Um ser humano na presidência

Um ser humano na presidência

30/10/2018 2 Por Victor Bruno

Eleição de Bolsonaro é a chance de termos um ser humano na presidência, e não um político

 

Uma das principais dificuldades da vida na sociedade moderna é reconhecer o ser humano como tal. Nas sociedades tradicionais, aquelas cujo centro ontológico é um mito (no sentido de narrativa) revelado, — aquelas, enfim, cuja vida social gira ao redor de um princípio divino, — a condição humana é usualmente reconhecida como de um esforço ou procura de volta à sua condição de filho de Deus. Na sociedade cristã, aquela cujo mito é legitimamente revelado por Deus, dada a encarnação de Seu Filho como homem, essa condição é ainda mais aguda: a procura por Deus implica a santificação do homem. Uma vez renascido no seio de Deus, seja por batismo ou santificação, o passado de pecados fica assim mesmo, no passado; só o presente, só aquilo que é Deus e Igreja contam.

Isso é essencial para a vida numa sociedade cristã. Na Idade Média, — a Idade Média da música polifônica, das catedrais coloridas, dos santos e da Escolástica, o grande momento do Ocidente cristão, — na Idade Média era assim. Se, digamos, um padre era flagrado em pecado, namorando com alguma menina do vilarejo, a comunidade se reunia e orava em conjunto pela sua conversão. Quando ele deixava o pecado, festejos eram realizados, todos ficavam em polvorosa! o padre se santificou! O pecado, qual lixo, era esquecido. Estamos falando, portanto, de tratar um ser humano como um ser humano de verdade, compreendendo e amando-o, perdoando seus erros e tendo memória curta com os seus pecados. E não é Deus assim? E num tempo santificado as pessoas não agem mais proximamente como Deus age?

Passemos ao presente

Ora, o Brasil é um país cristão, mas faz tudo precisamente ao contrário. Aqui, não há a cultura do perdão, e nem há a caridade; em geral, a postura do brasileiro para com o próximo é profundamente paranóica, rancorosa e persecutória. Todos nós, provavelmente, já testemunhamos, fomos vítimas, ou perpetramos uma ação assim. É uma verdadeira desgraça — tanto para o social como para o espírito.

Em política, isso é ainda pior. Porém, talvez nesse último caso, a causa seja distinta da nossa paranóia e do trato ruim que temos para o próximo. Desde a redemocratização — e talvez até antes — o conceito e a prática da política representativa estimulam um olhar desumanizante para o agente político. O político, o legislador, o executivo político não é um homem que pratica o ato político como em prol do aperfeiçoamento e da boa vivência social (que é, para Aristóteles e Platão, a função do político; a política, para o grego, é quase uma sociologia); não, ele é um representante de um ideário, ou mesmo de uma ideologia; todas as suas ações, nesse pensamento, traduzem a sua ideologia, o seu “lugar social” . . . Enfim, de qualquer coisa que não seja propriamente humana, muito menos intelectual; tem, antes, origem na “dinâmica social” e, portanto, material. Nos meios intelectuais, dentro da universidade, técnicas como a Análise de Discurso, que é praticamente a dona dos departamentos de Comunicação e Letras da academia no Brasil, interditam a objetividade da fala humana e atribuem qualquer ação discursiva ao “fundo ideológico” e “social” do ouvinte.

Portanto, ampla parte dos nossos agentes intelectuais, dos “formadores de opinião”, acreditam e fazem crer que todos os agentes políticos, necessariamente, já têm uma pauta pronta, sempre pontificam um discurso tático, pétreo, extraído duma tese ou dum projeto de poder que jamais muda, e do qual ele é senão um despachante. E é precisamente assim que eles enxergam o presidente-eleito Jair Messias Bolsonaro.

A eleição de Bolsonaro é, portanto, uma esperança de uma normalização do próprio ser humano e uma aproximação da política brasileira ao modo da política tradicional, tal como definida pelos filósofos gregos. Como o Prof. Eduardo Levy apontou logo após o primeiro discurso de Bolsonaro como presidente-eleito, de uma vez, na primeira bordoada, reaproximou o país, pelo menos vocalmente, da tradição ocidental da busca e da vivência pela verdade — afinal, “conhecereis a verdade, e a verdade vos livrará” (Jo 8:32). E, a partir desse evento, podemos retroativamente perceber que não faz o menor sentido julgá-lo porque no passado ele defendeu um governo estatizante, a tortura e a violência irrestrita como forma válida de combate aos males da nação. Fosse Bolsonaro um político tradicional e igual aos outros, poderíamos, sim, dizer que essa é a ideologia que ele defende. Mas o próprio presidente-eleito disse que a verdade é o que ele quer; e a verdade, apesar de una, pode ser fugidia; vivemos, afinal, na metaxy, como dizem Platão e Voegelin, entre a busca e o impulso, na confusão entre a realidade objetiva e as Formas. E pior que isso, vivemos no Brasil, onde a névoa da ignorância é tão forte que as coisas raramente parecem ser o que elas realmente são. Quem pode culpar Bolsonaro por ter sido militarista no passado? Grande parte das pessoas comuns, dos homens brasileiros (que é o que ele realmente representa), imaginavam até pouco tempo que tudo tinha que ser entregue para o Exército, porque “no tempo dos militares não tinha isso, não tinha aquilo e eles entregavam as obras bem rapidinho”. Estudando, Bolsonaro — e os filhos — mudaram de idéia.

Não me recordo, no passado republicano do Brasil, um presidente que tenha mudado tão abertamente de idéia porque reconhecesse que estava errado. Na nossa política, salpicada de maus fados, uma mudança de idéia representa uma mudança de estratégia. Ora, como o padre do exemplo, Bolsonaro mudou de idéia, agiu como o ser humano, e prosseguiu sua busca desapaixonada pelo correto e pelo melhor. Resta a nós, como bons cristãos (e a bandeira cristã nunca esteve tão em voga neste país desde não se sabe quando), olharmos para isso com bons olhos, e não à brasileira, com paranóia e com o pensamento de que esse homem quer nos enganar. Pois talvez finalmente tenhamos um ser humano na presidência (e não um político brasileiro).