A verdadeira educação está fora da universidade brasileira

A verdadeira educação está fora da universidade brasileira

18/10/2018 0 Por Lucas Almeida

No livro O Jardim das Aflições, do filósofo Olavo de Carvalho, encontrei uma citação – no prefácio do livro – exímia do poeta Bruno Tolentino: “No momento esse lapso de um tempo mental que não acaba de acabar-se é ainda, e outra vez acabo de constatá-lo até à exaustão, de estirpe marxista, de marca universitária e de cunho dogmático-materialista, os três inseparáveis elementos da doutíssima Trindade que se propõe a recriar o mundo”.

O cenário retratado pelo poeta corresponde ao mundo das Ciências Humanas no Brasil. O único debate válido está centrado na hegemonia intelectual progressista. No entanto, o que vem a ser um debate? É quando, defendo a “Tese A”, e outro defende a “Tese B”; as teses são contrárias e cada indivíduo defende seu ponto de vista. Algo simples. Deveria ser natural, porém não é.

Sabemos que é do senso comum que a universidade brasileira é um espaço de discussões, de diálogo entre diversas correntes de pensamento, etc. No entanto, enxergo um “culto”, uma “veneração”, um “dogmatismo” das ideias progressistas – seja da literatura, dos universitários ou dos professores. Acerca dessas questões, exponho uma crítica do filósofo Luiz Felipe Pondé, ironizando a “intelligentsia universitária brasileira”: […] não acredite quando ouvir muitos desses intelectuais ou professores (não são todos, mas, sim, são a maioria) dizerem que são a favor do “diálogo” ou do “debate”. É uma piada. Não existe diálogo ou debate na universidade […]. É mais fácil você achar diálogo e debate numa igreja evangélica. Juro por Deus!

No ensino médio tive um professor de história – da rede privada de ensino – que ia (quase sempre) com uma camisa vermelha para a aula, além disso, mencionava – em quase todas as aulas – a violência policial contra os militantes de um determinado “Movimento Social” (você sabe quem é!), elogiava o ex-presidente – presidiário – do Partido dos Trabalhadores dentre outras baboseiras. Perguntas: Isso é educar? Ou, utilizar-se do cargo de professor para “doutrinar” ou “propagandear” – político-partidário – os alunos em sala de aula? Conclusão: não aprendi nada em história; dois anos jogados no lixo. O professor da Universidade Federal de Pernambuco, Dr. Ferdinand Röhr, coloca a educação no seu “altar” e – na minha opinião – mostra aos ideólogos da esquerda, o que é educar: “[…] não podemos pensar o educador sendo em primeiro lugar um funcionário público, um militante partidário ou sindical, ou um adepto de qualquer ideologia ou religião. Isso não quer dizer que tais posicionamentos inviabilizam assumir a função de educador. O que é necessário é colocar a intenção de educar acima dos interesses não propriamente educativos do educador”.

Este excerto vem em boa hora, pois a educação brasileira tornou-se especialista na formação de analfabetos funcionais e idiotas politicamente corretos. Educação multiculturalista, educação para a diversidade, educação crítica etc. Essa é a nossa educação. Do ensino fundamental ao ensino universitário não há mudanças. Por que os “universitários” não se preocupam com as dificuldades dos nossos jovens em ler, escrever e fazer contas de matemática? Por que os “intelectuais” não se atentam para melhorar as colocações ignóbeis da educação brasileira no teste internacional PISA? Por que os “estudiosos” não apresentam sugestões para melhorar quanti-qualitativamente a leitura em nosso país? – O brasileiro lê em média 5 livros ao ano. As indagações são inúmeras, mas as nossas universidades preocupam-se – apenas – em fazer política, sim, política de esquerda.

De acordo com o filósofo Roger Scruton, apesar de estarmos numa sociedade capitalista à alternativa socialista para “melhorar o mundo” nunca me conquistou. Mas, por quê? Porque todas as vezes que os ideólogos ou intelectuais (filósofos, sociólogos, historiadores e outros) “prometeram” um paraíso na terra – utilizando-se da política como ferramenta de transformação social –, vimos as consequências catastróficas desses atos: genocídio, tristeza, dor, aflição, fobias, patologias, destruição dos laços sociais, insegurança generalizada, perda de valores etc. Apesar disso, a universidade brasileira continua abraçando a causa socialista, pois perdeu a completa distinção entre teoria e realidade – não perceberam que “a inumanidade dos homens com os homens deixa de luto incontáveis milhares”.

Encerro o artigo afirmando que a possibilidade de debate na universidade – área de humanas – é inviável, pois a literatura liberal e/ou conservadora é criticada e contestada. Nunca elogiada. Qualquer forma de diálogo ou de contraditório é reservado para os espaços não formais (ou seja, fora das paredes eclesiásticas da universidade brasileira); prevalecendo, assim, a máxima de Olavo de Carvalho ao advogar que a verdadeira educação está fora do universo intelectual brasileiro. Isso faz sentido porque o ambiente acadêmico no final das contas – existe – serve para cumprir a burocracia estatal/privada carimbando várias teses e dissertações todo ano.

Criticar, criar, inventar e pensar está próximo do intelectual outsider, do que o intelectual da nossa universidade. Harold Bloom descreve em poucas palavras a “salvação” do pensamento intelectual brasileiro: “[…] digo a todos os meus melhores alunos de graduação para não cursarem pós-graduação nessa área. Façam qualquer outra coisa, garantam a sobrevivência do jeito que for, mas não como professores universitários. Sintam-se livres para estudar literatura por conta própria, para ler e escrever sozinhos; porque a próxima geração de bons leitores e críticos terá de vir de fora da universidade”.


Notas

Bloom, H. Harold Bloom contra-ataca, Folha de São Paulo, 6 de agosto de 1995. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/8/06/mais!/4.html

Carvalho, O. de C.; Dugin, A. Os EUA e a Nova Ordem Mundial: um debate entre Olavo de Carvalho e Alexandre Dugin. Campinas, SP: Vide Editorial, 2012.

Carvalho, O de C. O Jardim das Aflições – de Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o materialismo e a religião civil. Campinas, SP: Vide Editorial, 2015.

Lilla, M. A mente imprudente – Os intelectuais na atividade política. Rio de Janeiro: Record, 2017.

Pondé, L. F. Quem diz que não existe pregação socialista nas escolas mente ou é desinformado. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2016/09/1812343-quem-diz-que-nao-existe-pregacao-socialista-nas-escolas-mente-ou-e-desinformado.shtml

RETRATOS DA LEITURA NO BRASIL – 4º Edição. Instituto Pró-Livro, São Paulo, mar. 2016. Disponível em: <http://prolivro.org.br/home/images/2016/Pesquisa_Retratos_da_Leitura_no_Brasil_-_2015.pdf>. Acesso em: 18 out. 2018.

Rees, M. Um túmulo em Gaza. Rio de Janeiro: Record, 2009.

Röhr, F. Reflexões em torno de um possível objeto epistêmico próprio da educação. Pro-posições, v. 18, n. 1, p. 51-70, jan./abr. 2007.


Foto de capa: Foto: Giovanna Bembom/Metrópoles