O unicórnio carnavalesco

O unicórnio carnavalesco

07/03/2018 0 Por Estudos Nacionais

Por Victor Bruno

Falemos agora de coisas sérias, como a presença de unicórnios no Carnaval. Sim, unicórnios. No meio do grude dos foliões, da cerveja quente e da folia generalizada, lá se viam, às pampas, vários representantes da nossa juventude ostentando em meio ao glitter, chifrinhos rosas e lilases, balançando freneticamente ao som de não-sei-qual pancadão que vem do trio-elétrico.

Surpreendente, pensei. Será que à hora tardia, pouco antes do Carnaval, os foliões se juntaram na calada da noite para ler A Tempestade e, como Sebastian, dizem todos agora “Now I will believe/That there are unicorns”?

* * *

O unicórnio, tradicionalmente, é uma criatura simbólica do cristianismo que, segundo a tradição, só pode ser vista por mulheres puras — e também apenas delas podem ele se aproximar. A um só tempo ele representa a docilidade e a força — e também uma espécie de poder essencialmente feminino, já que apenas a elas, se puras, pode o unicórnio se entregar. Mais especificamente, o unicórnio se deita docilmente no colo feminino. Uma visão extremamente romântica.

A estranheza de ver essa figura no Carnaval só não é maior que a total falta de conhecimento de quem usa a fantasia. Claro está que o unicórnio carnavalesco nos chega por vias a-cristãs. Neste tempo em que as pessoas fogem da Cruz como verdadeiros diabos, a figura do unicórnio nos chega via narrativa neo-pagã, como uma forma alternativa — de acordo com uma moça em entrevista à Globo News — “exploração espiritual”. Se me é permitido dizer qualquer coisa, opino que essa observação é bastante intrigante. Primeiro: se o unicórnio é um símbolo tão antigo quanto o cristianismo, de alternativo ele não tem nada. Segundo: numa era dita “secularizada”, é bastante curioso que as pessoas procurem “formas alternativas” de espiritualidade.

Só que a crença de que esses tempos nossos são secularizados é uma colossal falácia. A virada do século XIX para o XX trouxe à sua esteira uma infinidade de sociedades secretas, cultos cientificistas, seitas pseudo-cristãs e velhas heresias revividas. São muitas as opções de “formas alternativas” de “espiritualidade” — isso não é novidade. E todas essas “formas alternativas” têm algo em comum: uma enorme fragilidade espiritual e intelectual.

Retornemos ao unicórnio. De que forma ele poderia ser uma “expressão alternativa” de espiritualidade se ele não apenas é um símbolo essencialmente cristão como é um símbolo do próprio Cristo? Qualquer dicionário ou enciclopédia especializada no assunto o testemunha.

Se os propositores dessas “novas formas de espiritualidade” não sabem desse fato e a platéia cristã horrorizada não faz nada para reaver seus próprios símbolos, então não há outra coisa senão enfiar a viola no saco: as opções espirituais dos nossos tempos são fragilíssimas. A Igreja abriu mão dos seus símbolos, da sua liturgia e da sua força; foi e está corroída por dentro e não perde a chance de negar tudo aquilo que ela é enquanto não deixa de ser ela mesma. Já as outras opções são ou invasões bárbaras de religiões inerentemente violentas ou são pseudo-religiões neo-pagãs falsamente esotéricas, sem nenhum fundo ortodoxo, que se aproveitam de alguma insuficiência espiritual coletiva do seu contexto histórico e do grupo social onde surge para atacar a coletividade.

Talvez isso explique o aparecimento do unicórnio carnavalesco, que nos chega através da wicca e seitas neo-pagãs similares que se aproveitam da imaturidade inerente aos jovens da nossa sociedade para inocular o seu feitiço. Qualquer um que se interesse, aliás, por estudar um pouquinho sobre a wicca notará que há algo ali que cala fundo na angústia adolescente, aquela angústia romântica e profundamente falsa que vê o mundo como um lugar altamente hostil e frio — e que por isso mesmo faz com que o jovem pense que todas as possibilidades acabam ali mesmo na adolescência e que o resto da sua vida será uma amarga e melancólica jornada até o cemitério.

Se as coisas são assim, então é natural que a vida do jovem se transforme numa paródia pervertida da espiritualidade, e a perversão do simbolismo do unicórnio não é nada além do que um dado entre vários de uma geração que, estando totalmente desinformada do verdadeiro significado da palavra espiritualidade, encontrará em “espiritualidades alternativas” um bálsamo que ratifique seus vícios e suas falsas impressões. É natural, também, que sem saber o que é ser amado e temeroso do porvir, ele transforme cada uma das várias “primeiras vezes” (porque a juventude é um período de primeiras vezes) em acontecimentos que tenham algum tipo de ressonância profunda que, mesmo falsa, emplaque um tipo de signo do infinito — que lhe dê uma esperança transitória de imortalidade. Entre a imagem de um catolicismo capenga, que nada lhe diz, e de uma pseudo-seita que ele desconhece como sendo falsa, mas que parece unir todos os vícios que ele tanto ama sob a fachada de um ocultismo milenar, ele prefere a segunda — aquela que não parece censurar seu desejo de excessos enquanto lhe promete algum tipo de consolo interior. Não é à toa, portanto, o sexo seja chamado de “o grande ritual” e seja descrito como uma prática que “agrada aos deuses”. Se o sexo é isso — um frenesi que agrada entidades desconhecidas — e não um momento de união espiritual sob a égide de um sacramento (o casamento), então é lógico que não há limites para a extensão desse “grande ritual”, que a mistura de inocência e desejo sacramentada por uma falsa religião termine trazer o símbolo do próprio Cristo para o Carnaval — a festa da carne — e que, num país desvairado como o Brasil a maluquice neo-pagã atinja proporções e conseqüências nefastas que ninguém desconfia.