folclóricamente de “propostas”.

Mas se eu estou certo e o Brasil é uma aldeia semi-feudal com pretensões de Estado nacional, então a última coisa que um presidente brasileiro deve fazer é alguma coisa.[1] Ora, Christopher Dawson dizia que uma sociedade e uma cultura se cria através do resultado do trabalho do lavrador, do pescador, da rendeira, do artesão, subindo numa intrincada e articulada teia de impressões e abstrações, até que o tecido vivo cultural e social se articule organicamente. Qualquer interferência de um poder superior que se arrogue do direito de dizer o que deve ser feito mata esse processo.

Essa é a precisa situação do nosso Brasil de meu Deus — e por isso mesmo o presidente da República deve ter o mínimo de propostas possíveis. Todo brasileiro sabe, implicitamente, que todas as nossas mazelas, todos os nossos crimes, todo o nosso desespero econômico são frutos de gente que quis fazer alguma coisa e, num processo despudorado de “proteção à sociedade” tentou intervir no funcionamento do jeito como vivemos, como se a população do nosso país fosse uma criança que não conseguisse cuidar de si mesma. O problema é que não sabíamos que podíamos cuidar de nós mesmos; agora, contudo, — num conhecimento recém-adquirido simbolizado pelo alevantar de certos autores e de certas estratégias econômicas (como o amor recém-adquirido pelo laissez-faire, por exemplo), — sabemos que somos grandinhos.

Portanto, como, se queremos economia e indústria fortes, podemos querer que o presidente intervenha doutra forma que não seja tirar as interferências já existentes? como queremos que a polícia faça seu trabalho e a sociedade se sinta segura sem que o presidente intervenha na nossa própria proteção? como queremos uma cultura diversa e tradicional, que respeite os nossos desenvolvimentos históricos (ora interrompidos) se a presidência e os poderes superiores interpelam-nos dizendo o que devemos aprender e estudar?

Todos esses nossos quereres — e são muitos — só podem ser realizados se o presidente nada fizer. Mas não: a obsessão brasileira é ver o presidente mexer no social e dar corda ao nosso vezo de que um governo forte é o pináculo de uma sociedade altaneira.

Quem é, então, o nosso Megazord que reúne austeridade em todas as áreas citadas? Evidentemente, este é Jair Bolsonaro.

Não sei se Bolsonaro entendeu conscientemente ou compreende subliminarmente que esta eleição não se trata de propostas de políticas internas, mas sim de uma dolorosa reforma de espírito. Muito do que ele pretende fazer ainda não foi intelectualmente diferenciado; antes, move-se ou flutua como que numa névoa pré-verbal, um pouco acima da capacidade de ordenação mental, mas é implicitamente compreendido, de que a eleição “do tudo ou nada” se trata de deixar o país viver entre as dores dessa reforma dolorosa ou morrer na mansidão dos nossos delírios.

Por exemplo: creio que Bolsonaro não tenha nenhuma proposta, digamos, para o futuro da universidade brasileira. Mas caberia haver proposta para ela? Arrisco dizer que a universidade brasileira não cumpre nem mesmo as funções minimamente necessárias para ser uma universidade. Ora, uma universidade forma uma elite intelectual; no Brasil, contudo, ela é tratada como o local de formação técnica, donde o pobre infeliz que passou quatro ou cinco anos nela sai para o mercado profissional e fazer sua carreira. Contudo, ao olharmos os mais recentes dados de desemprego de graduados, vemos que nem isso ela cumpre — eram quatro milhões de jovens brasileiros formados desempregados em 2015. Então, nem para arranjar emprego a universidade serve.

Que ela é então? É um símbolo — o templo máximo da ascendência do “pobre” ao palácio dos ricos e bem-nascidos; é o lugar da propaganda das políticas sociais, onde se enxovalha um pobre coitado de origem humilde num curso de quinta e com pouca perspectiva enquanto lhe dizem que isso é uma grande vitória.

Portanto, o melhor, o mais amável, o mais caridoso, o mais honesto que se pode fazer pelo Brasil é impedir que o presidente faça qualquer coisa. Com efeito, seria melhor que, tendo em vista que o problema brasileiro é quase de ordem espiritual, já que somos magnos praticantes da acídia, era melhor que o presidente evitasse ao máximo que o poder público tivesse como chegar ao indivíduo. E não vejo ninguém, para isso, melhor que o capitão Jair Bolsonaro.

 

[1] A cultura do “fazer alguma coisa”, certamente, não é estimulada apenas no contexto político. Ela já é parte indelével da cultura educacional (porque educação, no Brasil, não é a aprendizagem de conhecimentos que servem para a interpretação e o conhecimento do mundo, mas sim para a sua transformação, num processo chamado “educar para a sociedade”). O ponto máximo desse “fazer-alguma-coisaísmo” educacional é aquele festival de truísmos chamado “redação do ENEM”, no qual o fazer-alguma-coisa é parte integral da nota que o ingressante ao Ensino Superior tirará.

7 thoughts on ““Mas e as propostas?”

  1. Oh capitão! Meu capitão! nossa viagem medonha terminou; O barco venceu todas as tormentas, o prêmio que perseguimos foi ganho; O porto está próximo, ouço os sinos, o povo todo exulta, Enquanto seguem com o olhar a quilha firme, o barco raivoso e audaz: Mas oh coração! coração! coração! Oh gotas sangrentas de vermelho, No tombadilho onde jaz meu capitão, Caído, frio, morto. Oh capitão! Meu capitão! erga-se e ouça os sinos; Levante-se – por você a bandeira dança – por você tocam os clarins; Por você buquês e fitas em grinaldas por você a multidão na praia; Por você eles clamam, a reverente multidão de faces ansiosas: Aqui capitão! pai querido! Este braço sob sua cabeça; É algum sonho que no tombadilho Você esteja caído, frio e morto Meu capitão não responde, seus lábios estão pálidos e silenciosos Meu pai não sente meu braço, ele não tem pulsação ou vontade; O barco está ancorado com segurança e inteiro, sua viagem finda, acabada; De uma horrível travessia o vitorioso barco retorna com o almejado prêmio: Exulta, oh praia, e toquem, oh sinos! Mas eu com passos desolados, Ando pelo tombadilho onde jaz meu capitão, caído, frio, morto. (tradução de Geir Campos)

  2. A reforma é tão profunda e necessária que rogo aos senhores que não tem voto definido que assistam com seus olhos ao ponto que chegou a metástase nacional.

    ATIVISMO JUDICIAL.

    Veja como temos pessoas da lei totalmente a favor do crime.
    Eu confesso que só ontem tive noção.

    Nada vale ser honesto.

    https://youtu.be/KbLY-o9FvCE

  3. Esse cara vai levar o país a ruína final, vê-se nitidamente, em que ficará o país! É uma criatura horrível, não tem nada a dizer, e nunca nada fez sim, porque já recebe o salário e benefícios do governo como político, e nunca vi nada que esse indivíduo tenha produzido ou criado em projetos, naturalmente!!

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