O que é pós-verdade?

O que é pós-verdade?

08/01/2018 0 Por Victor Bruno

No final de 2016, seguindo seu costume, os Dicionários Oxford elegeram a palavra que mais descrevia aquele ano. 2016, se lembramos, foi um ano traumático — pelo menos no que tange as sensibilidades políticas e culturais de uma parcela significativa das elites mundiais. Para a venerável entidade lexicográfica, “pós-verdade” era a palavra que mais representava o ano do Brexit e, mais preponderantemente, a eleição do presidente americano Donald Trump.

Uma série de eventos seguiram-se à esteira da emergência disso que se chama “pós-verdade”. Para os inimigos políticos do presidente do Partido Republicano, a frase de Kellyane Conway, uma das suas assessoras, na qual ela dizia que oferecia “fatos alternativos” à narrativa que dizia que a presença de público na posse de Trump empalidecia ante aos números da posse de Barack Obama, foi um prato cheio. Isso foi no início de 2017. Em abril, um grupo de estudantes do Pomona College, na Califórnia, pediu a retirada do conceito de verdade do currículo acadêmico, alegando que o conceito nada mais é do que um “construto euro-ocidental profundamente enraizado no Iluminismo”. Logo, racista e colonialista.

Se nós estivéssemos em outra situação, talvez eu estaria aqui criticando o sistema de educação superior que, afogado no mar de pós-modernismo do século XX e em suas ramificações que entram segundo milênio a dentro, esquece de ensinar o básico da filosofia e o básico da história da filosofia. (Se “verdade” é um conceito iluminista, então Parmenides tinha o dom da profecia, ao falar do “âmago inabalável da Verdade bem redonda” e Cristo roubou para si algo que verdadeiramente pertenceria à Europa do século XVII.) Porém, não estamos em outra situação. À primeira vista, a noção de que a verdade é um conceito inexistente pode parecer perfeitamente absurda, mas quando olhamos mais demoradamente perceberemos que existe todo um sistema de rapto imaginativo e cognitivo que faz com que a unidade da existência — ou seja, a verdade — fique escondida por trás de uma névoa de confusão e paixões. No atual estado de coisas, essa névoa e essas paixões recebem o nome de “subjetividade” e, por ocuparem no atual termômetro cognitivo o posto da verdade (ou por antes de vermos a verdade olharmos essa névoa de confusão), a tal subjetividade é endeusada, e nada pode ocupar seu espaço.

É nesse contexto que entra o conceito de pós-verdade. A definição que o Oxford faz do conceito é altamente significativa (o que me deixa aliviado: se nas ciências humanas a Universidade de Oxford nada produz, parece que na lexicografia eles ainda são bons). Para eles, pós-verdade é um adjetivo que “denota circunstâncias em que fatos objetivos são menos influentes no talhar da opinião pública do que apelos à emoção ou a crenças pessoais.” Nesse paradigma, pós-verdade é o perfeito contrário da verdade. O prefixo “pós” indica algo que supera naturalmente o seu predecessor (no caso, a verdade). Mas o que se batizou de pós-verdade não é isso: é um conceito sintético produzido em laboratório que surge como algo que rivaliza com a realidade sensível da verdade. Verdade, tomada em si, não é “um construto”, como defendem o povo do Pomona College, mas uma realidade; um destino real ao qual muitas estradas já foram construídas na tentativa de se chegar lá. As estradas podem ser construtos; a verdade, o ápeiron, certamente não é.

Desse modo, podemos sublinhar as diferenças entre verdade e pós-verdade em tinta ainda mais carregada. Verdade é um todo, uma bola de existência ao redor da qual construímos as tentativas de apreendê-la. Pós-verdade, sendo sua paródia satânica, é uma situação que formamos à luz das nossas preferências e paixões para que a situação real se pareça mais com a medida da nossa existência (portanto servindo àquele desejo gnosticista de construir o mundo à nossa imagem e semelhança para que nele possamos liderar). Acontece que os nossos desejos e as nossas paixões não existem no mundo real, mas no campo da imaginação; são objetos imaginativos que, privados de hilomorfose (de encarnação, por assim dizer), só podem vir a ser quando falados. Nesse caso, a realidade das suas existências tem outra forma: são instrumentos de retórica.

Aqui a coisa fica mais explícita. Se a pós-verdade é algo que se constrói ao redor de ferramentas retóricas, então ela nada é além de mero discurso, de poder verbal, ou, como diria Paulo Francis, bafo de boca. Se usarmos uma velha formulação dos estudos de comunicação a realidade da pós-verdade se dá num processo em dois tempos, num circuito Emissor -> Receptor. Quer dizer, a pós-verdade é um elemento discursivo cuja construção se dá em duas etapas: primeiro ela se constrói no imaginário do Emissor e uma vez que o Emissor se convence que os seus desejos são a medida do mundo, ele os externaliza em discurso retórico para o Receptor. Mas, lembremos: se fatos objetivos não são importantes no paradigma da pós-verdade, a única coisa que o Emissor tem para convencer o Receptor é a fé na encarnação verbal das suas paixões. Essa fé é aquela fé que Eric Voegelin chamou de “esperança metastática”.

O que temos aqui, por fim, é o império do discurso retórico, do irracionalismo e da manipulação. O Prof. Olavo de Carvalho havia definido o discurso retórico como aquele que “[v]isa, essencialmente, a persuadir alguém a fazer ou a deixar de fazer alguma coisa. . . .  A influência do discurso retórico é menos profunda, porém mais evidente e imediata, mais traduzível em ações exteriores” (grifos meus). Ou seja, é um discurso imperativo, que mira ações práticas — ações de transformação.

Dessa maneira, voltamos à praxis revolucionária, aquela que visa a transformação antes da compreensão. É o primado da 11.ª Tese contra Feuerbach. Mas uma coisa é certa: para todo aquele que se deixa seduzir pela sua própria névoa de desejo existe um líder maior que controla esse desejo.