Conheça algumas pesquisas que são exemplos da “balbúrdia” acadêmica

Contextualizando

Nas últimas semanas formou-se um grande burburinho por conta de declarações do ministro Abraham Weintruab. Os temas foram a “balbúrdia” e “os cortes de 30% no orçamento” destinado às instituições do ensino superior.

Com relação a este último ponto, o ministro tem se esforçado a esclarecer a questão e disse, em dois vídeos recentes, que não o corte, mas, segundo ele, o contingenciamento de recursos será na casa dos 3,5% e só até setembro, visando uma readequação das contas da pasta.

Entretanto, é de se esperar que a atual gestão enxugue, mesmo, a torneira de verbas para o ensino superior. Isso porque a linha que o MEC bolsonarista prometeu adotar é a de uma inversão a pirâmide de investimentos à educação pública. Ou seja: privilegiar a educação básica em detrimento da superior.

E os números justificam a medida. Segundo o estudo “Um Olhar sobre a Educação“, da OCDE, o Brasil investe em educação infantil como um país pobre (R$ 11,7 mil por aluno/ano) e investe em ensino superior como país de primeiro mundo (R$ 36 mil por aluno/ano).[1]

O resultado dessa inversão nas prioridades é, por exemplo, o fato de que 50% dos alunos que concluem o ensino superior não são proficientes no idioma materno – não dominam o português, segundo o Inaf. Quer dizer, não estamos fazendo nem mesmo o dever de casa mais essencial.[2]

A notícia dos cortes e mesmo as declarações com relação a mudança de enfoque do Ministério suscitou reações nervosas no meio acadêmico e toda uma campanha contra o “desmonte das universidades” ganhou força na internet.

O argumento dos que se opuseram é que já há muitas pesquisas em curso – por exemplo, no desenvolvimento de medicamentos –, dependentes dessas verbas governamentais. Logo, segundo eles, se os “cortes” forem realmente levado à cabo, causariam sérios prejuízos à produção científica do país.

Ademais, esses grupos defendem que as universidades são responsáveis por manter hospitais, museus, projetos de assistência às comunidades locais etc., e que tudo isso entraria, indiscriminadamente, no balaio.

De fato as ressalvas fazem sentido e, inclusive, a explicação de Weintraub foi dada no sentido de assegurar que o contingenciamento não afetará esses setores vitais.

 

Exemplos da “balbúrdia” acadêmia

No entanto, todo esse cenário suscitou, também, discussões acerca do que se produz nas chamadas faculdades de humanidades do país. É evidente que dentre a massa de pesquisas que se faz nos departamentos de Ciências Sociais em todas as instituições federais há aquelas que são relevante para o debate público e contribuem para o patrimônio cultural brasileiro.

Não obstante, abundam os casos de trabalhos, custeados com recursos públicos, cujos temas soam, ao cidadão comum, seu financiador, como piadas de mau-gosto.

Por isso, separamos algumas dessas pesquisas que, repito, se não são representativas da totalidade do que se tem produzido nessa área, ao menos – e não há como negar – diz muito sobre o espírito geral das ciências humanas no Brasil.

 

  • A zuadinha é tá, tá, tá, tá: Representação sobre a sexualidade e o corpo feminino negro; UFRB – Programa de pós-graduação em Ciências Sociais; mestrado. Autor: Wellington Pereira.

Trecho do resumo: “O objetivo desta pesquisa A zuadinha é tá, tá, tá, tá: Representação sobre a sexualidade e o corpo feminino negro. É compreender e interpretar a linguagem enquanto produtora de identidade sexual. Visando interpretar as representações sobre a linguagem cotidiana e das letras de música da perspectiva dos jovens estudantes Universitárias bem como compreender como as identidades sexuais e de gênero são construídas, como que a partir do status da cor se constitui diferenças internas de gênero”. 

Ver aqui.

 

  •  A Estética Funk Carioca: criação e conectividade em Mr. Catra; UFRJ – Programa de pós-graduação em Sociologia e Antropologia; mestrado. Autor: Mylene Mizrahi.

Trecho do resumo: “Esta tese consiste em uma etnografia sobre o Funk construída a partir do nexo entre estética, criação e conectividade, tendo como contexto a rede de relações profissionais, familiares e de amizade do cantor Mr Catra. Começamos acompanhando o artista em suas turnês pela cidade do Rio de Janeiro, observando o modo como os deslocamentos com sua trupe em um carro coletivo refazem o todo da cidade, colocando em contato suas partes sociais e geográficas”.

Ver aqui.

 

  • Experimenta-te a ti mesmo: Felipe Neto em performance no YouTube; UFMG – Programa de pós-graduação em Comunicação Social; mestrado. Autor: Tiago Barcelos Pereira Salgado.

Trecho do resumo: “Procuramos compreender, ao longo desta dissertação, de que maneira Felipe Neto em performance no YouTube estabelece uma mútua responsabilidade com as audiências que se formam em seu entorno. Buscamos evidenciar as dimensões espetacular e entretenida que a prática performática adquire nessa ambiência midiática ao atrelar-se às lógicas midiática e mercadológica”.

Ver aqui. 

 

  • Fazer Banheirão: as dinâmicas das interações homoeróticas nos sanitários públicos da Estação da Lapa e adjacências. Programa de pós-graduação em Antropologia; mestrado. Autor: Tedson da Silva Souza.

Trecho do resumo: “As pesquisas de sexualidade in loco são bastante insólitas no campo da Antropologia e essa situação se agrava quando as variáveis homossexualidade, raça e gênero são tomadas para compreender as interações sexuais entre homens nos espaços públicos das grandes cidades. A fim de compreender tal dinâmica, procedo, através de uma abordagem autoetnográfica, uma investigação das práticas de “pegação” em banheiros públicos masculinos da Estação da Lapa – maior terminal de ônibus urbano de Salvador – e adjacências”.

Ver aqui.

 

Claro que temos aqui casos extremos – apesar de não serem tão raros. Porém, reitero, ainda que não sejam a regra, são reveladores da tendência desses cursos.

Por conseguinte, dentro do atual contexto do país – profunda crise econômica, pirâmide de investimentos na educação invertida, resultados que não condizem com a alocação de recursos na educação, em todos os níveis, e assim por diante – parece mais do que justificável que a verba que seria destinada a esse tipo de pesquisa (incluindo as versões menos gritantes das mesmas temáticas) seja reduzida ou até suprimida.

 


 

[1] https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/ao-priorizar-ensino-superior-brasil-abandona-educacao-infantil-epxmrf7oxlalamf5im2fvzf26/

[2] http://acaoeducativa.org.br/wp-content/uploads/2018/08/Inaf2018_Relat%C3%B3rio-Resultados-Preliminares_v08Ago2018.pdf


 
 

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