As pesquisas, a espiral do silêncio e a formação da nova oposição

As pesquisas, a espiral do silêncio e a formação da nova oposição

24/10/2018 4 Por Cristian Derosa

O Ibope de ontem (25) continuou sua aposta na espiral do silêncio como esperança para turbinar o PT, usando oscilações de margem de erro para simular queda de Bolsonaro e subida de Haddad. Tudo sempre muito bem justificado por analistas sobre fatos que só influem em suas análises e não nas intenções reais. Se, nas próximas sondagens, a intenção real não acompanhar o ajuste artificial, poderá haver um reajuste na última hora, dando vantagem maior para Bolsonaro, conforme apontou o Filipe Martins no final do primeiro turno. Se estivermos certos, as sondagens desta semana deverá seguir essa tendência, inclusive a do Datafolha. Mas o que isso significa

Obviamente, o objetivo não é dar vitória a Haddad, pois creio que isso soaria tão artificial que poria em risco toda a credibilidade já debilitada da mídia e institutos. A intenção é dar força de equilíbrio à nova oposição liderada pelo PT, que se unirá com toda a esquerda contra o novo governo. Diretores de TV, de institutos e grandes arquitetos da mídia provavelmente vêem nisso um “ajuste” necessário para a manutenção do que chamariam de democracia ou um “ambiente político saudável”. Mas é evidente que este tipo de teatro beneficia o novo arranjo da oposição, atraindo uma nova geração para a oportunidade de serem a resistência antigolpista, antifascista, reforçando toda a mitologia da esquerda para os próximos anos.

Já desde a prisão de Lula o discurso deslegitimador de qualquer novo governo que não seja do PT está em crescimento nos setores da esquerda mais extrema, que se une às suas vertentes internacionais, o que inclui grande parte do globalismo ocidental, como ficou claro o aceno de Fernando Henrique Cardoso. Um governo das sombras está sendo formado para cavalgar sobre o dorso da nova coligação opositora que se delineia. É um claro desejo do PT, portanto, liderar essa nova oposição por meio da imagem de Lula, o presidente legítimo que deverá governar como mito, ideia ou palavra de ordem à luta revolucionária. Demais partidos devem se unir a essa ideia, que enfrenta cada vez mais resistência na população. É bom lembrar que, em 2002, quando da “onda Lula”, nenhum canal de TV ou instituto de pesquisa se preocupou em dar aparência de um país dividido. Afinal, o outro lado não existia politicamente. Quando uma divisão começou a aparecer, deram a ela a cara de uma dicotomia “pobres x ricos” ou nordeste x sudeste.

A união do país em torno de Bolsonaro representa um movimento autêntico, que não só não contou com ajuda de nenhum canal de mídia, como cresceu mesmo com toda a resistência do stablishment, contando apenas com a internet. Agora esses arquitetos da democracia querem nos fazer crer que há uma divisão, que formará uma oposição forte com base no nome de Lula para defender a democracia contra todas as ameaças que Bolsonaro supostamente representa.

O avanço dessa ideia depende em grande parte do êxito do PT em voltar-se à base sem perder os vínculos com a elite que conquistou. Um aliado de peso neste início de governo parece ser a Folha de São Paulo, do grupo UOL, com seus organismos de fact-checking. Mas muitos outros virão para o time, que tenta ser mais atraente por meio dessas manobras dos institutos de pesquisa. Um país dividido em equilibradas forças de direita e de esquerda interessa à esquerda, que pretenderá justificar toda a sua violência e vitimismos simultâneos, na sua forma mais característica.

O desafio de Bolsonaro neste novo governo será quebrar literalmente as pernas destes movimentos. Mas ele pouco ou nada poderá fazer para conter o avanço esquerdista nas massas, o que podemos chamar de retorno às massas de uma esquerda que estava há décadas no poder. Esse avanço só pode ser contido por um novo movimento de massas que resista e persista contra esse avanço. A base sempre foi um lugar de disputa e condição mesma para o avanço do poder e a condução para um governo. Essa nova oposição será mais aliada às bases, nem que seja na aparência por meio do apelo das minorias etc. Podemos dizer que, no mínimo, uma “estética de base” surgirá nessa esquerda que se tornará cada vez mais “antifa” e menos elitista, ao mesmo tempo que receberá todo o apoio internacional.
A “defesa da democracia”, da mídia é, para o PT e a nova oposição, a defesa do socialismo bolivariano. Os analistas que colocarem essa oposição na função da defesa democrática estão, voluntária ou involuntariamente trabalhando para o Partido, o grande movimento revolucionário que se formará dessa suposta divisão insinuada nas manobras do Ibope e Datafolha.

Um país dividido artificialmente é, como eu disse, o ambiente perfeito para uma oposição justificar-se diante de todo tipo de ação revolucionária, seja pela via democrática dos seus aliados do centrão e do PSDB, seja pela via violenta dos movimentos de rua que crescerão em assustadora e surpreendente virulência. Todo o discurso vitimista da esquerda ganhará, no governo de Bolsonaro, a justificativa dos seus mitos e a verossimilhança para a conquista de mais jovens nas bases. Cabe à direita fazer um esforço equivalente.