Doutrinação ou engenharia comportamental?

O debate em torno do projeto Escola Sem Partido trouxe a público a palavra doutrinação, atribuída ao sistema de ensino brasileiro. Mas a dúvida diante disso é se há de fato uma doutrinação, isto é, a transmissão doutrinária de princípios e conceitos ou se os estudantes estão apenas sendo expostos a doses homeopáticas de estímulos comportamentais justificados por estratagemas retóricos e frases de efeito. Ao dessensibilizar indivíduos para a reflexão crítica verdadeira, as estratégicas comportamentais têm o poder de torná-los menos aptos à formação da personalidade, criando uma multidão de modelos em branco que aguardam novidades comportamentais e suas respectivas justificações. A aparência de coerência e independência crítica é mais eficiente que qualquer doutrinação.

Quando cursei o Ensino Médio, em uma escola municipal, havia um professor esquerdista de sociologia bastante caricato. Era já um senhor e falava em tom sacerdotal. Tinha uma barba desgrenhada e usava camisas velhas e surradas. Costumeiramente, aparecia usando um boné vermelho. Os alunos viam o professor Mário como exemplo do esquerdista maluco e radical. Nenhum compactuava de suas utopias. Ele dizia que o Partido dos Trabalhadores, quando tomasse o poder, iria implantar o socialismo e a verdadeira justiça social. Em vão, tentava nos ensinar complexas análises de conjuntura sociológicas, baseadas em tabelas imensas e de complicadíssimas combinações. Um lunático, concordavam todos. Todos achavam muita graça dele. Nem o levavam a sério o suficiente para reclamar de sua doutrinação tão declarada.

Havia, porém, uma professora de história, jovem, crítica e muito espontânea. Tinha um apelido engraçado, pelo qual todos adoravam chamá-la. A matéria era dada sempre com muitos exemplos e piadas e não dispensava a conversa sobre a novela com as meninas. Fumava junto com a turma no intervalo e tinha grandes amigos entre os alunos. Identificava-se com garotos e garotas diante da admiração que compartilhavam do cantor Renato Russo, Cazuza e outros do tipo. Era muito engraçada e ninguém podia dizer que não gostava dela. Quando começou a eleição presidencial, mostrou-se fanaticamente petista e socialista. Não é preciso dizer qual dos dois professores era admirado pela turma.

Em 1999, entrei na faculdade de Geografia, na Universidade do Estado de Santa Catarina, onde permaneci apenas por três semestres. Naquele curto período, pude acompanhar a transformação radical de alguns colegas. Um deles chegou nas primeiras semanas com camiseta colorida e de cabeça raspada por ter passado no vestibular e adentrar o admirável mundo do conhecimento. Poucos meses depois, tinha decidido não cortar mais o cabelo e filiar-se ao PSTU. Tudo isso sem qualquer dedicação ao estudo, mas valendo-se apenas do repertório das companhias, das festas costumeiras nas quais participavam professores. Sei disso porque acompanhei e fui de certa forma influenciado pelo repertório social do período. Certo dia, eu e ele chegávamos juntos no prédio da faculdade e, após passarmos por uma passeata do MST e CUT, demos com o professor de História Econômica saindo da faculdade junto de uma turma de alunos, ao que nos disse com o dedo em riste: “hoje, a aula é nas ruas”.

Mesmo em ambientes acadêmicos, não parece haver verdadeira doutrinação, mas transmissão de comportamentos e trejeitos que, junto de algumas frases feitas, formam um imaginário capaz de esculpir personalidades muito pouco variáveis.

Os pesquisadores Kurt Lewin e Paul Lazarsfeld dedicaram a vida a pesquisar a influência dos grupos e das amizades para a sedimentação de crenças e valores, sistemas de ideias e opiniões formais influentes para a tomada de decisão nos sistemas democráticos. Lewin, por meio da sua psicologia topográfica, é praticamente o idealizador das dinâmicas de grupo, cujo principal mecanismo é o da geração de afinidades e mudança de eixos de pressão, nas quais os indivíduos sentem-se à vontade para sociabilizarem sem perceberem que estão entrando em um novo eixo social.

Pascal Bernardin, em seu livro Maquiavel Pedagogo, traz os diversos tipos de técnicas empregadas por engenheiros sociais nos sistemas educacionais por todo o mundo. Por meio da ONU e UNESCO, os currículos foram aos poucos sendo influenciados e as artimanhas para a modificação de crenças e valores, montados para gerar uma atmosfera cultural relativista e facilmente moldável pelos governos nacionais, subordinados pela elite globalista.

Domesticar as consciências sempre foi o desejo de intelectuais preocupados com os rumos da sociedade de massa. Pelo menos desde o século XIX, sociedades de líderes iluminados e, depois, psicólogos e cientistas comportamentais empenharam-se na revolução dos costumes. Seus esforços se concentraram essencialmente na mídia, mas, se para fazer isso foi necessário muita pesquisa de campo, o meio acadêmico em que atuaram foi o primeiro tubo de ensaio de suas teorias e experiências.

São infindáveis os estudos psicológicos que visam tornar possível o convencimento sem que seja preciso doutrinar ninguém.

Eis o motivo do sucesso da Ideologia de Gênero para os pedagogos e o porquê deles não abrirem mão de falar de sexualidade para os alunos. O conteúdo pouco importa. O que vale é o comportamento que se está estimulando.

 

 

 

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

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