É comum ouvirmos falar em crise de masculinidade, causada por uma série de fatores culturais e históricos, além de intencionais projetos de engenharia social. É fato inegável que há uma dificuldade nos homens atuais na compreensão do que seja a masculinidade. Mas a origem do problema pode ser bem mais profunda, uma cisão entre indivíduo e realidade que impede o conhecimento de si e do mundo, o que invariavelmente irá se manifestar em papéis sociais. Tal crise parece ser tão profunda e difícil que quem quiser combatê-la poderá estar apenas fornecendo mais uma das tantas manifestações do mesmo problema.

Eles não vão concordar quando você disser que a “oficina de masculinidade” que carregam orgulhosamente no peito é apenas um manual de etiqueta (diminutivo de ética: ética medíocre ou fingida) que só guarda relação com masculinidade na forma analógica que une um Papa reinante a um cafetão vestido de padre a pular o carnaval da Bahia. Não vão concordar porque o que lhes falta é cognição: estão à beira de um ataque de nervos e não têm tempo nem vontade de pensar sobre quem realmente são.

A crise dos papéis masculinos e femininos acaba gerando problemas sérios de identidade e sensibilidade, chegando ao ponto de afetar até mesmo a cognição das novas gerações. Mas será mesmo que o ponto inicial, a origem do problema, é a dúvida ou não entendimento dos papéis ligados aos sexos? A Teoria (ou ideologia) de Gênero, como sabemos, define os papéis sexuais como determinados pela família, ao passo que os defensores da família natural concedem-na apenas parte dessa responsabilidade, que é dividida com o próprio fato biológico, complementado psicologicamente. Afinal, se a percepção do próprio sexo depende, em alguma medida, de uma estrutura social (a família) para a sua efetivação, além do próprio fato biológico, parece-nos evidente que a crise nos modelos familiares também influencia essa condição ambígua que tem feito com que jovens e adultos retardem a descoberta, não apenas do próprio sexo (o que naturalmente acaba por acontecer sem grandes obstáculos intransponíveis), mas do sentido da própria vida, um problema bem mais grave e causador de todos os outros. Uma família desestruturada, que significa ambiente social de estrutura ambígua, tende a pressionar o indivíduo na direção de um relativismo moral e, por consequência, ao distanciamento da realidade objetiva em que indivíduo e realidade estão irremediavelmente inseridos. Famílias desestruturadas geram filhos desatentos, distraídos, inseguros e confusos, o que pode se apresentar por uma concentração desordenada e fanática, apego a imagens de força, certezas avassaladoras e insensibilidade extrema. Uma crise de sensibilidade seria mais adequado para descrever nosso drama contemporâneo, como diria meu amigo Tiago Amorim, em seu inquietante livro O Coração do Mundo.

A desilusão com a estrutura familiar tem gerado a sua negação, boicote ou combate. E é evidente que a atitude de negação dessa estrutura social acaba por se tornar uma negação da própria realidade externa ao indivíduo e ao isolamento abstracionista manifestado por um relativismo moral. Pior e mais devastador do que um relativismo moral que apenas busca libertar-se de códigos morais vigentes, porém, está o risco de relativizar a própria existência como pressuposto: a vida abstrata, isto é, baseada em sistemas ideológicos, produz sentidos e valores artificiais que são, no entanto, aplicados à realidade concreta dos fatos da vida, em indivíduos existentes e não ideais: se aplicar os valores naturais em situações naturais já gera problemas o bastante, imaginemos os problemas gerados ao aplicarmos valores artificiais a uma realidade natural. A ampliação de tensões como esta cria monstros que legitimam uma vida inteira de mentiras sustentadas a altos custos pessoais, perdas irreparáveis na capacidade de contato consigo mesmo. Mas ao contrário do que muitos pensam, os monstros nem sempre aparecem como relativistas morais, pois também podem se apresentar como idealistas morais: os moralistas reacionários.

A cultura de resistência que se baseou na crítica constante do relativismo por meio da afirmação absoluta daqueles valores negados acabou criando um outro idealismo: contra o relativismo, a arma preferencial parece ser a repetição literal dos códigos morais tradicionais como se fossem discursos, deixando de lado ou esquecendo-se de que estes códigos são produtos finais oriundos de uma estrutura moral intimamente ligada à estrutura da realidade como ela é. Deixam de lado o “como é” para apegar-se ao “como deve ser”. Perde-se com isso o interesse pela realidade, preferindo o mundo das doutrinas normativas, tanto morais quanto éticas, políticas etc. O pressuposto da postura normativa é o mesmo do relativismo: transformar o mundo é mais importante do que conhecê-lo. Evidentemente, alguns dos seus defensores carregam consigo as certezas absolutas, especialmente sobre uma certa estrutura de organização do mundo.

Moralismo conservador: a outra face da subversão

A resposta para o problema do relativismo moral, que se traduziu em uma espécie de cultura da subversão, ressurge como uma cultura de resistência à subversão. Essa resistência, porém, constrói-se sobre uma base subversiva e idealista e em um ambiente de culto a discursos, sistemas lógicos e doutrinais. A oposição à subversão converte-se, ela mesma, numa subversão da realidade ao reforçar a realidade como dependente de determinada matiz discursiva, lógica e doutrinal, distanciando ainda mais o indivíduo dessa realidade. Em situações normais, é o indivíduo que se relaciona com a realidade, expondo ou traduzindo sua sensação ou relação em palavras que podem ou não serem organizadas em uma doutrina ou sistema lógico, de função meramente expositiva a indivíduos, aos quais se supõe estarem habituados ao contato com ela. O moralismo conservador acaba centrando-se nas condutas que possam ser exibidas externamente, como em código de etiqueta (etiqueta = pequena ética), com potencial de indicar “algo” de moral.

Outro fator atuante neste moralismo idealista é o estetismo. Os “valores” defendidos são os que melhor se parecem, que mais associem o sujeito aos “velhos hábitos”, “de raiz”, de velha estirpe ou tradicionais. Essa preferência pelo que é antigo, dito ultrapassado pela modernidade, causa ainda uma outra anomalia, à qual queríamos chegar: a imagem do homem. Sendo o “verdadeiro homem” o antigo, o tradicional, e considerando a impossibilidade ou distância do homem moderno daquele, fica o ideal de masculinidade submetido a um fetichismo ou imitação superficial de trejeitos, vestuários e modos de comportamento.

O ponto de vista deste artigo é, evidentemente, o valor interno dos expedientes comportamentais e não, como alguém poderia pensar, no valor objetivo que se tenta encarnar com comportamentos ou indicações verbais. Pode parecer estranho ter de explicar isso, mas se estamos falando a pessoas que confundem-se com valores é óbvio que há confusão também nisto: quando falo em tradicionalismo ou moralismo, obviamente não me refiro aos significados de tradição ou moral como se entenderia universalmente, o que necessitaria um estudo aprofundado que não é o caso. Busco apenas suspeitar do entendimento destes valores por meio do comportamento e discursos que temos visto.

Ideologia de Gênero e as masculinidades

Estudiosos das teorias de gênero também perceberam uma mudança nos padrões masculinos e femininos, o que embasou grande parte de sua militância subversiva de desconstrução desses papéis. As modas masculinas dos últimos anos visam, como as femininas, desconstruir os estereótipos a partir da sua superexposição, de modo a desgastá-los a partir do reforço aos estereótipos. As barbas volumosas da moda hipster, unidas a penteados exóticos além da volta do uso do bigode, trata-se de um retorno à irônica apropriação da imagem tradicional masculina, mais ou menos como a moda gay dos anos 80 (macho-man), que hoje aderem aos arranjos de ridicularização dos estereótipos, na linha do ativismo performático de Judith Butler e seu método de destruição da linguagem. A linha mais andrógina comum nos anos 80 e 90 não fazia outra coisa além de negar o estereótipo igualando homens e mulheres, com fins na anulação de diferenças. Agora, o foco está na diversidade e possibilidade infinita de combinações e aleatoriedade de gêneros. “Há tantos gêneros quanto pessoas”, diz Butler. Quanto mais típico e tradicional for a imagem de homem e de mulher, maior o seu potencial para a combinação com seus opostos e ironias, em um movimento que aproveita-se da força do oponente para derrubá-lo. Em nome da subversão total, o exotismo sob demanda, sob desejo e escolha individual, passa a ser a arma mais poderosa contra a objetividade e universalidade tanto do homem quanto da mulher.

Ao lado dos estudos de gênero ligados ao feminino e aos direitos da mulher, mesmo que digam não existir essa objetividade chamada mulher, há um campo de estudos chamado Masculinidades. Uma adaptação da teoria Queer para os homens. O homem Queer equivale ao travesti, homem trans, cujo adereço principal é a barba volumosa bem feita, em um estilo que remeta à masculinidade tradicional. Trata-se de um campo que permeia a antropologia do ser masculino, questionando os padrões estabelecidos. A prova disso é que este padrão foi assumido por toda a indústria da moda, que o reforça a partir de sutis associações com o mundo gay. Tão sutis que dificilmente seriam percebidas pelos jovens reacionários duvidosos da própria e alheia masculinidade. A imagem da barba volumosa e bigodes em formato século XIX fazem parte de uma atitude irônica, um tipo de linguagem dificilmente percebido por quem está no centro de um turbilhão de inseguranças.

Ora, uma corrente que se nutre do questionamento dos padrões não pode prescindir de imagens tradicionais para contrapô-los à sua desconstrução. As barbas volumosas podem ser mais eficientes quando aparecem junto a adereços contraditórios como coques no estilo samurai, tranças ou maquiagem feminina, em um protesto mais do que evidente contra a própria ideia de masculinidade ou feminilidade. Mas também são utilizadas pela juventude insegura, numa atitude de reforço da masculinidade e negação da semelhança andrógina entre homens e mulheres, um inimigo que ficou para trás. Assim, tal resistência não tem outro efeito senão o reforço da distinção efêmera entre homens e mulheres, aquela mesma que aguarda uma associação contraditória e irônica.

Nos anos 60 e 70, época em que John Lenon usava uma volumosa barba, o estilo era um questionamento do mundo dito civilizado, do homem “almofadinha”, opondo um homem desleixado e um elogio aos modos mais ligados à natureza, ao natural. Já neste período, porém, a masculinidade nada tinha a ver com força ou virilidade, mas com sensibilidade exacerbada, o que só aumentou nas décadas seguintes. Uma sensibilidade que foi se tornando cada vez mais superficial, até chegar na sua negação. Já o metrossexual contemporâneo é o estereótipo masculino permitido em uma época de síntese entre o hippie e o andrógino homem sensível: o hipster. Homens modernos, que vivem em apartamentos e grandes cidades, não têm como manter uma volumosa barba sem grandes cuidados (exceto se forem mendigos), daí o surgimento de serviços estéticos que imitam os tradicionais barbeiros, uma espécie de barbearia gourmet, frequentados tanto por casais homossexuais barbudos, performáticos das masculinidades, como por jovens metrossexuais sedentos por afirmação de algo que sente perdido e confuso em meio a uma subversão cultural de proporções jamais abarcadas pela sua insegurança juvenil.