Opinião pública ou privada? A quem interessa a sua opinião?

Estamos vivendo um período de supervalorização da opinião. Ter opinião é como ter dinheiro. Em breve, dar uma opinião vai garantir meia entrada no cinema, desconto no ônibus para estudantes e, logo logo, você poderá pagar a conta do bar com uma opinião. Com opinião, hoje, se compra atenção, amizade, amor e até a verdade. Afinal, quem tem é melhor, mais bem visto e passa por mais inteligente, articulado, politizado e outros atributos igualmente superestimados pelo grosso da opinião corrente.

Acontece que a palavra opinião engloba uma gama muito grande de fenômenos. Pode tratar-se de erros, verdades parciais, relativas ou incompletas, as meias-verdades, as meias-mentiras, as mentiras bobas e as mentiras deslavadas. A pergunta é: diante de algo com um leque tão grande de possibilidades e margens de erro, o que leva alguém a começar uma frase com “na minha opinião…”?

A resposta pode estar no desejo de resguardar-se de responsabilidade pelo que se diz. Além disso, o opinante arrisca coincidir sua opinião com a dos ouvintes, o que lhe confere subir um degrau na aprovação. Quem usa de opinião dificilmente busca coincidi-la com a verdade e sim com a mera opinião da audiência. É a velha diferença entre doxa e episteme de que falava Aristóteles. Não há grande problema com a opinião quando usada com moderação e a atual epidemia opinativa que vemos hoje não seria em si um grande mal se não viesse acompanhada de um de seus mais temidos efeitos colaterais, a valorização da opinião como valor de verdade. Opinião é algo que cria relações dúbias entre verdade e mentira. Em casos extremos, evoca-se o direito à opinião até mesmo contra fatos concretos.

O problema do “direito à opinião”, pelo qual tanto se luta hoje, é que ele supõe o dever de outros ouvirem a tal opinião. Como bem sugere o professor Olavo de Carvalho, o tempo merecido a uma opinião deveria ser proporcional ao tempo gasto no estudo do assunto. Infelizmente, valoriza-se opinião como direito inalienável, enquanto que inalienável é o direito à ignorância ou à abstenção de opinião. Alguém precisa libertar os opinadores enveterados da obrigação à qual se sentem aguilhoados. Precisamos dizê-los que estão livres para não ter opinião. Não ter opinião é sinal de respeito com a verdade e com o estudo.

No Brasil de hoje, nas escolas, universidades, redações de jornais, na política e em todos os locais públicos, a posse de uma opinião coincidente com a de algum grupo majoritário ou detentor de atributos atraentes, é condição de ascenção e poder de influência. Para subir na empresa, o empregado liga suas antenas e ouve a opinião dos colegas mais altos, do chefe, para então se adequar ao modelo vigente. Tudo isso é sinal do desenvolvimento de uma informalização da linguagem, adequação às necessidades quase fisiológicas, de sobrevivência.

Foi com base nessa habilidade política do homem, e na sua necessidade de orientação no meio, que Elisabeth Noelle-Neumann propôs a hipótese da Espiral do Silêncio, característica da cultura moderna. Neumann apontou que as opiniões pessoais são fruto de um arranjo racional que busca a aceitação pública ou grupal e que depende da capacidade de sondagem das ideias vigentes para o sucesso na adequação a determinado grupo ou sociedade. Esse fenômeno se torna inconsciente e automático conforme o nível de socialização e dependência da aceitação social. O grande erro é acreditarmos que isso deve ser assim, que se trata de uma constante imutável no ser humano. Não é bastante óbvio que estar bem integrado a uma sociedade doente não é, de maneira nenhuma, um sinal de boa saúde?

Ora, não somos nós capazes de analizarmos profundamente um assunto e de buscarmos conhecimento científico ou aprofundado sobre o que quer que seja antes de opinarmos? Vejamos quais de nossas opiniões estão sinceramente embasadas a algum tipo de experiência ou estudo do assunto ou simplesmente apoiadas em declarações que ouvimos de pessoas que julgamos importantes, com as quais desejamos ser identificados. É muito mais fácil ligar o “opinion mode”, esperar as reações emocionais e depois dizer que não se responsabiliza caso sua hipótese seja uma completa furada. Faz-se isso somente usando uma palavrinha.

Esta supervalorização da opinião é um dos frutos da cultura do relativismo e do culto à autodeterminação, à emancipação pessoal, social, cidadania e estes termos-dispositivo que servem de controle remoto a reações premeditadas. É culpa do altar erguido aos pés da auto-estima, das tempestades emocionais de minorias orgulhosas, resultado da crença gnóstica da independência da razão sobre a cruel ditadura da realidade absoluta, o potentado da moral contra a pobre criança pós-moderna e indefesa. A culpa acumulada pelas imoralidades aparentemente imperdoáveis da vida torna o alargamento moral a única saída e o vício a única libertação. O ódio à realidade traz o ódio à verdade e a necessidade da sua difamação. Sem verdade, tudo é opinião. O desconhecimento passa a ser, paradoxalmente, a única forma legítima de conhecimento. É nisso que apostam os opinadores profissionais, na lógica paradoxal.

Quem abusa da palavra opinião chama a mentira e a verdade pelo mesmo nome. Reafirma o seu desconhecimento e o seu dar de ombros para a verdade, em nome de um lugar bonitinho no grupo, uma carinha limpa cuja retaguarda pode trazer uma surpresa desagradável a quem se arrisque a depositar crédito.

Quando pensamos em dar uma opinião devemos contar até dez, repensá-la e nos perguntarmos se há em nós algum conhecimento de fato sobre o assunto, se há alguma utilidade informativa sobre o que vamos falar. Fora disso, a opinião só poderia ser tolerada em situações de tortura, quando não se tem tempo para estudar o assunto do qual se vai falar. Afinal, como fizia o falecido Orlando Fedeli, opinião é algo que você tem sobre um assunto que você desconhece. Opinião é frescura, nada além disso.

Nos perguntamos, então, se o direito à opinião diz respeito a algo público ou privado. Porque se se trata de um bem público, o que o governo ganha com isso? Na certa deve estar nos cobrando o alto preço de ouvir asneiras em todo o território nacional. Mas afinal a quem interessa a garantia desse direito? A quem interessa a sua opinião?

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

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