O conservadorismo das cidades do interior

Recentemente, assombrados pela revolução cultural que assola o Brasil, o meio conservador cristão começou a fazer uma campanha para a debandada para as cidades do interior. No intuito de proteger suas famílias das avançadas agendas globalistas, essa parece ter sido a esperança lançada por muitos. De fato, é possível enumerar uma quantidade imensa de vantagens que são absolutamente reais e concretas. No entanto, junto dessa eleição do interior como morada adequada, surge também certo idealismo. Um idealismo que começou a relacionar o interior a modos de vida um tanto utópicos e artificiais. Estas ilusões provém, em grande medida, de um romantismo pelo interior que é bastante característico da grande cidade e do vazio que a circunda.

Sei que pouquíssimos lerão este post inteiro, já que o cenário do confronto cultural migrou para o Youtube, Facebook e outros lugares. Nas redes sociais é preciso usar uma linguagem um tanto rápida e um humor um tanto ácido para resumir uma série de referências, sentimentos e impressões que seriam impossíveis (ou tediosas) de expressar por lá. Pode parecer inacreditável, mas a temática em questão ofende alguns conservadores que fazem de sua atuação um reality show de vida exemplar ou um diário de suas normativas doutrinárias. Mas a escolha pela linha normativa ou dogmática pode ser ilusória: muitas vezes, o que está em jogo é uma mera escolha estética. A verdade é que a direita hipersensível precisa fingir escândalo e indignação moral diante de figuras de linguagem como ironias, sarcasmos ou simples piadas, porque teme comprometer os seus atalhos de julgamento que entregam a sua preguiça de pensar. Dito isto, vamos ao tema.

Uma série de crenças embasa a ilusão preferencial dos conservadores brasileiros em relação ao interior como símbolo do ideal da tradição como matriz de uma sociedade saudável. Não estou aqui a dizer que ela é completamente falsa. Mas não é exatamente verdadeira pelos motivos mais comumente alegados. A principal crença está na ideia de uma certa associação desses dois ambientes (interior e metrópole) com princípios de oposição entre sociedade moderna e sociedade tradicional.

A ideia de que as cidades do interior se associam à coletividade, cooperativismo, valores familiares (famílias numerosas) e manutenção de tradições, religião, enquanto a cidade representa futilidade, individualismo, carreirismo, estres, cultura de massa etc, é uma ideia bastante forçada e por isso questionável. Isso faz lembrar o debate entre Olavo de Carvalho e Alexander Dugin, no qual este último relacionava o Ocidente ao individualismo e o Oriente ao coletivismo e cooperação, esta relação pode ser facilmente invertida, bastando que visitemos concretamente as realidades dos dois ambientes. No caso do interior e cidade, essa associação existe porque os dois ambientes representam exatamente o contrário do que diz esse “preconceito” tão comum. Vejamos;

O que é a cidade grande?

A metrópole é uma organização humana fruto de cooperação e trabalho, com o objetivo de uma manutenção prática da vida de muitas pessoas e famílias. Justamente pelo efeito da proximidade obrigatória gerada entre as famílias e indivíduos, uma certa distância, frieza e individualismo surgem como defesa desse ambiente. É uma medida de sobrevivência baseada em um intuito compensatório. Ou seja, o individualismo existente nas cidades é uma busca por algo que naturalmente não é evidente, mas gerado por um efeito rebote, um cansaço natural do homem sobre o homem. Nas grandes cidades, a solidão individual domina os ambientes, dado o modo de vida mais afastado e egoísta que se adquire diante do contato exacerbado e da socialização onipresente. Torna-se essa socialização um ambiente natural e a solidão, o cansaço, o stress, um ritual de escape que se transforma ele mesmo num problema. Este fato objetivo da onipresença social cria os acúmulos de fatos subjetivos que dão origem às neuroses e os desejos incontidos, que por sua vez fazem aderir o homem a certo egoísmo cultural e também político. O foco no outro se torna prioritário, já que o outro é o símbolo do peso de toda a sociedade como força normativa sobre o indivíduo. Tal como explica David Riesman, o individuo alterdirigido (dirigido pelo outro) é característico da grande cidade. O homem massa, de Ortega.

A grande cidade carrega em seu caráter social a ampliação de uma conjuntura global, isto é, um tipo de laço de pertencimento com o mundo inteiro. O indivíduo da metrópole compreende uma complexidade social maior e acredita que precisa encaixar-se nela. Ao mesmo tempo, essa complexidade que obriga o pertencimento concede certa liberdade que é baseada no conhecimento de diferenças. O risco do homem da cidade é refugiar-se na subcultura do lugar escolhido por ele dentro dessa complexidade social, esquecendo-se da sua relação mais objetiva com a realidade, que é mantida pelo filtro da cultura de massa e da subcultura de maneira cumulativa e em espécies de camadas culturais. Mas o pertencimento a essa complexa estrutura demanda obrigatoriamente uma compreensão mais complexa, o que induz a uma postura relativista diante da vida. Tudo isso guarda uma relação íntima com o modo de percepção do tempo em ambos os ambientes. Um local em que mais acontecimentos são registrados e conhecidos, o tempo tende a passar mais rápido na percepção dos indivíduos e isso influencia na forma de apreensão de conjuntos de referências culturais. Na cidade, é mais fácil vislumbrar a diferença entre a profundidade vertical de um conteúdo e a sua complexidade horizontal, multiplicidade de expressões etc.

O que é a cidade de interior?

A cidade de interior simboliza a sociedade tradicional. Trata-se objetivamente de um conjunto de moradias mais ou menos organizadas em uma urbanização precária e com poucos recursos, distância maior entre propriedades, o que exige auxílio mútuo e acaba reforçando socialmente laços familiares. Em uma situação de precariedade de estrutura, é óbvio que será preciso contar com a ajuda dos vizinhos, parentes próximos e moradores locais desconhecidos. Essas cidades são o passado da metrópole e carregam em sua conjuntura material a busca e o desejo por suprir as necessidades humanas básicas. 

O indivíduo do interior tem dificuldades para visualizar alguma complexidade cultural maior do que os limites da cultura tradicional das sua família ou das famílias vizinhas. Quando compreende algum traço da cultura de massa ele não compreende todas as suas nuances e se decide adaptar a ela cria dela uma versão simplificada. Na verdade, o indivíduo do interior carrega certa apatia em relação à complexidade das subculturas que estão implícitas nas temáticas culturais que por ventura deseje se associar. Ao contrário da grande cidade, a estrutura urbana menor não propicia a percepção do tempo como um conjunto imenso de fatos conhecidos, mas está mais ligado à sazonalidade natural. A cultura parece não ser compreendida em profundidade quando em coletivo, mas apenas o indivíduo, quando esforçado em uma base bastante individualizada, tem condições de adentrar. Se o tempo nas grandes cidades está mais ligado aos fatos e às subculturas, no interior ele se remete o tempo inteiro à natureza, o que dificulta a profundidade maior em abstrações.

Isso interfere diretamente nas defesas culturais que uma sociedade tradicional tenha. Vou usar de dois dos exemplos nos quais tive experiência na adolescência: os jovens de cultura urbana estão encaixados cada um quase que perfeitamente em sua subcultura (rock, hip-hop, samba, etc). Suas roupas, subestilos musicais, temáticas de interesse, estão perfeitamente encaixadas, pois este pertencimento depende e coincide com o maior conhecimento da estrutura social e de suas problemáticas, temas ou “debates” internos daquele meio. A roupa com a qual um roqueiro decidiu ir na festa e uma noite específica foi uma referência a uma declaração de uma celebridade naquela mesma semana, com direito a nuances humorísticas e contraditórias feitas de maneira proposital, em uma rede complexas de referências mescladas com a definição do lugar ocupado por aquele indivíduo. Da mesma forma, a leitura de livros de um autor coloca o jovem da cidade em um mundo inteiro de referências e ele sabe, para além de qualquer dúvida, unir as referências de toda uma escola literária para compreender uma única obra. Tudo isso, evidentemente, existe em maior ou menor grau. Essa graduação complexa, por outro lado, quase inexiste nas cidades menores.

Na cidade de interior, o roqueiro usa as mesmas (duas ou três) camisetas de uma banda (da qual ele apenas gosta de uma única música que conheceu na rádio local) e isso o identifica como simplesmente um jovem distantemente rebelde, o que encarna de maneira muito dispersa a sua maneira de ser e falar: esta não difere de quase ninguém que ocupa aquele imenso espaço de terras que abrange sua cidade e as vizinhas. Da mesma maneira, a leitura de determinadas obras por um indivíduo da cidade pequena não o isola de nenhum grupo, pois só há um grupo que é a comunidade municipal e, dentro dela, a sua família, pertencentes um ao outro como camadas que repetem jeitos e julgamentos em um eco indissociável. A sociedade do interior é, por definição, provinciana. Isso significa que toda a complexidade do mundo concreto é simbolizada pela estrutura social da municipalidade.

Nas metrópoles há mais movimentos de esquerda enquanto no interior eles são em número reduzido ou inexistem

Esta afirmação é verdadeira, mas é preciso compreender o motivo disso e logo veremos que isso não é assim uma grande vantagem e o que está por trás é uma série de problemas. O ser humano construiu a sociedade em direção à ordem em oposição ao caos. A ordenação representa a conquista do poder sobre as condições de vida. A cidade representa o máximo da sua conquista, ao passo que as cidades menores ou o meio rural, uma conquista limitada e relativa, sempre mais dependente da sociedade humana do que das conquistas materiais alcançadas.

Você já deve ter percebido que o tipo de arte desenvolvido por tribos indígenas é geométrico. Os índios estão em um ambiente de caos, onde a natureza os transmite o tempo todo a incompreensão de suas leis e a imprevisibilidade, causando medo e confusão. Sua vida se baseia na organização do tempo e da rotina, colheitas etc, como uma luta contra o caos que vêem na realidade. Essa ordenação abstrata se reflete na arte e na maioria das religiões aborígenes.

A sociedade civilizada, ao contrário, quando atinge altos graus de organização material e controle das condições de vida, acaba desenvolvendo um tipo de abstracionismo caótico, como a arte moderna, por exemplo e o naturalismo. Buscar o retorno à natureza é um sentimento típico do espírito da civilização humana, que se cansa do contato humano, da complexa organização social que gera um relacionamento artificial com a realidade. Mas como o homem urbano não conhece bem o meio natural, exceto como utopia e idealização, cria sistemas ideais e ideologias, suposições sobre a origem do homem e o seu fim, o sentido da vida voltado para a natureza, o seu início, a sua origem. A busca pela origem e pelo sentido da vida é outra característica da civilização urbana e isso ocorre justamente pela sua condição objetiva de privação do contato com o meio natural. É por este motivo que utopias revolucionárias crescem nos meios urbanos. É o lugar preferido da depressão, do stress e do déficit de atenção devido a overdose informativa e cognitiva da propaganda e do consumo.

Já o meio rural não sente carência de sentido, pois as questões materiais e necessidades do dia-a-dia o ocupam. A origem do meio rural está no assentamento humano primitivo, onde se precisava caçar e estruturar a aldeia o dia inteiro para se ter um mínimo de conforto à noite. Ter comida e emprego muitas vezes é suficiente para uma vida tranquila e relativamente sem preocupações. As pessoas da pequena cidade, aquela que fica longe da capital, não têm grandes pretensões profissionais e espelham-se nos próprios vizinhos ou cidadãos de relevo da cidade.

Mas a ausência de movimentos revolucionários nas cidades menores se deve a um fator muito interessante: não há na vida e na realidade interiorana um lastro real que torne verossímil a maioria das reivindicações de movimentos de esquerda. Muitas vezes não há grandes problemas de exploração trabalhista ou condições de trabalho que não possam ser resolvidos facilmente e qualquer reivindicação ou protesto vai concorrer para resolver o problema pontual e não gerar uma discussão intelectual que envolva mudanças estruturais maiores. Isso, porém, não impede que a revolução dos costumes se alastre em cidades pequenas. E isso se deve principalmente à inserção dos meios de comunicação. O agricultor de hoje tem 12 irmãos, mas apenas um ou dois filhos, graças à propaganda nas novelas e programas de TV. Digamos que esse agricultor tenha duas filhas adolescentes. Elas provavelmente assistem Malhação e são completamente a favor do aborto e são avançadas em temáticas de gênero. E o mais importante: os pais, familiares ou vizinhos, não têm NENHUMA defesa contra a entrada dessas ideias. E isso por um motivo muito simples: são pessoas tradicionais, mas não tradicionalistas. Elas não sabem e nem vêem necessidade de reagir contra um mundo moderno. Por isso, embora pareça bucólico e até romântico visitar uma linda cidade interiorana cheia de paisagens naturais e belas, a sua sociedade já está, no Brasil, completamente degradada. Além disso, assim como o aborígene que cultua arte geométrica, a busca pela ordem em oposição ao caos e à dificuldade de se lidar com a natureza, faz das pessoas interioranas bastante afeitas à ideias novas, principalmente quando venham da “grande cidade”. Representam a ordem, o controle, a segurança, o progresso.

Na cidade, com toda a movimentação universitária e os debates acadêmicos, confrontos ideológicos etc, faz das pessoas aptas a identificar suas aptidões e seus ideais mais claramente. Embora o ambiente social seja carregado de ideologia mesclada com a informação, a sobrevivência na grande cidade depende justamente da conquista da aptidão para diferenciá-los. O cidadão da grande cidade pode estar perfeitamente integrado no debate, sendo ele favorável o não aos temas elencados. Mas o cidadão do interior dificilmente consegue captar a abrangência do que envolve os assuntos tratados na grande cidade. Mas estes adentram fundo no meio rural e do interior, deixando um rastro de influência e transformação social nessas cidades. As defesas contra as pautas modernas e urbanas inexiste no interior, já que recebem tudo como novidade e modernidade relacionada ao progresso.

Considerações finais

A fuga para o interior faz parte de um medo e um desejo de refúgio e segurança da complexidade que esmaga o indivíduo e a vida familiar nas grandes cidades. Se por um lado parece ser necessária a fixação de bases de resistência no interior, a permanência no local central de onde vêm os debates que vão transformar a sociedade parece mais necessário. As agendas progressistas do Brasil estão de fato mirando no interior, onde ainda resiste certa vida tradicional por desconhecimento das “vantagens” progressistas, como dirão eles. Mas é na imersão aos debates e na compreensão mais complexa de suas fragilidades (o que só pode ser feito no habitat natural deles) parece ser a única maneira de saber lidar com suas temáticas. No interior, onde aparecerão com roupagens bastante afáveis, não é tarefa fácil convencer as pessoas da perversidade moral do progressismo que se vê como tutor da humanidade, ao passo que na cidade é possível deixá-los, como diz Olavo de Carvalho, sem forças e sem vontade de lutar. Evidentemente, este texto se define como um alerta de determinados exageros e não a condenação da opção pelo interior, que deve ser tomada com dialética e não dogmatismo que se baseia em crenças discutíveis, como tentei refletir aqui.

 

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  1. Alisson S Emiliano

    Como parte desses pouquíssimos que leram, esse artigo explica claramente a diferença entre a cidade de interior e a metrópole, os seus costumes, como o ambiente atinge o intectuo do sujeito, a fragilidade do tradicional, entre outros. Ótimo artigo, me trouxe uma ótima reflexão.

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