Por meio de duas teorias pode-se ampliar o foco da transformação social vigente, revendo nossas mudanças e antevendo futuros rumos do mundo. Primeiro, a Espiral do Silêncio, de Elisabeth Noelle-Neumann (publicado por Ed. Estudos Nacionais, 2017). Depois, a dissonância cognitiva, de Leon Festinger. Ambas dizem respeito ao mesmo processo: a conformação ou consentimento da alma humana através da mudança ou adesão de opinião. Ambas transformam a sociedade naquilo que os manipuladores das teorias desejam.

Toda teoria é uma estrutura abstrata, um esquema que deseja reproduzir um aspecto da realidade. Mais precisamente, uma teoria se traduz melhor no tempo, isto é, no curso dos acontecimentos, expondo o comportamento concreto dos entes envolvidos de modo a prevê-los razoavelmente.

Resumidamente, a espiral do silêncio diz respeito ao fenômeno da decisão individual no sentido de uma declaração ou silêncio em favor de determinada opinião. Tanto uma palavra quanto o silêncio pode favorecer uma linha opinativa e a isto chamamos adesão. A adesão a determinada opinião é o objeto de estudo da teoria da espiral do silêncio. Isto é: por que alguém opta por uma opinião e não outra? A resposta, segundo Neumann, é o medo do isolamento social. Este medo está na raiz da decisão de expressar uma opinião ou silenciar-se sobre ela. E o principal fator atemorizante é a aparência de que a opinião conta com maioria numérica. Quanto maior a percepção de maioria em torno de certa opinião, maior a chance de adesão voluntária. Sendo assim, mesmo uma aparência ilusória de maioria terá o poder de produzir adesões voluntárias ao menos passivas. Afinal, a verdadeira opinião do indivíduo continua oculta sob uma espiral de silêncios e ninguém a conhece.

Mas para uma transformação efetiva de parte da sociedade (ou de um público específico) seria preciso uma adesão ativa, isto é, uma classe de pessoas dispostas a agir em favor das opiniões de que estão convencidas profundamente. O convencimento mais profundo só pode ser gerado por um comprometimento ativo, maior e mais duradouro do que o simples medo de perder amigos.

Seria preciso que a adesão a uma ideia carregasse em si uma compensação interna, maior do que o medo do isolamento, que é externo. Então acontece o seguinte: o silêncio feito sobre uma opinião, ou a mera declaração em favor dela, se transforma noutra coisa. O confronto, a tensão entre aquela opinião verdadeira que ficou presa na espiral de silêncio, com a declaração externa ou o silenciamento “covarde” da própria opinião, vão criando uma sensação insuportável. A culpa pela covardia do medo do isolamento, seja pela omissão seja pela mentira pura e simples, começa a gerar uma tensão que não é possível suportar. Sendo o medo do isolamento social um muro intransponível, só uma coisa pode ser feita para gerar algum alívio dessa verdadeira dissonância cognitiva entre opinião silenciada e declarada: justificar-se utilizado os argumentos em favor da opinião declarada.

Está feita a mudança que vai além da declaração e do silêncio. O indivíduo passa a defender, fugindo da dor intensa produzida pela dissonância, todo o sistema de ideias que sirva para justificar aquela opinião uma vez percebida como majoritária. E quanto maior a força com que luta maior o alívio. O indivíduo busca alívios sociais alistando-se em grupos defensores daquelas opiniões, à procura das melhores justificativas. Vínculos sociais tornam-se anestésicos eficientes para o eficaz esquecimento da tensão com as velhas ideias abandonadas. Ideias largadas sem qualquer confronto racional, mas devido um mecanismo de compensação psicológica gerado por um constrangimento social externo, um simulacro de maioria, cuja força produz um novo militante, um novo ideólogo.

Com base neste mecanismo, tanto o marketing de produto quanto o político ou ideológico, criam legiões inteiras de ativistas que lutam mais contra si mesmos do que em favor de alguma coisa. A sobrevivência passa a depender de um maior grau de desconhecimento de si mesmo. Novas justificativas são criadas e um processo massivo e infinito de construção de subterfúgios passa a desempenhar a função de mediador social, sendo o princípio organizador de toda uma estrutura de movimentos sociais e mecanismos políticos.

Diante disso, nada pode se assemelhar mais a um castelo de areias do que o ideal democrático, baseado em uma abstração apoiada na crença de que se pode governar um país por meio do confronto saudável de opiniões e ideias. Por este motivo, Edward Bernays, o pai da propaganda, dizia que o progresso dos direitos se tornaria o paraíso da manipulação, onde o único real direito por trás de todos é o da persuasão psicológica. Todos os meios de resistência a estes mecanismos são, tão logo descobertos, considerados hábitos antissociais e, portanto, perigosos.

Cristian Derosa (Editor do site Estudos Nacionais — estudosnacionais.com)