Reaproximação Brasil e Israel: palavra do Vice-Cônsul Orni Ringer no Ibmec

Por Eric Villac

 

No dia 4 de abril, logo após a viagem diplomática do presidente Jair Bolsonaro a Israel, o Vice-Cônsul Geral daquele país em São Paulo, Orni Ringer, representante direto do premiê Benjamin Netanyahu no Brasil, esteve no IBMEC/SP para falar sobre o tema: “Empreendedorismo e Inovação em Israel: onde a cooperação Brasil-Israel tem maior potencial de crescimento”?

 

A autoridade israelense veio ao Ibmec na mesma data em que Bolsonaro retornou de sua viagem diplomática ao Estado israelense, tendo começado sua visita naquele país no domingo, 31 de março. Observa-se que este momento tem sido histórico, com a abertura para uma nova era de relações entre os dois países, tal qual foi comunicado pelo Ministry of Foreign Affairs de Israel. Em três meses, desde que o Presidente da República brasileiro foi eleito, as relações entre os dois Estados melhoraram:  o premiê Benjamin Netanyahu foi à posse de Jair Bolsonaro e, em segundo momento, autorizou o envio da ajuda humanitária, com 133 integrantes, devido à catástrofe ocorrida em Brumadinho. Não à toa, a delegação brasileira enviada para a recente visita a Israel foi a mais numerosa entre todas as missões diplomáticas realizadas a este país. A aproximação das relações entre brasileiros e israelenses é constantemente referenciada com a ação histórica de Oswaldo Aranha, que presidiu a II Assembleia Geral das Nações Unidas (1947), na ocasião em que houve a criação pela ONU do Estado de Israel. Na ocasião, coube ao representante brasileiro o voto que consolidou a decisão favorável à fundação do Estado.

 

Nesta recente missão a Israel, as conquistas do Brasil foram configuradas em seis atos de cooperação:

 

  1. Assuntos relativos à defesa – Acordo assinado pelo Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e seu homologo israelense, Yisrael Katz, o qual fornece o arcabouço legal para iniciativas militares conjuntas e melhores laços neste campo;

 

  1. Serviços Aéreos – Pelo acordo, garante-se a ampla liberdade operacional às companhias aéreas dos dois países;

 

  1. Segurança Pública, prevenção e luta contra o crime organizado – Cooperação bilateral para o combate a toda forma de crime organizado e um memorando de entendimento sobre segurança cibernética;

 

  1. Plano de cooperação em saúde e medicina – Acordo assinado entre os ministérios da saúde para os anos de 2019-2022;

 

  1. Ciência e Tecnologia – Neste acordo está resumido o esforço de aproximação do ambiente de startups brasileiras com o israelense. Foram lançadas as chamadas da EMBRAPII e Finep. Segue abaixo as declarações das chamadas de ambas instituições:a. “Para ampliar a competitividade da indústria nacional e promover a cooperação tecnológica e econômica entre Brasil e Israel, a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII) e a Autoridade de Inovação de Israel vão destinar 10 milhões de dólares a projetos inovadores realizados em conjunto por empresas com sede nos dois países. O edital de convocação foi lançado no dia 28 de novembro[1]; “Israel é um país referência no que se refere à capacidade de impulsionar a economia por meio da inovação tecnológica. Essa cooperação permitirá às empresas brasileiras acesso às novas tecnologias e o contato com um dos principais celeiros de empresas inovadoras do mundo, além de ser um incentivo para ingressar no mercado exterior”, conforme destaca o diretor de Planejamento e Gestão da EMBRAPII, José Luís Gordon.b.“A Finep vai destinar até R$ 3,7 milhões em recursos de Subvenção Econômica, ou seja, não reembolsáveis, para as empresas brasileiras aprovadas, enquanto a IIA investirá até US$ 1 milhão pelo lado israelense, nas selecionadas daquele país[2].

 

  1. Memorando de entendimento em matéria de cooperação em segurança cibernética.

 

 …

Apresentados os acordos, cabe agora apresentar aspectos da relação comercial entre Brasil e Israel para melhor ilustrar a realidade das relações comerciais entre esses países e, por fim, vislumbrar a dimensão da viagem, bem como dos acordos firmados.

 

As relações comerciais entre Brasil e Israel, sejam exportações e importações, correspondem a menos de 3 pontos percentuais da composição respectiva de cada país. No último ano (2018), as exportações do Brasil tiveram valor de R$ 321,02 em milhões e as importações R$ 1.168,86 em milhões, tendo saldo deficitário na balança comercial de R$ 847,84 em milhões[3]. Dentro desses valores, os três principais produtos que compõem as exportações do Brasil são: carne Bovina (23%), soja (18%) e suco de laranja (6,1%). Em relação às importações, por sua vez, os três principais produtos são: cloreto de potássio (29%), inseticidas, formicidas, herbicidas e produtos semelhantes (24%) e os superfosfatos, adubos ou fertilizantes (9,2%).

 

Nas exportações do último período 2016/2018 a carne bovina teve crescimento em venda de 10,59%, a soja um aumento na casa dos 45% e o suco de laranja cresceu em 11,08%. No caso das importações, o cloreto de potássio apresentou crescimento de 137%, os inseticidas, formicidas, herbicidas e produtos semelhantes tiveram aumento de 65,36% e Superfosfatos aumentaram de 71,9%. Esses dados estão apresentados na Figura 1 e na Figura 2. Na Figura 3, por sua vez, estão apresentados os volumes das relações comerciais ao longo dos últimos 10 anos, sem discriminação de produtos e a valores Free On Board [4] (sem despesas de transporte e seguros pagos pelo exportador, que retira a obrigação do exportador em assegurar a chegada da mercadoria no porto de destino, o que a ele deve fazer, e, somente, responsabilizar-se pelo embarque no navio ), com os dados a cada ano.

 

Figura 1: valor das exportações do Brasil para Israel no ano de 2018. Com gradação de cor para variação no valor de um ano.

 

 

Figura 2: valor das exportações do Brasil para Israel no ano de 2018. Com gradação de cor para variação no valor de um ano.

 

 

 

Figura 3: Volume em U$$ das trocas comerciais.

 

Diante das informações apresentadas, cabe ainda refletir sobre a identificação do maior potencial na cooperação Brasil e Israel.

Bolsonaro declarou no evento da Missão Empresarial Israel-Brasil: “Estamos à disposição dos senhores empreendedores que querem investir no Brasil”. Além disso, ainda afirmou: “Se juntarmos o que nós temos lá de recursos naturais (Brasil), com tecnologia do lado de cá (Israel) que é reconhecida no mundo todo, nós podemos fazer muita coisa de boa para nossos povos”. Avalia-se que esta seja uma declaração palpável e logicamente apresentada diante do fato de que  60% do território israelense é um deserto, impondo maior escassez de recursos naturais, algo que conseguiu ser superado com uso adequado de tecnologia.

 

Na ocasião do evento realizado no IBMEC/SP, o vice-cônsul Orni Ringer declarou alguns fatos interessantes sobre Israel. Dentre eles, que o país é o segundo no mundo que mais investe em Pesquisa e Desenvolvimento em relação ao PIB, sendo este número 4,2% do total mundial, ficando atrás apenas da Coreia do Sul; outra informação é de que mais da metade das maiores companhias de alta tecnologia no mundo tem seus centros de Pesquisa e Desenvolvimento em Israel, uma vez que são 96 companhias listadas na bolsa NASDAQ.

Diante do quadro geral apresentado e dos fatos envolvidos na missão brasileira em Israel, o grande potencial dessas novas relações para a economia do Brasil pode ser visto na possível e provável cessão de tecnologia mediante acordos para serem utilizados na solução de problemas brasileiros, como a falta de água na região nordeste do Brasil. Outro ponto a ser citado é a melhor comunicação e troca de experiências entre as academias, os setores privados e setores públicos dos dois países.

Ao termino do evento foi entregue ao vice-cônsul geral Orni Ringer uma carta de agradecimento pelo envio da missão humanitária a Brumadinho em Minas Gerais.

Certamente, pode-se imaginar que, se Oswaldo Aranha recebesse tal notícia, ficaria contente em saber que está maduro e belo o fruto da árvore que ajudou a plantar. E se perguntaria por que por tanto tempo deixaram de regá-la. Assim, declaramos vivos os atos de Oswaldo Aranha na Assembleia da ONU, que contribuíram de forma positiva para que hoje possamos iniciar uma nova etapa nesta relação.

 


[1] Disponível em:< https://embrapii.org.br/noticias/embrapii-firma-acordo-de-us-10-milhoes-com-israel-para-projetos-de-inovacao-industrial/>. Acessado em: 3 de abril de 2019

 

[2]  Disponível em:< http://www.finep.gov.br/noticias/todas-noticias/5893-chamada-publica-brasil-israel-recebe-propostas-ate-18-de-abril>. Acessado em: 3 de abril de 2019

 

[3] Disponível em:< http://www.mdic.gov.br/comercio-exterior/estatisticas-de-comercio-exterior/comex-vis/frame-pais?pais=isr>. Acessado em: 4 de abril de 2019

 

[4] O que é? FOB. Disponível em:<http://desafios.ipea.gov.br/index.php?option=com_content&id=2115:catid=28>. Acessado em: 5 de abril de 2019.


 
 

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