Uma atmosfera de desconfiança, ceticismo ou mesmo adesão fanática a determinadas crenças pode ser um resultado colateral das novas expectativas pós-modernas baseadas na desconstrução, relativismo moral e no resultado natural do caos social promovido pela ação de agentes transformadores

Não tenho dúvidas quanto a importância histórica da mudança de função dos meios de comunicação, que foi da informação para a transformação, conforme busquei deixar registrada em meu livro A transformação social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016). Compreendida essa realidade, tão presente quanto persistente em nossos dias, torna-se inescapável a observação e consideração da realidade criada por esta mudança, ou seja, do seu efeito. Estamos presenciando uma decadência sem precedentes na credibilidade dos meios de comunicação, que se apresentam como portadores de um conjunto de crenças baseadas nas expectativas mais clássicas da modernidade e de uma mentalidade revolucionária que não é compartilhada pela maioria da sociedade em estado natural.

Assim como a emissão se tornou transformadora, também a recepção ficou sem outra alternativa.

Esta verdadeira ruína de esperanças e de confiança tem sido resumida, talvez de maneira improvisada e provisória, como o surgimento de um movimento conservador. Mas esta é uma visão que parte do ponto de vista do revolucionário. Do lado do conservador, o que há é uma tomada de consciência, uma reação natural a mudanças arbitrárias.

João Pereira Coutinho resumiu o conservadorismo como uma força natural e humana que surge em momentos de crise e decepção com algumas capacidades de organização e controle arrogadas por elites revolucionárias, baseadas na concentração de poder. Embora deva existir um conservadorismo permanente, que possa existir mesmo em sociedades pouco ou nada revolucionárias, não há como fugir do fato de haver um crescimento incrível de ideias e posturas conservadoras justamente quanto mais utopias e atividades revolucionárias se imponham à sociedade como soluções hegemônicas, como acontece em nosso tempo.

Mas chamar tudo isso de “renascimento conservador” pode ser um resumo um tanto superficial ou, como eu disse a pouco, relativo ao ponto de vista da oposição meramente política (que também é cultural) e não de uma perspectiva histórica e civilizacional. O que de fato estamos vivendo parece ter origem nos efeitos naturais da abrangência de ação da função transformadora, marcada pelo surgimento das forças de resistência à transformação. Reação, segundo os revolucionários, é tratada quase como doença. O reacionário é aquele que tem medo. Já o revolucionário alega reunir nele o monopólio da coragem e da independência diante de forças conservadoras como o dinheiro. Mas não devia parecer muito corajoso adequar-se tão confortavelmente às mesmas utopias de elites financeiras globais, que despejam rios de dinheiro em ações sociais pelo mundo, do establishment midiático com seus shows de elogio à transformação, e do estamento burocrático inteiro de países como o Brasil. Receber indenizações, bolsas e financiamento internacional ou usufruir do vitimismo automatizado que a mídia oferece a determinados grupos, não parece ser uma definição adequada de coragem e independência, mas antes de covardia, insegurança e intolerância furiosa contra qualquer reação aos seus privilégios e às mudanças de um paraíso prometido. É fato que este tipo de transformação social cria uma geração de mimados.

Mas o ponto que pretendo levantar é outro: o cidadão comum, diante da insistência transformadora, vai naturalmente direcionando-se à reação. Mais do que isso, a sua forma de atuar contra uma série de dificuldades impostas por esta transformação social pode criar um novo caráter social, não pensado pelas utopias transformadoras revolucionárias, mas que as pode ajudar em alguma medida. Uma atmosfera de desconfiança, ceticismo ou mesmo adesão fanática a determinadas crenças pode ser um resultado colateral das novas expectativas pós-modernas baseadas na desconstrução, relativismo moral e no resultado natural e esperado do caos social.

Caos informativo e a sociedade da desconfiança

Desde o telégrafo, o correio, passando pelos avanços dos transportes que possibilitaram maior agilidade na informação, até chegar na velocidade da transmissão de dados via internet, todo o sistema informativo pode ruir numa fração de segundos: no instante mesmo em que o leitor, diante do site de um grande jornal, se dá conta de que pode estar sendo enganado.

Os meios de comunicação tradicionais, cuja concepção transformadora se mostra cada dia mais evidente ao seu público, começa a sofrer mudanças na forma de recepção. Mudanças que começam sutis, talvez pouco perceptíveis, mas que apontam para um abismo informativo que coincide com o tamanho da estrutura informativa estabelecida desde o início das comunicações sociais.

Trata-se aqui da observação de um outro lado da transformação social: a recepção.

A mudança ocasionada na recepção vai muito além da pretendida pelos transformadores e engenheiros sociais, embora eles estejam contando com as vantagens que podem obter dos cenários mais devastadores.

Em primeiro lugar, o ceticismo totalizante, as teorias conspiratórias. Em segundo, no mesmo sentido, a adesão fanatizante a teorias e explicações ocultistas: o ressurgimento da concepção informativa segundo a qual a verdade está sempre escondida e basta estar escondido para ser, automaticamente, verdadeiro. Este critério de veracidade, pela própria multiplicidade de coisas ocultas existentes, dá vazão a uma infinidade de grupos, seitas, comunidades e movimentos que se dirigem contra um inimigo comum: o sistema de mentiras, a vida apresentada como ficção, a Matrix.

Terra Plana e Deuses Astronautas

Um dos exemplos mais claros deste tipo de mudança pode ser a recente teoria da Terra Plana, que tem ganhado adeptos e muitas visualizações no Youtube, mas começou em grupos fechados de aficionados pelo oculto. Oriunda dos grupos de discussão sobre aparições de OVNIS, essa teoria se assemelha na incerteza afirmada como certeza. Ausência de evidências, para eles, é evidência de ausência. A proposta da ufologia como ciência é tão contraditória quanto risível. Uma ciência cujo objeto de estudo é desconhecido não pode ser uma ciência, ao menos não no mesmo sentido do conceito conhecido de ciência, um conceito certamente a ser desconstruído como conspiração global — é evidente aqui que para tamanha aventura imaginativa é preciso não só um desconhecimento como uma obstinação em ignorar os reais agentes por trás de propostas como a Nova Ordem Mundial. Uma proposta com tamanha fartura de provas e documentos dos próprios agentes políticos incumbidos da missão, com uma infinidade de livros a respeito, acaba sendo transformada em “teoria conspiratória”, devido simplificações grosseiras e, no fundo indiferentes, em figuras alegóricas como “os EUA”, “Os Iluminati” ou “a maçonaria”, quando não os “reptilianos” etc. Há décadas que a Nova Ordem não é mais uma teoria, tampouco uma hipótese, mas uma realidade assumida pelos seus agentes, espalhados por diversos governos e entidades. Diante de imensa bibliografia, porém, parece mais sedutor ficar com canais de Youtube, sites ou páginas de revistas pseudo-científicas.

No caso da Terra Plana, o princípio fornecedor de pressupostos e premissas é a fé na Bíblia, que segundo eles traz a afirmação da planicidade terrestre, o que parece não ter sido interpretado dessa forma ao longo de dois mil anos de cristianismo, com a exceção sintomática de seitas de ocultistas extintas pela própria Igreja Católica ou pelas igrejas protestantes. Evidentemente, os apoiadores destas teorias não hesitam em atribuir a todo tipo de instituição a construção e manutenção argilosa de uma imensa rede de mentiras. A fé fundamentalista, que provém de uma tendência racionalista e sistemática, nasce no espírito de seitas protestantes que se aventuravam a interpretações literais dos textos bíblicos. A novidade dos nossos tempos é a adesão de católicos a teorias conspiratórias, cuja crença só pode ser explicada mediante pressupostos racionalistas de origem iluministas, somados ao jornalismo da Superinteressante. O desejo de se assemelhar ao estamento científico faz dessa teoria um arremedo de ciência, com dados e gráficos que dizem absolutamente nada em uma linguagem técnica que tenta passar a ideia infeliz de estar transmitindo alguma coisa. Há erros tão grosseiros quanto inimagináveis nos vídeos dos terraplanistas. Noutro momento podemos nos ater a eles.

Tanto a ufologia quanto o terraplanismo, exemplos autoexcludentes que representam nossa era da incerteza convicta, necessitam para manterem-se de pé, da suspeita totalizante sobre tudo, o que flui naturalmente diante do compromisso transformador e manipulador da comunicação social contemporânea. Mas engana-se quem pensa que esta seja uma consequência infrutífera para a engenharia social revolucionária: eles sabem perfeitamente que a sua insistência em mentir dará origem às mais abrangentes e mirabolantes suspeitas teóricas. Eles sabem perfeitamente que nem todo mundo está preparado para suportar a submissão ou dependência informativa a um sistema que tenta os manipular o tempo todo. Eles sabem que a maioria das pessoas irão se agarrar a certezas negativas e convicções de incertezas, enquanto poucos ou quase ninguém fará o esforço de estudar pacientemente conceitos que estão por trás dos agentes, como o poder, noções de ideologia, de organizações grupais, psicologia social etc. Para isso, porém, será preciso manter algo de permanente e certo. A tentação imposta aos inseguros em um mundo de engenharia social é a da desistência, apatia e cansaço, que culmina no desprezo total do conhecimento. Eis o cenário perfeito para os engenheiros sociais. Criar inseguros é a receita certa para impor o caos informativo e, depois, oferecer-se como única e derradeira solução.

René Descartes, o pai da ciência moderna, propôs o estado de dúvida como método científico. Esta proposta não apenas se encarnou no método mas nos indivíduos da modernidade que acreditava na possibilidade das certezas totais. Foi a essa tensão que foi acrescida a neurose pós-moderna.

Só é possível ver a sombra da solução para isso

Em uma atmosfera de ruína da credibilidade informativa, como vivemos, poderão haver tantas concepções geopolítica ou cosmológicas quanto pessoas na face da Terra. A certeza sobre cada uma delas é relativa e dependente de uma série de construções narrativas, todas elas baseadas na incerteza do sistema de informação. As mentiras da mídia são o combustível das explicações mais diversas desde a política regional à estrutura da realidade cósmica. Pior que o caos social ou moral que vemos todos os dias sendo construído por engenheiros sociais, é o caos informativo que pode tornar os indivíduos átomos perdidos no espaço, na transitória hipótese de existirem átomos e espaço.

Desconectado das antigas cosmologias, que foram trocadas pela ciência materialista e o estado de dúvida metodológico, o ser humano se viu obrigado a confiar na sua racionalidade e no empirismo experimental. A credibilidade desses instrumentos naturais foi transferida às comunidades científicas e ao aparato político consequentemente. O indivíduo, com isso, perdeu o contato consigo e com a própria percepção natural, que vai além do empírico e repetível das ciências. Se a confiança nas instituições midiáticas ou científicas está abalada, isso é devido o abalo muito mais profundo da sua relação consigo e com a realidade, o que tem como exemplo a concepção dualista do homem (corpo e alma).

Depois de ter depositado todas as suas expectativas e apoiado todas as suas crenças nestas instituições, a percepção da perda delas pode ser pesada demais. Talvez falte ao homem contemporâneo a presença real e concreta do fato de sua orfandade natural. O ser humano é o único animal que não está adaptado a nenhuma realidade terrestre. No frio precisa esquentar-se, no calor precisa refrescar-se. Aqui não há conforto.

O professor Olavo de Carvalho insiste há anos na necessidade do que ele chama de tolerância com o estado de dúvida. Esta é a única maneira de obter alguma orientação e meia dúzia de certezas suficientes. Um dos motivos da crise das certezas é o desconhecimento do que elas sejam. Ter certeza é algo concreto, profundo, abrangente e que concede uma imensa força ao ser humano. Mas ela só fortalece quando provém de um movimento em direção ao imutável. O homem concreto necessita de poucas certezas, mas certezas tão profundas que nossa mente racional jamais poderia abarcar.

A verdade é que a certeza buscada hoje não é certeza de maneira alguma. Buscar a coisa errada é o primeiro passo para se buscar no lugar errado e a receita mais certa para não se encontrar coisa alguma. Ou, na hipótese mais comum, agarrar-se a um símbolo que justifique o anseio frustrado.