Desmascarando um professor uspiano

Desmascarando um professor uspiano

16/10/2018 11 Por Victor Bruno

O blog da Boitempo publicou na segunda-feira um texto de Christian Dunker, psicanalista “ligado à linha lacaniana” e doutor pela Universidade de São Paulo. Naquele ar seráfico que é próprio dos anjos do conhecimento que habitam nas universidades brasileiras quando decidem descer ao nível dos comuns e escrever um texto em publicações não acadêmicas, como é o blog da Boitempo, o Dr. Dunker resolve nos explicar o motivo de não devermos levar o Prof. Olavo de Carvalho a sério.

Porém, quando o leitor chegar ao amargo cabo deste texto, veremos que quem sai na pior é o eminente representante catedrático da USP.

1. Onde fica a ṭarīqa Tariqa?

A tentativa do Dr. Dunker começa acima da média. Pelo menos o psicanalista lacaniano concede ao Prof. Olavo de Carvalho a chance talvez ser um pensador já que “existiram muitos bons pensadores que vieram de fora do sistema universitário ou permaneceram em sua periferia”. Porém:

É por isso que o fato de que seus primeiros trabalhos foram sobre astrologia, que ele tenha sido militante comunista e adepto da seita islâmica Tariqa, que hoje viva refugiado nos Estados Unidos, não o desabonam, mas criam os traços ideais para representar o papel de alguém antissistema, independente e fora da academia. [Grifo meu.]

Aqui a vaca já foi para o brejo. O Dr. Dunker acha que tariqa é um substantivo próprio, quando na verdade é um substantivo comum. É claro que ninguém está obrigado, em condições normais, a saber que uma ṭarīqa é um tipo de organização islâmica — como a Maçonaria é um tipo de organização esotérica e uma ordem monástica é um tipo de comunidade católica. Ninguém, portanto, entra na seita Tariqa — entra-se na ṭarīqa Maryamiya, por exemplo que foi a que Frithjof Schuon, de quem o Prof. Carvalho foi discípulo nos anos 80, fundou.

Só por causa disso, por esse erro grave de conhecimento das próprias atividades da personagem que o Dr. Dunker pretende criticar, só por causa disso já não se deve mais levar a sério o restante do texto do eminente uspiano. Claramente o Prof. Christian Dunker não faz a menor idéia do que está escrevendo, pois se soubesse, não erraria até mesmo os títulos dos textos do intelectual a quem se dispõe a criticar.

2. O (mínimo) que você precisa saber sobre o Google Acadêmico

Depois de ter demonstrado ao leitor que existiram bons intelectuais fora dos muros acadêmicos, o Dr. Dunker insiste que há um outro jeito de se determinar a validade do trabalho de um intelectual. Pelo valor intrínseco das próprias obras talvez? Claro que não. Ninguém jamais vai tirar da academia o seu poder de decidir quem vive ou quem morre no campo da intelectualidade. Prossegue Dunker:

Há um sistema imparcial que agrega e compara essa variedade de posições própria ao campo da ciência, validando o valor e a legitimidade do conhecimento que se produz, a partir da própria comunidade de cientistas. Este sistema vale para qualquer um que publique qualquer coisa em ciência, em qualquer lugar do mundo. Trata-se do Google Scholar (“Google Acadêmico”, no Brasil), ou seja, uma forma de quantificar quantas vezes e por que qualidade de revista científica seus livros ou artigos são citados por outros autores.

Aqui nós temos um problema de ordem lógica: Dunker disse acima que houve grandes intelectuais fora do centro acadêmico e que estar à margem e ser anti-sistema não é um problema em si mesmo. Porém, instantes depois, num giro louco da ordem das coisas, o mesmo Christian Dunker diz que a maneira de verificar o valor da obra de um intelectual é a resposta unânime de outros acadêmicos. Ou seja, de um jeito ou de outro, quem quiser se mover à margem da academia ainda terá que prestar contas com a torre de marfim universitária. Se isso não é um fino exemplo de ardil-22, eu não sei o que é.

Mas, como já diziam as Organizações Tabajaras, não é só isso! O mesmo em que concede que o sistema do Google Acadêmico tem lá seus problemas, ele diz — e aqui as coisas começam a ficar . . . complicadas. Diz:

Ele [i.e., o Google Acadêmico] serve como uma espécie de peneira genérica para falar sobre quem é quem quando se trata de ciência. A vantagem é que qualquer um pode entrar neste sistema e verificar a quantidade e qualidade de citações que um autor tem. Por exemplo, um pesquisador de esquerda como Vladimir Safatle, com 45 anos, tem um i-10 de 40, que corresponde a 282 citações de sua principal obra. Um reconhecido autor de direita, como José Guilherme Merquior, tem 331 citações em sua obra mais conhecida. Olavo de Carvalho tem 30 em sua obra magna O que você precisa saber para não ser um idiota. . . . Sua obra mais “técnica”, Teoria dos discursos em Aristóteles, tem apenas três citações na área da filosofia, todas desabonando seu trabalho.

Ou o Dr. Dunker está deliberadamente mentindo ou ele não sabe do que está falando. A prudência e a caridade cristã me mandam achar que é a segunda opção, mesmo que ainda possa ter um pouco da primeira nesse angu metodológico. Senão, vejamos:

  1. Não é verdade que “qualquer um” possa entrar no Google Acadêmico; apenas autores em revistas acadêmicas (aquelas com peer review) ou de livros têm suas obras registradas pelo algoritmo do Google. O Prof. Olavo, por sua vez, repetidamente já afirmou que não faz parte do esquema de submissão de trabalhos à academia justamente porque, como o próprio Dr. Dunker afirmou em seu próprio texto, ele é anti-sistema — e o sistema de publicação e avaliação de trabalhos acadêmicos no mundo inteiro é conhecidamente troglodita (melhor resumido no famoso adágio inglês publish or perish). Como poderia, então, um homem comprometido em se mover por fora da academia enviar textos para encher o currículo?
  2. Como falei acima, para se criticar alguém é preciso que se conheça o que o criticado fez, senão estamos só no campo da antipatia pessoal. E o Prof. Christian Dunker claramente não conhece o seu criticado (está ficando um pouco mais difícil de manter a tese de que ele é meramente ingênuo, mas juro ao leitor que vou me esforçar) Se ele conhecesse, saberia que ele não tem um livro chamado “O Que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota”, mas sim O Mínimo Que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota — bem como que ele não considera essa sua “obra magna”. Se eu estou certo, essa distinção pertence ao Jardim das Aflições, livro onde ele diz que “escreveu tudo que queria escrever” (pelo menos à altura da sua publicação). O Dr. Dunker tabém saberia que o Prof. Olavo de Carvalho nunca escreveu um livro chamado “Teoria dos Discursos em Aristóteles”, mas sim Aristóteles em Nova Perspectiva: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos, livro hoje em sua segunda edição (Campinas, VIDE Editorial, 2013).

3. Doze camadas de malícia

Se não saber o que é uma ṭarīqa era até compreensível, porque ninguém precisa conhecer os meandros do Islam, não saber os títulos dos livros de quem se critica é um perfeito absurdo; um absurdo prontamente repetido várias vezes durante o texto. Pois o nosso mui afável Dr. Dunker, aqui já totalmente coberto da mais pura malícia, escreve ao incauto leitor boitemponiano que os títulos dos livros do Prof. Olavo

incluem coisas como O Dever de Insultar e O Imbecil Coletivo II. Sua Teoria das doze camadas da personalidade é um resumo ridículo e pretensioso das concepções psicológicas mais correntes em psicologia.

Oh meu Deus! o “ideólogo de Jair Bolsonaro” escreveu teses a respeito de como as pessoas são imbecis e de como temos a obrigação de insultar! Acontece que “o imbecil coletivo”, enquanto seja fato que há dois volumes de um livro com esse nome (cujo primeiro, por sinal, recém reeditado pela Record), é uma sátira à tese do “intelectual coletivo” de Antonio Gramsci. Segundo que “O dever de insultar” é um artigo de jornal. Terceiro que Olavo de Carvalho não tem um livro chamado “Teoria das doze camadas da personalidades” — nem publicado e nem por publicar. Claro está que o Dr. Dunker tem todo direito de achar essa tese do Prof. Carvalho de ridícula — assim como eu tenho o direito de achar Dr. Dunker é um nome digno de vilão de quadrinhos. O problema é que é impossível, caso ele realmente soubesse do que se trata a Teoria das Doze Camadas, confundir uma teoria com um livro, bem como é impossível que Dunker tenha de fato pesquisado o nome “Olavo de Carvalho” na barra de buscas do Google Acadêmico: se o tivesse feito, veria que a obra mais citada dele tem 100 menções. Trata-se dos seus comentários à “Dialética Erística” de Arthur Schopenhauer que vai sob o título de Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão (Rio, Topbooks, 2003). Depois, com 80 citações, vêm os Ensaios Reunidos, vol. 1, de Otto Maria Carpeaux, organizado, anotado e com ensaio introdutório (quase 100 páginas) do Prof. Olavo (Rio, UniverCidade Editora/Topbooks, 1999). A seguir vêm, agora com o título certo, Aristóteles em Nova Perspectiva (53 citações), O Mínimo (agora com o título certo, 30 citações), O Jardim das Aflições (23), O Imbecil Coletivo (14) e A Nova Era e a Revolulão Cultural (17 citações). Isso só na primeira página dos resultados da busca. Claro, é pouco comparado ao número de citações de Vladimir Safatle, citado no corpo do artigo de Doktor Dunker — mas Olavo, como o próprio Dunker diz, pertence a um movimento emergente no cenário cultural brasileiro (viz., a direita), não está coberto das benesses e da proteção universitárias (ao contrário, “De Olavo de Carvalho não se fala”, já dizia o mandamento de Milton Temer) e seus interesses de estudo pertencem a um campo bem restrito nas ciências brasileiras.

4. UOL!

Aqui, fica cristalino que Doktor Dunker não faz a menor idéia de como a obra do Prof. Olavo de Carvalho se compõe e do que ela trata. Ele não sabe diferenciar o conteúdo dos livros e seus títulos, nem sabe quais são esses títulos. Também não sabe distinguir um livro dum artigo de jornal. Assim, Christian Dunker vai ganhando as feições de Johnny English, que não sabia o que era medo, nem o que era perigo, nem o que era nada. Em cima disso tudo, feito cereja do bolo, para coroar o festival de balela que é o texto, ele me manda essa:

Uma seleta das afirmações erráticas de Olavo de Carvalho incluem: a ONU apoia o terrorismo, Pepsi é feita com fetos abortados, há uma conspiração comunista global e o movimento gay é parte dela, a Lei da Inércia é falsa e Isaac Newton era burro, há livros ensinando crianças fazer sexo oral com elefantes, o Brasil hoje é uma ditadura comunista, a mídia apoia os gays para promover o controle populacional, o marxismo nasceu do satanismo, Darwin é o pai do nazismo, a web foi criada para combater o ateísmo, o ser humano não precisa de cérebro pra viver, o nazismo e FMI são de esquerda, Bill Clinton era um agente de Pequim, os EUA entraram no Vietnã para perder, há 40 milhões de comunistas no Brasil, cigarro não dá câncer (ele é um fumante inveterado), não há diferença genética entre humanos e chimpanzés na gestação, o empresariado nunca se organizou politicamente, a ditadura foi branda e tinha eleições democráticas, o General Geisel era comunista.

Eu não tenho tempo e nem energia para destrinchar cada uma dessas idéias e separar quais são verdadeiras, quais são falsas e quais ele nunca disse. Para deixar mais claro que Olavo de Carvalho não é nenhum louco, desejo esclarecer dois exemplos, mores didático.

1.º Sim, Olavo falou, certa vez, que a Pepsi se utilizava de fetos abortados para adoçar o refrigerante — e de fato usava, tanto que as entidades de controle alimentar fizeram a PepsiCo, empresa que controla a Pepsi, a assinar um termo de compromisso no qual constava que a sua fornecedora de adoçantes, a Senomyx, a parar de utilizar material da fita genética HEK, extraídas de material fetal em sua composição química. O caso foi divulgado em muitas publicações — majoritariamente de linha cristã ou direcionadas a públicos específicos (como a Patheos, a LifeNews, o InfoWars), com a exceção da CBS. O Sr. Dunker, claro, pode tentar desqualificar os links que acabei de citar dizendo que são sites de “teóricos da conspiração” e da “extrema-direita cristã”. O fato, contudo, é que a campanha chegou até Washington e foi divulgada nesses sites. Lá nos EUA, Dr. Dunker, a mídia não é controlada por três jornais e quatro emissoras de TVs.

2.º Olavo de Carvalho também disse que o marxismo e o comunismo estão de algum modo ligados ao satanismo (v. aqui). Bom, a tese não foi formulada por ele: foi Richard Wurmbrand, pastor protestante preso e torturado durante 14 anos, o primeiro a levantar a hipótese em seu livro Marx & Satan (Westchester, Ill., Crossway Books, 1986).

Mas aí alguém — provavelmente um daqueles que concedem aos outros que não são acadêmicos a chance de serem estudiosos para depois lhes impugnar a chance na base de mentiras — pode dizer: “Mas ele é um pastor! É enviesado!” Pode até ser, mas Murray Rothbard desenvolveu, num artigo, a possibilidade do marxismo ser um desenvolvimento de inspiração escatológica se utilizando do texto do Pe. Wurmbrand (v. Murray N. Rothbard, “Karl Marx: Communist as Religious Eschatologist”, Review of Austrian Economics 4 [1990]: 123–179). “Ah! mas Rothbard é um economista anti-comunista!” Não seja por isso: mais recentemente, Julian Strube, da Universidade de Heidelberg, Alemanha, escreveu uma série de artigos (e uma tese de doutorado, infelizmente em alemão) mostrando os links ontológicos e epistemológicos entre ocultismo e o socialismo (v., inter alia, “Socialist Religion and the Emergence of Occultism: A Genealogical Approach to Socialism and Secularization in 19th-Century France”, Religion 46, no. 3 [2016]: 359–88; “Occultist Identity Formations between Theosophy and Socialism in Fin-de-Siècle France”, Numen 64 [2017]: 568–95). Aliás, o estudo entre ocultismo e religião é uma vinícula de conhecimento que só cresce, a começar pelos trabalhos de Nicholas Goodrick-Clarke, há trinta anos. Aqui no Brasil esse material permanece desconhecido porque pessoas como Doktor Dunker acham isso coisa de paranóico.

Agora você me diz: De onde esse homem tirou isso tudo? Bom, à nota de rodapé que vai junto com o ponto final do parágrafo (porque sim, com todo seu rigor metodológico, Dunker the Doktor anotou seu artigo de blog com notas de rodapé) encontramos a referência.

Sabe qual é a fonte?

Quer mesmo saber?

O fórum de games da UOL.

[ADENDO EM 22/10/2018: Os leitores avisaram, nos comentários, que Doktor Dunker removeu a referência ao fórum de games do UOL devido a reclamações feitas no post original da Boitempo. O senhor é um espertinho mesmo, Christian Dunker.]

5. Haddad über alles

O mais deprimente é que todo esse intróito do Prof. Christian Dunker foi para defender o candidato à presidência Fernando Haddad da recente acusação feita pelo Prof. Olavo de Carvalho de que o presidenciável, em seu livro Em Defesa do Socialismo, defende o incesto e quer que esse “tabu” seja quebrado. Ora, aqui não posso defender o professor já que não tive o prazer de ler essa obra. O que posso fazer é dizer que mais uma vez o corporativismo satânico que rege a universidade e o partidarismo político brasileiro entrou em ação e deu seu show. Devo dizer também que a velha técnica do “se não acredito, não existe”, tão típica dos nossos professores, fez mais uma das suas aparições. Não somente pelo que expus a respeito do tratamento que a esquerda usualmente confere a certas fontes de notícias (v. item 3), mas também pela negação de que certos assuntos e pesquisas sejam tratadas e empreendidas: do mesmo jeito que não se pode conectar fascismo com esquerda, nazismo com esquerda e ocultismo com esquerda, também, implica Dunker, não se pode associar a esquerda com a neutralização do incesto. Isso é um grande absurdo! Como alguém pode levar uma coisa dessas a sério? Afinal, muitas

culturas e alguns padrões de família exageram essa repressão, criando crianças demasiadamente proibidas em seus desejos e em suas vidas eróticas. Por isso uma transformação social deveria atentar para padrões menos rígidos de repressão e de implantação da lei. Ora, essa tese simples e difundida amplamente, tanto entre pensadores de direita quanto de esquerda, foi deformada para justificar a “erotização da infância” e a “apologia do incesto”.

Bom, então temos que fingir que Wilhelm Reich via na emancipação sexual um elemento de transformação e libertação sexual? que ele não foi o inventor da libertação sexual? Vamos fingir que Adorno não disse “Temos que bater onde dói. Temos que ofender os tabus sexuais”? (Theodor Adorno e Max Horckheimer, Towards a New Manifesto, trad. Rodney Livingstone, Londres, Verso, 2011, p. 55). Vamos fingir que a base epistemológica da ideologia de gênero não vem da brutalidade contra a civilização empreendida pela Escola de Frankfurt? (Claro, peço perdão por ter escrito “ideologia de gênero”. O Dr. Dunker não gosta do termo. Mas pouco importa. A esquerda não pode mais determinar que termos são usados no debate.)

Bom, talvez seja demais escrever este texto tão comprido. Mas não podia perder a oportunidade de corrigir um professor universitário que cita o fórum de jogos da UOL como fonte de pesquisa.