Fake News: a nova arma da guerra de informação

Na trincheira da guerra informativa, a credibilidade conquistada pode ser definitiva. Mas em um período de descrença total, a forma mais rápida de ganhar credibilidade é descredibilizando o oponente.

Para Donald Trump, o primeiro a colocar o termo no jargão global, fake news diz respeito à CNN e companhia, representante do establishment midiático coordenado internacionalmente que, de posse de um grande número de jornais, tentou transformar Trump em uma espécie de ultrapassado (mas raivoso) líder do mal, inimigo global número um. Já para a grande mídia brasileira, fake news refere-se a um sério problema a ser resolvido, um “aquecimento global” sedento por novas vítimas inocentes, entre as quais figuram personagens pré-fabricados feitos sob medida para representar minorias discriminadas que são simultaneamente festejadas em novelas do horário nobre. A imprensa brasileira, como sempre, apenas engrossa e repete o chavão da mídia internacional.

A bola da vez é a notícia falsa, a doença da internet, o zika vírus que infectou a comunicação. Como combater essa doença, conter a epidemia?, todos perguntam. O problema é que a causa da doença está presente na própria mídia a partir da sua mudança de função da informação para a transformação. Diante dos efeitos dessa transformação, a reação é uma transformação oposta, um esforço no sentido contrário para compensar os estragos daqueles que se sentem traídos pelos jornais e prejudicados de alguma forma. Blogs e posts nas redes sociais tentam lançar luz sobre aquilo que a mídia finge ignorar. Em seguida, jornalistas fazem o mesmo, reagindo contra a tentativa de furar o seu monopólio de dizer a verdade.

Nos EUA, o Facebook já desenvolveu ferramenta específica para identificar notícias falsas. As redações dos grandes jornais já estão mobilizadas para mais um “grande desafio”. De tempos em tempos, é preciso acionar o motor do agenda-setting, um dispositivo muito simples que mobiliza as redações para a ação coordenada de pautas, nas quais o problema-assunto se torna o maior desafio e preocupação nacionais. Com isso, os jornais dão um upgrade em sua credibilidade, pois promovem uma necessidade urgente por informação. Não há melhor propaganda de credibilidade do que ser o canal de conhecimento de um problema, fornecer informações que pareçam essenciais sobre ele. É fácil oferecer novidades quando se é a fonte principal delas.

O fim do “livre fluxo”

Os congressos internacionais de mídia já manifestaram, como mostrei no livro A Transformação Social, a sua ressalva ao conceito de “livre fluxo de informação”. Diziam os cientistas sociais que o problema não era o conceito em si, mas a expressão utilizada. Parece-lhes um tanto ingênua. Ora, para resolver essa ingenuidade expressiva, por que não valer-se de palavras mais convincentes? A “democratização dos meios” se tornou não um valor estático (como a necessidade de informar), mas uma crescente e dinâmica proposta transformadora que seria preenchida com os valores regionais (tanto geográfica quanto culturalmente) ou políticos.

Trata-se da operação mágica na qual transforma-se o problema em solução. Justamente a mazela contra a qual o “livre fluxo de informação” buscava ser um antídoto, isto é, a possibilidade de um povo ou sociedade se tornar refém dos interesses regionais e políticos em detrimento da informação objetiva, agora passa a ser a solução para os problemas democráticos. A verdade sempre foi um remédio para a dúvida do estado de relativismo. Agora querem nos convencer que a dúvida ou o relativismo são a solução para a opressão que a verdade pode gerar. O jornalista das redações acredita, apenas metodologicamente, na existência da verdade. No fundo, ele apenas trabalha com ela como hipótese que, só vale se for posta lado a lado da mentira.

Os jornais impressos contam com a credibilidade de 59% da população, uma porcentagem festejada pela grande mídia que, no entanto, mostra-se bastante tímida e significa flagrante perda. Essa queda tem sido causada, entre outras coisas, devido o incremento da internet (blogs e redes sociais) no acesso à informação pelo público. Como a internet também não fornece meios claros ou seguros de assegurar credibilidade, a situação é de caos informativo. Esse caos produz um sentimento de descrença generalizada.

Durante muito tempo a mídia ficou refém do poder da publicidade, que sustentava as suas páginas. Com a entrada em cena da internet, o bolo publicitário foi tão dividido que começou a sobrar pouco para os jornais impressos que já estavam ancorados por grandes empresas de mídia. Sobravam-lhes algumas saídas: o financiamento público ou o terceiro setor. As Ongs, financiadas e mantidas internacionalmente ou por governos, sempre representam interesses maiores do que a sua fachada. Quando não está submetida a governos, portanto, a imprensa obedece e segue os ditames de entidades internacionais. É inevitável que o objetivo de informar sofreria uma mudança drástica em direção à transformação social.

A queda da credibilidade da imprensa não é um problema, mas uma solução, já que ela virou o lugar preferencial das notícias falsas. Falsas nos fatos ou no contexto, ela sempre enseja os interesses de organismos maiores do que ela. Da descrença na verdade até a denúncia das fake news, tudo converge.

Fake News se tornou a opção preferencial pela denúncia da mentira após a desistência completa da verdade. De fato, a uma sociedade que não tem os meios de saber em quem confiar só é possível convencer da mentira.

Quem é fake?

A grande mídia, com seu aparato transformador de longo prazo, quer possuir os meios de acusação e apontamento daqueles que divulgam o que ela não quer divulgar. O jornalista Walter Lippman já dizia em 1922, que a mídia precisa receber as informações pré-organizadas e que a ela não pode ser deixada a função de organizá-las, dada a sua condição de imediatismo que a impede de contextualizar eficientemente as informações veiculadas. Caberia então à ciência política, gerar meios de preparar as informações para que os jornais as recebam.

Portanto, a resposta para o que a mídia chama de fake news dificilmente será encontrada na própria atividade jornalística mas no seu background de entidades, instituições e ONGs que hoje fazem parte do seu sistema de referências.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta