Há quem diga que a decadência estética no cinema e nas artes chegou ao ponto de impossibilitar a contemplação da arte e da sua profundidade. A ênfase na imagem saturou nossa imaginação e comprometeu até mesmo a visão de mundo, da vida e de possibilidades da nossa existência. Este é um problema profundo e sério, mas que não pode ser enfrentado simplesmente pela negação de toda a cultura imagética do nosso tempo. Afinal, a sua influência danosa poderá ter ainda mais poder sobre nós se aceitarmos o julgamento meramente estético e deixarmos que as suas sensações nos distraiam da essência daquilo que ela pretende dizer ou representar. Com um olhar mais profundo, é possível que a ficção científica, por exemplo, nos ajude a compreender o mundo em que vivemos.

Gregori Wolfe, no livro A beleza salvará o mundo, traz uma visão um pouco mais ampla do que o já consagrado purismo dos conservadores tradicionalistas, dos quais ele mesmo faz parte. Uma verdadeira tradição, diz ele, deve se expressar em uma profunda linguagem, que abrange toda a diversidade de expressões universalmente humanas, falando ao homem universal e total. Ir além do nosso tempo demanda que transcendamos a barreira da estética. Isso não significa negá-la nem abstraí-la, mas abarcá-la.

A crítica presente nos filmes futuristas

Uma grande parte dos filmes de ficção científica de Hollywood, especialmente os futuristas, constitui-se de críticas às utopias totalitárias e administrativas que dominaram o ocidente. Essa crítica tem grande potencial de aprofundamento, o que pode levar até mesmo à nossa espiritualidade contemporânea. Se por um lado os roteiros nos parecem repetitivos é porque estas utopias e expectativas vivas da realidade não nos abandonam facilmente.

O que me chama a atenção é ver que uma grande parcela da juventude consome estes filmes apenas pelos efeitos gráficos e não os absorve minimamente quanto à crítica política e filosófica ali presente. Esses jovens vestem camisetas dos filmes, conhecem detalhes das suas histórias, mas na vida concreta repetem chavões comportamentais, vícios de expectativas de vida e adoração às utopias criticadas nas suas obras que são sua referência estética. O mesmo se pode dizer do desdém dos que se dizem conhecedores da cultura tradicional e dos clássicos, mas não sabem ir além do espetáculo gráfico do cinema de massa atual, assim como de toda a cultura de massa e a arte contemporânea. Assim como aqueles jovens consumidores, esses tradicionalistas atêm-se à superfície e julgam tudo pela sua incapacidade de aprofundamento, através de uma lente ofuscada ou por gostos estéticos ou por frases de efeito normativo.

A teologia cristã de Tron e o gnosticismo de Matrix

Deus é justiça e misericórdia. Quando O amputamos de um destes dois aspectos por nós reconhecíveis, revela-se Satanás. Ao imaginarmos um mundo só de misericórdia ou só de justiça, ansiamos pelo inferno. É assim que Tron representa o mundo digital, a grade, a exatidão utópica das ciências matematizáveis como ideal de libertação humana por meio da justiça. Satanás é a justiça de Deus e o inferno a sua instauração final e eterna. É a Verdade, quando divorciada do Bem. Na exatidão lógica e matemática não há espaço para bondade ou misericórdia, apenas para a perfeição imposta e obrigatória. Trata-se de uma das mais recorrentes tramas da ficção científica: almejando maior poder, o homem cria uma máquina que aprende e se desenvolve sozinha para efetuar uma tarefa humana até a perfeição. A máquina acaba concluindo que a perfeição só pode existir se o elemento imperfeito for destruído: o homem. A máquina neste aspecto representa o Demônio e essas tramas expõem o velho dilema de Fausto e seu pacto por poder. Mas essa nova versão do clássico amplia uma importante reflexão sobre a modernidade.

Kevin Flynn achava estar diante de uma “nova fronteira”. Tudo seria revisto com esta descoberta, “até mesmo a religião”, dizia ele. Os chamados usuários (os homens) são os senhores dos programas (as ideias, a abstração), que acabam sendo subjugadas no inferno pelo programa controlador “enquanto insistirem na sua devoção aos usuários”, disse em dado momento um dos carrascos digitais. Trata-se de um senhor das ideias – ou pai da mentira – que age sobre o mundo imaginário das teorias e desejos humanos, sequestrando-os para o seu mundo. Submete a jogos (de linguagem) mortais aquelas ideias que insistem em servir ao homem. O mundo digital, a grade ou as linguagens de programação, são a exatidão lógica das ideias puras. Puramente humanas, mas que se tornam independentes do homem acabando por subjugá-lo.

A rebelião das máquinas, tema tão recorrente, define-se como uma crítica à velha utopia moderna e à arrogância humana em pretender que o abstrato, as ideias, a matemática, liberte-o. Na verdade, escraviza-o e domina o mundo. Este mundo das ideias (a grade) é o oposto do mundo dos princípios platônico, porque é uma criação puramente humana, um simulacro do Paraíso. Criado pelo homem sob inspiração satânica para o aperfeiçoamento totalitário deste mundo. Este tipo de tradução da cosmovisão cristã na tecnologia ainda é visto no cinema, desde Tron até alguns filmes vistos como menos pretensiosos. Mas representou, em Matrix, uma tentativa de ruptura, ao sugerir que aquele mundo artificial nos dominasse de maneira irremediável a tal ponto que a realidade se tornasse quase inacessível, exceto por caminhos esotéricos. Tron não é gnóstico. Matrix sim.

Em Matrix, o mundo criado pelas máquinas é falso, mas incrivelmente se assemelha ao real. É uma recriação e sugere a suspeita sobre a realidade que vivemos. Os gnósticos acreditam que o deus mal nos encerrou em um mundo de aparências, do qual só podemos fugir por meio de conhecimentos secretos. Como diz Olavo de Carvalho, o gnosticismo nada mais é que a teorização de uma sensação marcadamente humana, a do abandono de Deus e o de que as impressões, aparências e sensações do mundo nos aprisionam de alguma maneira. Neste sentido, podemos tomar Matrix como uma obra poética, mas com alguma malícia para estabelecer certa confusão nas já confusas cabeças contemporâneas.

No livro A religião das máquinas, Erick Felinto fala do gnosticismo evidente de Matrix e sublinha essa escalada gnóstica já alertada por Eric Voegelin. A chamada cibercultura congrega profundos elementos deste tipo. Mas é possível encontrar sempre a crítica à modernidade, especialmente no sentido político, quando se observa o futuro retratado nos filmes futuristas. Blade Runner talvez tenha sido o mais clássico nisso e traduz a vontade humana da recriação da humanidade. O sucesso cult dos anos 80 estabeleceu a crítica do desejo de controle humano como novo paradigma da crítica pós-moderna à modernidade.

É escorregadia a fronteira entre a crítica de utopias modernas e a proposição de uma consagrada utopia sob o disfarce de crítica inovadora, marca da pós-modernidade. Embora seja sempre possível (e às vezes até positivo) extrair reflexão de velhas crenças heréticas expostas pelos pós-modernos, a distinção não deixa de ser algo essencial para se encaixar ou desencaixar uma obra do respectivo “debate” de vigências do nosso tempo e compreendê-la em sua complexidade. Matrix representa facilmente o fechamento das fronteiras entre o mundo das ideias e a realidade. E em algum sentido, um filme ou história que retrate perfeitamente a cosmovisão gnóstica pode representar uma crítica mais profunda, se não nos colocarmos na postura julgadora de quem teme ser influenciado.

É bem diferente de filmes como Avatar, que pode ser considerado uma propaganda aberta das utopias pós-modernas e anti-humanas, certamente encomendadas por seus engenheiros sociais.