Podcast: Igreja e sociedade

Podcast sobre Igreja e Sociedade:

Áudio em resposta às dúvidas do amigo Eduardo Lopes e seu grupo de católicos sobre a relação entre a Igreja Católica, os católicos, o mundo moderno e a política.

  1. Relação entre Igreja e mundo moderno
  2. Catolicismo no Brasil
  3. Sociedade católica e a ideia de “progresso” ou sociedade “atrasada”
  4. É possível um “estado católico”?

 

Conspirações e outros efeitos da recepção transformadora

Uma atmosfera de desconfiança, ceticismo ou mesmo adesão fanática a determinadas crenças pode ser um resultado colateral das novas expectativas pós-modernas baseadas na desconstrução, relativismo moral e no resultado natural do caos social promovido pela ação de agentes transformadores

Não tenho dúvidas quanto a importância histórica da mudança de função dos meios de comunicação, que foi da informação para a transformação, conforme busquei deixar registrada em meu livro A transformação social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016). Compreendida essa realidade, tão presente quanto persistente em nossos dias, torna-se inescapável a observação e consideração da realidade criada por esta mudança, ou seja, do seu efeito. Estamos presenciando uma decadência sem precedentes na credibilidade dos meios de comunicação, que se apresentam como portadores de um conjunto de crenças baseadas nas expectativas mais clássicas da modernidade e de uma mentalidade revolucionária que não é compartilhada pela maioria da sociedade em estado natural.

Assim como a emissão se tornou transformadora, também a recepção ficou sem outra alternativa.

Esta verdadeira ruína de esperanças e de confiança tem sido resumida, talvez de maneira improvisada e provisória, como o surgimento de um movimento conservador. Mas esta é uma visão que parte do ponto de vista do revolucionário. Do lado do conservador, o que há é uma tomada de consciência, uma reação natural a mudanças arbitrárias.

João Pereira Coutinho resumiu o conservadorismo como uma força natural e humana que surge em momentos de crise e decepção com algumas capacidades de organização e controle arrogadas por elites revolucionárias, baseadas na concentração de poder. Embora deva existir um conservadorismo permanente, que possa existir mesmo em sociedades pouco ou nada revolucionárias, não há como fugir do fato de haver um crescimento incrível de ideias e posturas conservadoras justamente quanto mais utopias e atividades revolucionárias se imponham à sociedade como soluções hegemônicas, como acontece em nosso tempo.

Mas chamar tudo isso de “renascimento conservador” pode ser um resumo um tanto superficial ou, como eu disse a pouco, relativo ao ponto de vista da oposição meramente política (que também é cultural) e não de uma perspectiva histórica e civilizacional. O que de fato estamos vivendo parece ter origem nos efeitos naturais da abrangência de ação da função transformadora, marcada pelo surgimento das forças de resistência à transformação. Reação, segundo os revolucionários, é tratada quase como doença. O reacionário é aquele que tem medo. Já o revolucionário alega reunir nele o monopólio da coragem e da independência diante de forças conservadoras como o dinheiro. Mas não devia parecer muito corajoso adequar-se tão confortavelmente às mesmas utopias de elites financeiras globais, que despejam rios de dinheiro em ações sociais pelo mundo, do establishment midiático com seus shows de elogio à transformação, e do estamento burocrático inteiro de países como o Brasil. Receber indenizações, bolsas e financiamento internacional ou usufruir do vitimismo automatizado que a mídia oferece a determinados grupos, não parece ser uma definição adequada de coragem e independência, mas antes de covardia, insegurança e intolerância furiosa contra qualquer reação aos seus privilégios e às mudanças de um paraíso prometido. É fato que este tipo de transformação social cria uma geração de mimados.

Mas o ponto que pretendo levantar é outro: o cidadão comum, diante da insistência transformadora, vai naturalmente direcionando-se à reação. Mais do que isso, a sua forma de atuar contra uma série de dificuldades impostas por esta transformação social pode criar um novo caráter social, não pensado pelas utopias transformadoras revolucionárias, mas que as pode ajudar em alguma medida. Uma atmosfera de desconfiança, ceticismo ou mesmo adesão fanática a determinadas crenças pode ser um resultado colateral das novas expectativas pós-modernas baseadas na desconstrução, relativismo moral e no resultado natural e esperado do caos social.

Caos informativo e a sociedade da desconfiança

Desde o telégrafo, o correio, passando pelos avanços dos transportes que possibilitaram maior agilidade na informação, até chegar na velocidade da transmissão de dados via internet, todo o sistema informativo pode ruir numa fração de segundos: no instante mesmo em que o leitor, diante do site de um grande jornal, se dá conta de que pode estar sendo enganado.

Os meios de comunicação tradicionais, cuja concepção transformadora se mostra cada dia mais evidente ao seu público, começa a sofrer mudanças na forma de recepção. Mudanças que começam sutis, talvez pouco perceptíveis, mas que apontam para um abismo informativo que coincide com o tamanho da estrutura informativa estabelecida desde o início das comunicações sociais.

Trata-se aqui da observação de um outro lado da transformação social: a recepção.

A mudança ocasionada na recepção vai muito além da pretendida pelos transformadores e engenheiros sociais, embora eles estejam contando com as vantagens que podem obter dos cenários mais devastadores.

Em primeiro lugar, o ceticismo totalizante, as teorias conspiratórias. Em segundo, no mesmo sentido, a adesão fanatizante a teorias e explicações ocultistas: o ressurgimento da concepção informativa segundo a qual a verdade está sempre escondida e basta estar escondido para ser, automaticamente, verdadeiro. Este critério de veracidade, pela própria multiplicidade de coisas ocultas existentes, dá vazão a uma infinidade de grupos, seitas, comunidades e movimentos que se dirigem contra um inimigo comum: o sistema de mentiras, a vida apresentada como ficção, a Matrix.

Terra Plana e Deuses Astronautas

Um dos exemplos mais claros deste tipo de mudança pode ser a recente teoria da Terra Plana, que tem ganhado adeptos e muitas visualizações no Youtube, mas começou em grupos fechados de aficionados pelo oculto. Oriunda dos grupos de discussão sobre aparições de OVNIS, essa teoria se assemelha na incerteza afirmada como certeza. Ausência de evidências, para eles, é evidência de ausência. A proposta da ufologia como ciência é tão contraditória quanto risível. Uma ciência cujo objeto de estudo é desconhecido não pode ser uma ciência, ao menos não no mesmo sentido do conceito conhecido de ciência, um conceito certamente a ser desconstruído como conspiração global — é evidente aqui que para tamanha aventura imaginativa é preciso não só um desconhecimento como uma obstinação em ignorar os reais agentes por trás de propostas como a Nova Ordem Mundial. Uma proposta com tamanha fartura de provas e documentos dos próprios agentes políticos incumbidos da missão, com uma infinidade de livros a respeito, acaba sendo transformada em “teoria conspiratória”, devido simplificações grosseiras e, no fundo indiferentes, em figuras alegóricas como “os EUA”, “Os Iluminati” ou “a maçonaria”, quando não os “reptilianos” etc. Há décadas que a Nova Ordem não é mais uma teoria, tampouco uma hipótese, mas uma realidade assumida pelos seus agentes, espalhados por diversos governos e entidades. Diante de imensa bibliografia, porém, parece mais sedutor ficar com canais de Youtube, sites ou páginas de revistas pseudo-científicas.

No caso da Terra Plana, o princípio fornecedor de pressupostos e premissas é a fé na Bíblia, que segundo eles traz a afirmação da planicidade terrestre, o que parece não ter sido interpretado dessa forma ao longo de dois mil anos de cristianismo, com a exceção sintomática de seitas de ocultistas extintas pela própria Igreja Católica ou pelas igrejas protestantes. Evidentemente, os apoiadores destas teorias não hesitam em atribuir a todo tipo de instituição a construção e manutenção argilosa de uma imensa rede de mentiras. A fé fundamentalista, que provém de uma tendência racionalista e sistemática, nasce no espírito de seitas protestantes que se aventuravam a interpretações literais dos textos bíblicos. A novidade dos nossos tempos é a adesão de católicos a teorias conspiratórias, cuja crença só pode ser explicada mediante pressupostos racionalistas de origem iluministas, somados ao jornalismo da Superinteressante. O desejo de se assemelhar ao estamento científico faz dessa teoria um arremedo de ciência, com dados e gráficos que dizem absolutamente nada em uma linguagem técnica que tenta passar a ideia infeliz de estar transmitindo alguma coisa. Há erros tão grosseiros quanto inimagináveis nos vídeos dos terraplanistas. Noutro momento podemos nos ater a eles.

Tanto a ufologia quanto o terraplanismo, exemplos autoexcludentes que representam nossa era da incerteza convicta, necessitam para manterem-se de pé, da suspeita totalizante sobre tudo, o que flui naturalmente diante do compromisso transformador e manipulador da comunicação social contemporânea. Mas engana-se quem pensa que esta seja uma consequência infrutífera para a engenharia social revolucionária: eles sabem perfeitamente que a sua insistência em mentir dará origem às mais abrangentes e mirabolantes suspeitas teóricas. Eles sabem perfeitamente que nem todo mundo está preparado para suportar a submissão ou dependência informativa a um sistema que tenta os manipular o tempo todo. Eles sabem que a maioria das pessoas irão se agarrar a certezas negativas e convicções de incertezas, enquanto poucos ou quase ninguém fará o esforço de estudar pacientemente conceitos que estão por trás dos agentes, como o poder, noções de ideologia, de organizações grupais, psicologia social etc. Para isso, porém, será preciso manter algo de permanente e certo. A tentação imposta aos inseguros em um mundo de engenharia social é a da desistência, apatia e cansaço, que culmina no desprezo total do conhecimento. Eis o cenário perfeito para os engenheiros sociais. Criar inseguros é a receita certa para impor o caos informativo e, depois, oferecer-se como única e derradeira solução.

René Descartes, o pai da ciência moderna, propôs o estado de dúvida como método científico. Esta proposta não apenas se encarnou no método mas nos indivíduos da modernidade que acreditava na possibilidade das certezas totais. Foi a essa tensão que foi acrescida a neurose pós-moderna.

Só é possível ver a sombra da solução para isso

Em uma atmosfera de ruína da credibilidade informativa, como vivemos, poderão haver tantas concepções geopolítica ou cosmológicas quanto pessoas na face da Terra. A certeza sobre cada uma delas é relativa e dependente de uma série de construções narrativas, todas elas baseadas na incerteza do sistema de informação. As mentiras da mídia são o combustível das explicações mais diversas desde a política regional à estrutura da realidade cósmica. Pior que o caos social ou moral que vemos todos os dias sendo construído por engenheiros sociais, é o caos informativo que pode tornar os indivíduos átomos perdidos no espaço, na transitória hipótese de existirem átomos e espaço.

Desconectado das antigas cosmologias, que foram trocadas pela ciência materialista e o estado de dúvida metodológico, o ser humano se viu obrigado a confiar na sua racionalidade e no empirismo experimental. A credibilidade desses instrumentos naturais foi transferida às comunidades científicas e ao aparato político consequentemente. O indivíduo, com isso, perdeu o contato consigo e com a própria percepção natural, que vai além do empírico e repetível das ciências. Se a confiança nas instituições midiáticas ou científicas está abalada, isso é devido o abalo muito mais profundo da sua relação consigo e com a realidade, o que tem como exemplo a concepção dualista do homem (corpo e alma).

Depois de ter depositado todas as suas expectativas e apoiado todas as suas crenças nestas instituições, a percepção da perda delas pode ser pesada demais. Talvez falte ao homem contemporâneo a presença real e concreta do fato de sua orfandade natural. O ser humano é o único animal que não está adaptado a nenhuma realidade terrestre. No frio precisa esquentar-se, no calor precisa refrescar-se. Aqui não há conforto.

O professor Olavo de Carvalho insiste há anos na necessidade do que ele chama de tolerância com o estado de dúvida. Esta é a única maneira de obter alguma orientação e meia dúzia de certezas suficientes. Um dos motivos da crise das certezas é o desconhecimento do que elas sejam. Ter certeza é algo concreto, profundo, abrangente e que concede uma imensa força ao ser humano. Mas ela só fortalece quando provém de um movimento em direção ao imutável. O homem concreto necessita de poucas certezas, mas certezas tão profundas que nossa mente racional jamais poderia abarcar.

A verdade é que a certeza buscada hoje não é certeza de maneira alguma. Buscar a coisa errada é o primeiro passo para se buscar no lugar errado e a receita mais certa para não se encontrar coisa alguma. Ou, na hipótese mais comum, agarrar-se a um símbolo que justifique o anseio frustrado.

 

Crise de masculinidade: mais um espantalho de uma catástrofe humana

É comum ouvirmos falar em crise de masculinidade, causada por uma série de fatores culturais e históricos, além de intencionais projetos de engenharia social. É fato inegável que há uma dificuldade nos homens atuais na compreensão do que seja a masculinidade. Mas a origem do problema pode ser bem mais profunda, uma cisão entre indivíduo e realidade que impede o conhecimento de si e do mundo, o que invariavelmente irá se manifestar em papéis sociais. Tal crise parece ser tão profunda e difícil que quem quiser combatê-la poderá estar apenas fornecendo mais uma das tantas manifestações do mesmo problema.

Eles não vão concordar quando você disser que a “oficina de masculinidade” que carregam orgulhosamente no peito é apenas um manual de etiqueta (diminutivo de ética: ética medíocre ou fingida) que só guarda relação com masculinidade na forma analógica que une um Papa reinante a um cafetão vestido de padre a pular o carnaval da Bahia. Não vão concordar porque o que lhes falta é cognição: estão à beira de um ataque de nervos e não têm tempo nem vontade de pensar sobre quem realmente são.

A crise dos papéis masculinos e femininos acaba gerando problemas sérios de identidade e sensibilidade, chegando ao ponto de afetar até mesmo a cognição das novas gerações. Mas será mesmo que o ponto inicial, a origem do problema, é a dúvida ou não entendimento dos papéis ligados aos sexos? A Teoria (ou ideologia) de Gênero, como sabemos, define os papéis sexuais como determinados pela família, ao passo que os defensores da família natural concedem-na apenas parte dessa responsabilidade, que é dividida com o próprio fato biológico, complementado psicologicamente. Afinal, se a percepção do próprio sexo depende, em alguma medida, de uma estrutura social (a família) para a sua efetivação, além do próprio fato biológico, parece-nos evidente que a crise nos modelos familiares também influencia essa condição ambígua que tem feito com que jovens e adultos retardem a descoberta, não apenas do próprio sexo (o que naturalmente acaba por acontecer sem grandes obstáculos intransponíveis), mas do sentido da própria vida, um problema bem mais grave e causador de todos os outros. Uma família desestruturada, que significa ambiente social de estrutura ambígua, tende a pressionar o indivíduo na direção de um relativismo moral e, por consequência, ao distanciamento da realidade objetiva em que indivíduo e realidade estão irremediavelmente inseridos. Famílias desestruturadas geram filhos desatentos, distraídos, inseguros e confusos, o que pode se apresentar por uma concentração desordenada e fanática, apego a imagens de força, certezas avassaladoras e insensibilidade extrema. Uma crise de sensibilidade seria mais adequado para descrever nosso drama contemporâneo, como diria meu amigo Tiago Amorim, em seu inquietante livro O Coração do Mundo.

A desilusão com a estrutura familiar tem gerado a sua negação, boicote ou combate. E é evidente que a atitude de negação dessa estrutura social acaba por se tornar uma negação da própria realidade externa ao indivíduo e ao isolamento abstracionista manifestado por um relativismo moral. Pior e mais devastador do que um relativismo moral que apenas busca libertar-se de códigos morais vigentes, porém, está o risco de relativizar a própria existência como pressuposto: a vida abstrata, isto é, baseada em sistemas ideológicos, produz sentidos e valores artificiais que são, no entanto, aplicados à realidade concreta dos fatos da vida, em indivíduos existentes e não ideais: se aplicar os valores naturais em situações naturais já gera problemas o bastante, imaginemos os problemas gerados ao aplicarmos valores artificiais a uma realidade natural. A ampliação de tensões como esta cria monstros que legitimam uma vida inteira de mentiras sustentadas a altos custos pessoais, perdas irreparáveis na capacidade de contato consigo mesmo. Mas ao contrário do que muitos pensam, os monstros nem sempre aparecem como relativistas morais, pois também podem se apresentar como idealistas morais: os moralistas reacionários.

A cultura de resistência que se baseou na crítica constante do relativismo por meio da afirmação absoluta daqueles valores negados acabou criando um outro idealismo: contra o relativismo, a arma preferencial parece ser a repetição literal dos códigos morais tradicionais como se fossem discursos, deixando de lado ou esquecendo-se de que estes códigos são produtos finais oriundos de uma estrutura moral intimamente ligada à estrutura da realidade como ela é. Deixam de lado o “como é” para apegar-se ao “como deve ser”. Perde-se com isso o interesse pela realidade, preferindo o mundo das doutrinas normativas, tanto morais quanto éticas, políticas etc. O pressuposto da postura normativa é o mesmo do relativismo: transformar o mundo é mais importante do que conhecê-lo. Evidentemente, alguns dos seus defensores carregam consigo as certezas absolutas, especialmente sobre uma certa estrutura de organização do mundo.

Moralismo conservador: a outra face da subversão

A resposta para o problema do relativismo moral, que se traduziu em uma espécie de cultura da subversão, ressurge como uma cultura de resistência à subversão. Essa resistência, porém, constrói-se sobre uma base subversiva e idealista e em um ambiente de culto a discursos, sistemas lógicos e doutrinais. A oposição à subversão converte-se, ela mesma, numa subversão da realidade ao reforçar a realidade como dependente de determinada matiz discursiva, lógica e doutrinal, distanciando ainda mais o indivíduo dessa realidade. Em situações normais, é o indivíduo que se relaciona com a realidade, expondo ou traduzindo sua sensação ou relação em palavras que podem ou não serem organizadas em uma doutrina ou sistema lógico, de função meramente expositiva a indivíduos, aos quais se supõe estarem habituados ao contato com ela. O moralismo conservador acaba centrando-se nas condutas que possam ser exibidas externamente, como em código de etiqueta (etiqueta = pequena ética), com potencial de indicar “algo” de moral.

Outro fator atuante neste moralismo idealista é o estetismo. Os “valores” defendidos são os que melhor se parecem, que mais associem o sujeito aos “velhos hábitos”, “de raiz”, de velha estirpe ou tradicionais. Essa preferência pelo que é antigo, dito ultrapassado pela modernidade, causa ainda uma outra anomalia, à qual queríamos chegar: a imagem do homem. Sendo o “verdadeiro homem” o antigo, o tradicional, e considerando a impossibilidade ou distância do homem moderno daquele, fica o ideal de masculinidade submetido a um fetichismo ou imitação superficial de trejeitos, vestuários e modos de comportamento.

O ponto de vista deste artigo é, evidentemente, o valor interno dos expedientes comportamentais e não, como alguém poderia pensar, no valor objetivo que se tenta encarnar com comportamentos ou indicações verbais. Pode parecer estranho ter de explicar isso, mas se estamos falando a pessoas que confundem-se com valores é óbvio que há confusão também nisto: quando falo em tradicionalismo ou moralismo, obviamente não me refiro aos significados de tradição ou moral como se entenderia universalmente, o que necessitaria um estudo aprofundado que não é o caso. Busco apenas suspeitar do entendimento destes valores por meio do comportamento e discursos que temos visto.

Ideologia de Gênero e as masculinidades

Estudiosos das teorias de gênero também perceberam uma mudança nos padrões masculinos e femininos, o que embasou grande parte de sua militância subversiva de desconstrução desses papéis. As modas masculinas dos últimos anos visam, como as femininas, desconstruir os estereótipos a partir da sua superexposição, de modo a desgastá-los a partir do reforço aos estereótipos. As barbas volumosas da moda hipster, unidas a penteados exóticos além da volta do uso do bigode, trata-se de um retorno à irônica apropriação da imagem tradicional masculina, mais ou menos como a moda gay dos anos 80 (macho-man), que hoje aderem aos arranjos de ridicularização dos estereótipos, na linha do ativismo performático de Judith Butler e seu método de destruição da linguagem. A linha mais andrógina comum nos anos 80 e 90 não fazia outra coisa além de negar o estereótipo igualando homens e mulheres, com fins na anulação de diferenças. Agora, o foco está na diversidade e possibilidade infinita de combinações e aleatoriedade de gêneros. “Há tantos gêneros quanto pessoas”, diz Butler. Quanto mais típico e tradicional for a imagem de homem e de mulher, maior o seu potencial para a combinação com seus opostos e ironias, em um movimento que aproveita-se da força do oponente para derrubá-lo. Em nome da subversão total, o exotismo sob demanda, sob desejo e escolha individual, passa a ser a arma mais poderosa contra a objetividade e universalidade tanto do homem quanto da mulher.

Ao lado dos estudos de gênero ligados ao feminino e aos direitos da mulher, mesmo que digam não existir essa objetividade chamada mulher, há um campo de estudos chamado Masculinidades. Uma adaptação da teoria Queer para os homens. O homem Queer equivale ao travesti, homem trans, cujo adereço principal é a barba volumosa bem feita, em um estilo que remeta à masculinidade tradicional. Trata-se de um campo que permeia a antropologia do ser masculino, questionando os padrões estabelecidos. A prova disso é que este padrão foi assumido por toda a indústria da moda, que o reforça a partir de sutis associações com o mundo gay. Tão sutis que dificilmente seriam percebidas pelos jovens reacionários duvidosos da própria e alheia masculinidade. A imagem da barba volumosa e bigodes em formato século XIX fazem parte de uma atitude irônica, um tipo de linguagem dificilmente percebido por quem está no centro de um turbilhão de inseguranças.

Ora, uma corrente que se nutre do questionamento dos padrões não pode prescindir de imagens tradicionais para contrapô-los à sua desconstrução. As barbas volumosas podem ser mais eficientes quando aparecem junto a adereços contraditórios como coques no estilo samurai, tranças ou maquiagem feminina, em um protesto mais do que evidente contra a própria ideia de masculinidade ou feminilidade. Mas também são utilizadas pela juventude insegura, numa atitude de reforço da masculinidade e negação da semelhança andrógina entre homens e mulheres, um inimigo que ficou para trás. Assim, tal resistência não tem outro efeito senão o reforço da distinção efêmera entre homens e mulheres, aquela mesma que aguarda uma associação contraditória e irônica.

Nos anos 60 e 70, época em que John Lenon usava uma volumosa barba, o estilo era um questionamento do mundo dito civilizado, do homem “almofadinha”, opondo um homem desleixado e um elogio aos modos mais ligados à natureza, ao natural. Já neste período, porém, a masculinidade nada tinha a ver com força ou virilidade, mas com sensibilidade exacerbada, o que só aumentou nas décadas seguintes. Uma sensibilidade que foi se tornando cada vez mais superficial, até chegar na sua negação. Já o metrossexual contemporâneo é o estereótipo masculino permitido em uma época de síntese entre o hippie e o andrógino homem sensível: o hipster. Homens modernos, que vivem em apartamentos e grandes cidades, não têm como manter uma volumosa barba sem grandes cuidados (exceto se forem mendigos), daí o surgimento de serviços estéticos que imitam os tradicionais barbeiros, uma espécie de barbearia gourmet, frequentados tanto por casais homossexuais barbudos, performáticos das masculinidades, como por jovens metrossexuais sedentos por afirmação de algo que sente perdido e confuso em meio a uma subversão cultural de proporções jamais abarcadas pela sua insegurança juvenil.

O método sutil de George Soros

Com o objetivo de ridicularizar as acusações de manipulador da mídia que pesam sobre Soros, o mesmo texto foi publicado em todos os grandes jornais brasileiros. É a maior cara de pau que já se viu em nosso jornalismo.

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Como as opiniões se transformam e o mundo muda

Por meio de duas teorias pode-se ampliar o foco da transformação social vigente, revendo nossas mudanças e antevendo futuros rumos do mundo. Primeiro, a Espiral do Silêncio, de Elisabeth Noelle-Neumann (publicado por Ed. Estudos Nacionais, 2017). Depois, a dissonância cognitiva, de Leon Festinger. Ambas dizem respeito ao mesmo processo: a conformação ou consentimento da alma humana através da mudança ou adesão de opinião. Ambas transformam a sociedade naquilo que os manipuladores das teorias desejam.

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Onda conservadora: vida abstrata, fracasso concreto

A origem social da direita youtuber, da direita que aparece e quer aparecer é exatamente a mesma da esquerda universitária: gente criada em apartamento que se culpa pela bolha em que foi educada, pela distância da realidade imposta por seus pais. Quer a todo custo conectar-se ao mundo externo que aprendeu a ver pela janela. Mas não consegue porque o seu funcionamento é abstrato, horizonte de consciência formado na altura dos andares superiores, da segurança do condomínio.

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