Bestas rudes do novo conservadorismo

Por Victor Bruno

Qual besta rude, vinda enfim sua hora,
Arrasta-se a Belém para nascer?
— W. B. Yeats, “A Segunda Vinda”

 Intelectualidade no Sol e na sombra

É difícil se falar de um conservadorismo no Brasil. Não só pelos motivos que conhecemos bem (preconceito catedrático, censura ideológica, dominância política de esquerda etc.), mas também por motivos mais delicados e sutis que merecem destaque e estudo; aqui não posso dar senão uma breve pincelada.

As idéias têm a vantagem de poder se desenvolver na escuridão e aridez, como provam as experiências de vida de figuras como Viktor Frankl, o psicólogo judeu prisioneiro em Auschwitz, e Alexander Soljenítsin, o dissidente do comunismo que transformou seu cárcere nos gulags em obra-prima da literatura. Também não podemos esquecer que o mais influente pensador de esquerda do século passado, Antonio Gramsci, compôs o grosso do seu pensamento dentro da cadeia de Mussolini.

Portanto, a idéia de direita — e a idéia conservadora —, não importando o cerceamento ideológico que reina aqui no império tupinambá, também pode aqui criar corpo. O muito comentado, pouco lido e ainda menos entendido Sir Roger Scruton, por ter uma relação muito especial com os países da antiga Cortina de Ferro, nos conta no primeiro capítulo de How to Be a Conservative (lançado no Brasil com o título Como Ser um Conservador, pela Record) a história de intelectuais em países dominados pelo regime comunista que, em meio ao horror vermelho, se reuniam em porões e pequenos apartamentos para dar prosseguimento às suas atividades intelectuais. Intelectuais como Béla Hamvas (foto), que, expulsos da universidade, tiveram que ir trabalhar como mão-de-obra sem qualificação em usinas de energia ou na lavoura. Esses pensadores, diz Scruton, estavam perfeitamente conscientes de que havia um problema muito maior do que o caos político vigente, havia algo ainda mais doloroso e traumático — um trauma de consciência. Esse, assim acreditavam, podia ser atenuado (mas não excluído) se houvesse uma chama de sentido acesa quando os regimes de esquerda fossem derrubados. E assim foi feito. O trabalho de consciência prosseguiu mesmo sob a sobra comunista. A Hungria e a República Tcheca, países visitados por Scruton, fizeram exatamente isso e se deram muito bem. Se hoje não nos referimos a essas duas nações como grandes potências econômicas, tampouco ouvimos falar deles como epicentros de crises políticas ou culturais. Budapeste e Praga, ao contrário do que diz o prefeito londrino Sadiq Khan, são duas metrópoles que não têm o flagelo do terrorismo açoitando suas costas.

Conservadorismo é mais que anti-esquerdismo

A idéia do conservadorismo transcende o momento político presente. Russell Kirk e Titus Burckhardt, para citar dois exemplos, já avisavam que o debate político do dia era uma parcela muito reduzida da abrangência magnânima que a idéia conservadora carrega. Se não há essa noção de transcendência, o potencial conservador se transforma em mero reacionarismo atávico e babão — e reacionarismo, ao contrário do conservadorismo, não tem nem um sentido abrangente de trabalho de oposição e muito menos um aparato de ordem transcendente em seu arcabouço. As posições que o reacionarismo toma — apesar de poderem ser manifestações de conservadorismo — são muitas vezes as mais fugazes possíveis e levam aos paradoxos mais curiosos.

O Brasil tem um grande movimento de fundo conservador (vocalizado em geral pelos mais jovens, como aponta Francisco Escorsim em seu recente texto na Gazeta do Povo) que por várias razões se enrijece e esfarela em mero reacionarismo. Sabemos que, baseado nas pesquisas sobre desarmamento, aborto, na popularidade do findo governo do moribundo (mas ainda influente) Partido dos Trabalhadores e em praticamente todas as idéias defendidas pelos partidos e agentes políticos de esquerda, o Brasil tem uma população que, em sentido genérico, pode se considerar como “conservadora” (e, no fundo, qual não é?). Mas não há uma organização a esse espírito. A população de impulso conservador fica à mercê da impressão mais fugaz, à mercê de hipnotizadores carismáticos com tendências messiânicas. O senso comum — destacado do conhecimento que só a cultura pode oferecer — nada pode contra um vampiro político propulsado pela força da mídia.

E aí está a chave do enigma. Como o Prof. Olavo de Carvalho insiste há décadas, a memória cultural brasileira foi raptada e não sobrou ninguém para servir nem mesmo de baú ambulante no deserto da ideologia. Para citar Escorsim de novo, o povo brasileiro está divorciado da sua cultura e do diálogo com os seus antepassados. Isso perverte toda a possibilidade de um conservadorismo que transcenda o momento político, já que não é possível que se aprofunde a visão fugaz que o momento fugidio nos apresenta.

Um exemplo: num cenário conservador, veria-se o tratamento que a direita auto-intitulada dispensa a Jair Bolsonaro com reticência, pelo menos. Reticência porque ver Bolsonaro como o messias político que precisamos é retornar à década de 2000, quando o país olhava Lula e seu crescimento econômico como a nossa tábua de salvação. Reticência porque messianismo político é o primeiro pecado que os desesperados cometem e é o asfalto da histeria política. E reticência porque já era tempo de saber que não basta colocar uma pessoa “de direita” na presidência de um país para sanar o delicado problema da dominação ideológica num país. Na verdade, não basta nem mesmo para sanar aqueles mais profundos, como corrupção e desmantelamento da máquina estatal. Quem não sabe disso é dorminhoco ou é cínico.

Essa é uma breve imagem do nosso conservadorismo. Nos falta o senso histórico e nos falta o senso cultural. O drama do conservadorismo brasileiro não se concentra na falta de jornais e publicações conservadoras, ou na falta de um partido que carregue esse nome e essa bandeira. O que realmente nos falta é o preenchimento da imaginação, que é a própria essência do esforço conservador.

É preciso que se preencha o “guarda-roupa da nossa imaginação moral”, para usar o famoso termo de Sir Edmund Burke, com as coisas que valham a pena ser preservadas, e esse é, acredito, um esforço sagrado. Para que se componha o guarda-roupa da imaginação moral é preciso que tenhamos um mundo inteiro nas nossas cabeças, e isso significa que precisamos saber profundamente sobre a maior das obras de Deus: a própria Criação. E é exatamente por isso que o conservador preza tanto pela manutenção das coisas: que pecado imenso é se esforçar para compreender a majestade da obra divina, somente para deixar que alguém que acredita saber mais do que Deus a destrua?

Só que nós, homens, temos um handicap. Nós não podemos, como Deus, conhecer as coisas em sua totalidade, tanto as coisas do futuro como as do passado. O homem só conhece as coisas que já foram feitas. Ou seja, temos que viver o passado através das crônicas e dos relatos do que se passou naquele momento quando aquelas ações eram executadas. Temos que abrir uma porta perceptiva para que se realize uma conexão fundamental com o melhor da nossa história — tendo a certeza de que esse trabalho não é para ser finalizado agora.

Logo se vê, portanto, que a tarefa conservadora é infinitamente complicada. O conservadorismo não foi inventado por um “Grande Simplificador”, um teórico que inventa um sistema de crenças no qual todo o funcionamento ideal do mundo está contido; o conservadorismo não foi inventado por ninguém. Talvez por isso seja tão difícil anunciar uma idéia conservadora para as massas: o pensamento conservador não oferece soluções e nem tem um plano; ele se desenrola no tempo, puxando o que há de bom no passado, tomando os grandes feitos como exemplo e preservando a liberdade para as gerações futuras. Antes de ver o mundo horizontalmente, o conservadorismo vê o mundo verticalmente, de cima a baixo, desde o topo do Logos até as profundezas do anticristo. No campo de imaginação conservador há só o drama da humanidade.

Uma esperança

É justamente a ausência desse espírito de meditação e imaginação que mencionei que nos impede de construir uma mentalidade — ou mesmo uma intelectualidade — conservadora no Brasil. (Claro está que mesmo que tivéssemos o espírito meditativo e a imaginação moral, ainda não estaríamos garantidos de que teríamos um conservadorismo poderoso. Não há receituário para as coisas da vida.)

Não é minha intenção criar uma prescrição médica para o lançamento de um conservadorismo verdadeiro no Brasil — de um conservadorismo que seja mais do que um batido tupinambá de antipetismo, idéias liberais austríacas e de conservadorismo anglo-saxão. Minha intenção é somente apontar algumas impressões de um movimento que ainda está em estado latente em nosso país e que precisa superar o simples e recalcitrante antipetismo de última hora (por mais que esse tipo de ação política tenha se tornado extremamente lucrativo desde 2013).

Mas no fim das contas, há uma esperança. Talvez esse desejo imediatista que há no coração do brasileiro de hoje o leve a fazer esse trabalho de investigação da realidade; talvez, chegando a fazer essa investigação, se perceba que existe um senso moral em cada um de nós que transforma a vida humana numa sinfonia de desejos, ações, esperanças e sonhos. Que o destino do homem é servir ao próximo, perdoar e estabelecer um amanhã que não seja ideal, mas livre, e que dessa liberdade germine o melhor possível dentro das nossas capacidades e dentro do mundo que nossos pais deixaram.

Conservadorismo é mais que usar gravata e andar de barba feita: conservadorismo é um compromisso do indivíduo com a ordem transcendente da Criação. É a manutenção do contrato entre os vivos, os mortos e os que vão nascer. O conservadorismo é a própria preservação do sentido da Criação. Falta que entendamos isso e o caminho é terrivelmente longo. Ele não começa hoje: vem do ontem e vai para no fim dos tempos. Portanto, como somos parte — todos nós — do drama da humanidade, algumas coisas nunca mudam e preservam sua atualidade para sempre.

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