Como o estetismo conservador pode demolir todas as suas chances de hegemonia cultural

Postei recentemente no Facebook a seguinte observação:

Esse negócio de dizer como o homem e a mulher devem ser é coisa da moral burguesa do século XVIII, raiz tanto da política quanto do jornalismo contemporâneo. Antes disso, não se “pensava” em defender tradição ou moral, mas simplesmente se observava a realidade das coisas e o comportamento mais prático. A boa percepção dava em bons comportamentos. Mas o homem iluminista trouxe a novidade do “novo” advocacy comportamental, moral e religioso que alguns direitistas confundem com a vida “raiz”. É a gourmetização da tradição.

Alguns dirão que não é o momento de criticar a direita em ascensão; que melhor seria dar força e ajudar a se manter no poder. Mas a verdade é que não há nenhum conservadorismo no poder, tampouco uma direita ou um cristianismo com a menor chance de se manter no controle do país ou alcançar alguma relevância cultural. A eleição de Bolsonaro e o surgimento de uma “nova direita” tem, na verdade, grandes chances de sucumbir tão logo seja confrontada com as próprias limitações. E mesmo que ela se manter por longo tempo, nada ainda significará um poder conservador no Brasil.

O poder se alcança com superioridade concreta diante dos adversários e não se sustenta com o fingimento ou apego a fórmulas superficiais. As limitações dessa nova direita são muitas. A começar pela sanha comportamental que abriga um sonho saudosista e gostoso de uma era dourada de moral elevada. Nada mais caricato.

A sociedade, família ou indivíduo ideal nessa nova mentalidade da juventude conservadora brasileira reside em um imaginário resgatado dos ideais burgueses do século XVIII, fundantes da modernidade. Embora as vertentes protestantes admitam suas raízes modernas, os católicos insistem em um tipo de “herança medieval” ou “nova Idade Média”, enquanto se locupletam em imagens, vestuários, modos de falar e gostos estéticos típicos daquela burguesia anti-medieval cujo legado foi justamente o rebaixamento de todas as tradições a modelos arquetípicos e defesas acaloradas de uma vida ideal, moral. Seu modo de ouvir e falar reduziu-se à retórica dos discursos enobrecedores, inspirações romanescas que mistura quadros românticos com folhetos do início do século XX, aqueles que retratavam a mulher do lar.

Esses militantes do recato e da decência nem percebem que estão sendo apenas bonecos da gourmetização tipicamente pós-moderna, um pastiche mal acabado de puritanismo hedonista que visa gostosar-se no espelho enquanto emolduram-se numa tradição morta. Morta porque tradicionalista. Antes daquele período, do qual os neotradicionais devem sua estética, a verdadeira Idade Média gozava de uma despreocupação libertadora tanto à moral sexual quanto aos gostos estéticos, bem menos variados e exóticos do que encontramos no google. O que fascina o tradicionalista do dia seguinte é justamente o exótico, que no fundo é apenas “a roupa preferida do diabo”.

O seu modelo de vestuário e olhar reprovador diante da sociedade está no puritano norte-americano ou inglês daqueles séculos de carruagem, com sua donzela ao lado em modestíssima vestimenta, calada e surda antes as pregações biblescas do varão e pastor de ovelhas. Frases bíblicas ou de santos confundem-se gostosamente na boca do “cavalheiro cruzado” (ao invés de cavaleiro), o burgues piedoso, cujo confessor é um diretor espiritual mui severo, mas com o qual se dá tão bem ao ponto de insinuar uma obediência canina. Inominável virtude, é claro.

Assim como o modernista, o comunista e o fascista, o puritano cristão acredita que é preciso vir de cima (seja de Deus ou do Estado, tanto faz) uma transformação cultural que consagre Cristo no todo da realidade. Esse tipo de cristão esquece que Cristo já é o Rei do Universo e amplia formidavelmente a margem de ação devida ao cristão, transformando-o num revolucionário. Ao mesmo tempo, comete toda sorte de omissões diante do próprio Deus ao emular quem não é, fingir ser um personagem de filme de época, um conquistador do Novo Mundo, jesuíta de fundo de quintal, que montado numa vassoura que imita seu cavalo, vencerá os hereges e converterá os pagãos que vê em moinhos de vento.

Esse é o resultado da profunda crise de identidade que vivemos. Não a toa, homens e mulheres anseiam por ideias que os assegurem de firmes projetos e missões, enquanto ideólogos de outro lado pregam a não existência da identificação ontológica entre homem, mulher, criança, cavalo e guarda-chuva.

Como se fosse um doutrinador da vida alheia, o conservador acaba se comportando ou dando a ideia de que é exemplo de comportamento. Isso pode ser fatal para a conquista de um lugar na cultura de massa, embora possa facilmente criar uma alta cultura elitista e ainda mais distante do povo. O direitista se gaba dos votos de Bolsonaro dizendo que o povo é conservador, mas se esquece de ter a humildade que a esquerda tem ao apadrinhar todo e qualquer movimento de massa sem julgá-lo moral ou esteticamente. Os conservadores julgam estar aí a inferioridade do marxismo cultural, que eleva qualquer coisa ao status de cultura. Mas esquece de adequar sua linguagem e pode se tornar cada vez mais incompreendido e evitado, como um chato de festa.

Embora a esquerda tenha se distanciado imensamente das massas e se tornado elitista, isso pode se inverter se conservadores não souberem integrar em suas “tradições” aquilo que acabam considerando imoral, destrutivo ou degradado culturalmente. Os esquerdistas, apesar de tudo, respeitam mais o povo quando querem ganhá-lo. Porque sabem o que são e não se julgam culturalmente superiores quando querem aparelhar a massa. O conservador precisa cair na real e entender que, embora tenha tido a oportunidade de contemplar belas obras, ainda é um produtinho da submodernidade que ele quer sepultar. E se não aprender a se olhar no espelho vai acabar caindo do castelo de cristal que tem criado em suas altas letras e cultura universal, esquecendo-se de que o objeto de atenção de toda a cultura clássica sempre foi a própria realidade presente de cada época.

Uma direita que chega formalmente ao poder sem saber quem é, cairá ao menor ataque.

A teologia da ficção científica

Há quem diga que a decadência estética no cinema e nas artes chegou ao ponto de impossibilitar a contemplação da arte e da sua profundidade. A ênfase na imagem saturou nossa imaginação e comprometeu até mesmo a visão de mundo, da vida e de possibilidades da nossa existência. Este é um problema profundo e sério, mas que não pode ser enfrentado simplesmente pela negação de toda a cultura imagética do nosso tempo. Afinal, a sua influência danosa poderá ter ainda mais poder sobre nós se aceitarmos o julgamento meramente estético e deixarmos que as suas sensações nos distraiam da essência daquilo que ela pretende dizer ou representar. Com um olhar mais profundo, é possível que a ficção científica, por exemplo, nos ajude a compreender o mundo em que vivemos.

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O conservadorismo das cidades do interior

Recentemente, assombrados pela revolução cultural que assola o Brasil, o meio conservador cristão começou a fazer uma campanha para a debandada para as cidades do interior. No intuito de proteger suas famílias das avançadas agendas globalistas, essa parece ter sido a esperança lançada por muitos. De fato, é possível enumerar uma quantidade imensa de vantagens que são absolutamente reais e concretas. No entanto, junto dessa eleição do interior como morada adequada, surge também certo idealismo. Um idealismo que começou a relacionar o interior a modos de vida um tanto utópicos e artificiais. Estas ilusões provém, em grande medida, de um romantismo pelo interior que é bastante característico da grande cidade e do vazio que a circunda.

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Podcast: Igreja e sociedade

Podcast sobre Igreja e Sociedade:

Áudio em resposta às dúvidas do amigo Eduardo Lopes e seu grupo de católicos sobre a relação entre a Igreja Católica, os católicos, o mundo moderno e a política.

  1. Relação entre Igreja e mundo moderno
  2. Catolicismo no Brasil
  3. Sociedade católica e a ideia de “progresso” ou sociedade “atrasada”
  4. É possível um “estado católico”?

 

Conspirações e outros efeitos da recepção transformadora

Uma atmosfera de desconfiança, ceticismo ou mesmo adesão fanática a determinadas crenças pode ser um resultado colateral das novas expectativas pós-modernas baseadas na desconstrução, relativismo moral e no resultado natural do caos social promovido pela ação de agentes transformadores

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Crise de masculinidade: mais um espantalho de uma catástrofe humana

É comum ouvirmos falar em crise de masculinidade, causada por uma série de fatores culturais e históricos, além de intencionais projetos de engenharia social. É fato inegável que há uma dificuldade nos homens atuais na compreensão do que seja a masculinidade. Mas a origem do problema pode ser bem mais profunda, uma cisão entre indivíduo e realidade que impede o conhecimento de si e do mundo, o que invariavelmente irá se manifestar em papéis sociais. Tal crise parece ser tão profunda e difícil que quem quiser combatê-la poderá estar apenas fornecendo mais uma das tantas manifestações do mesmo problema.

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O método sutil de George Soros

Com o objetivo de ridicularizar as acusações de manipulador da mídia que pesam sobre Soros, o mesmo texto foi publicado em todos os grandes jornais brasileiros. É a maior cara de pau que já se viu em nosso jornalismo.

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Como as opiniões se transformam e o mundo muda

Por meio de duas teorias pode-se ampliar o foco da transformação social vigente, revendo nossas mudanças e antevendo futuros rumos do mundo. Primeiro, a Espiral do Silêncio, de Elisabeth Noelle-Neumann (publicado por Ed. Estudos Nacionais, 2017). Depois, a dissonância cognitiva, de Leon Festinger. Ambas dizem respeito ao mesmo processo: a conformação ou consentimento da alma humana através da mudança ou adesão de opinião. Ambas transformam a sociedade naquilo que os manipuladores das teorias desejam.

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Onda conservadora: vida abstrata, fracasso concreto

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