A realidade fragmentada da informação

A realidade fragmentada da informação

06/03/2018 0 Por Cristian Derosa

No vídeo da primeira aula do curso Como ler as notícias, falamos sobre as bases da distinção essencial entre notícia e opinião, objetividade e subjetividade. O debate histórico sobre essa distinção, acabou gerando uma separação radical, iniciando movimentos intelectuais representando, em última análise, o corte cartesiano que fundamentou a ciência moderna.

Apesar da dualidade notícia-opinião ser, em geral, associada à dualidade objetividade-subjetividade, a coisa pode ser bem diferente em outro sentido. É possível inverter essa relação: uma notícia (relato de um fato real), por não ser o fato real, é ela também um produto subjetivo dependente da mente humana, enquanto que uma opinião, mesmo oriunda do interior de um indivíduo, pode encerrar algo muito mais objetivo e concreto do que um simples relato indireto da realidade. Afinal, se a impressão interior vem do coração do indivíduo, há muito mais proximidade entre ela e a opinião expressa do que entre o fato e o relato, no caso da notícia. Ambas as relações são verdadeiras e tudo depende do sentido em que estamos falando.

O lado fake das notícias

A notícia é um relato construído com base em um fato ocorrido na realidade. O relato é como uma realidade secundária, gerada com base na primária, que é o real. Sabemos que um relato só pode ser redigido após decorrido o fato, valendo-se da memória ou da lembrança da informação de uma fonte. Esta percepção nos indica uma certa distância temporal entre fato e relato, o que por si pode prejudicar a identificação ou correspondência ideal entre os dois. São os fatores naturais que podem produzir erros.

Dizemos que essa correspondência é apenas ideal, porque a perfeita correspondência é praticamente impossível. O máximo que podemos esperar é uma correspondência válida ou legítima, cuja veracidade depende de uma credibilidade do canal que comunica juntamente com o da fonte consultada. A veracidade de uma notícia é, portanto, socialmente relativa, já que depende muito mais de fatores sociais de construção e seleção dos seus elementos, como modos de escrever, estilo, ordem das informações, fontes consultadas etc.

Mas e se tratar-se de um vídeo? O ângulo do vídeo, o momento em que o cinegrafista aperta o “rec” e o momento em que para de gravar, a edição posterior, o corte e, lá no início, a pergunta: por que filmar isso? Por que isso é importante? Para quem? Enfim, existem tantas perguntas sobre uma notícia ou informação veiculada que jamais pararíamos de tentar responder. Parece-nos óbvio que uma notícia, por mais que busque objetividade e imparcialidade, não conseguiria jamais dar conta do próprio fato ou competir com ele em veracidade.

Mas é justamente essa limitação na forma de perceber a realidade de maneira social ou pública que deu origem ao método científico. É claro que as notícias como profissão institucionalizada veio muito depois da ciência moderna, mas o seu método de apurar fatos deve muito, em nossos dias, ao método científico de confrontação de hipóteses. No jornalismo, dizemos imparcialidade quando o jornal apresenta uma notícia e o seu “contraponto”. Mas qual dos dois lados será considerado o “contraponto” e qual será a notícia principal? Esta pergunta só pode ser respondida pelo indivíduo que escreve ou edita, o editor, o dono do jornal.

Redes sociais e as pautas da nossa vida

Na era das redes sociais todos nós somos redatores e editores. Isso aparentemente nos dá grande poder de relatar e publicizar relatos, sejam verídicos ou inventados. Divulgamos notícias nas redes sociais (facebook, twitter e whatsapp principalmente) no intuito claro de determinar as prioridades das pessoas. Cada post é como que um recado a todos dizendo: isto, e não outra coisa, é que importa. No entanto, por maior que seja o poder que você imagina ter sobre a prioridade moral, social, política, dos outros, é relativo. Basta que você se pergunte de onde veio, afinal, a prioridade que você quer transmitir. De quem você recebeu?

A história das nossas idéias, como ensina Olavo de Carvalho, pode representar a nossa libertação. Mas se ela é trabalhosa demais (e de fato é), podemos traçar uma história das nossas prioridades neste momento, nos últimos dez minutos. Depois, passamos para as prioridades diárias e assim por diante. Veremos que elas vêm de muitos lugares e o último lugar em que podemos encontrá-las é na aspiração de nossas vidas, no objetivo vital que devia nos nortear.