Como funciona a falácia da postura equilibrada

Existe um tipo recorrente de analfabetismo, um pouco mais sutil que o funcional, que põe verdade e mentira em uma posição relativa dentro de frases isoladas. Podemos chamar de “analfabetismo moral” (?). Existiriam, assim, “verdades” presentes dentro de um contexto de argumentação falaciosa e criminosa, como nos de abortistas, nazistas, comunistas, etc, todas aquelas cujo fim último é mal em si ou fruto de um desconhecimento profundo dos conceitos envolvidos. É preciso dizer de antemão que nessas argumentações não há propriamente verdades, mas fatos reais usados para fins que não condizem com a verdade.
 
Ou seja: Quando uma feminista diz uma verdade, é mentira.
 
Relatar um fato real não é exatamente “verdade”, mas apenas um relato. Para caracterizá-lo como verdade, no sentido pleno, seria preciso saber a intenção dele, ou o fim último, como diria Santo Tomás. Se uma feminista diz “é preciso proteger a mulher contra a violência”, porque pretende, com isso, justificar o aborto em casos de estupro, o que ela disse não foi uma verdade e sim uma mentira. Considerar isso verdade é o que motiva a abertura ao diálogo com termos totalmente falaciosos ao invés de denunciá-los prontamente.
 
O erro de classificarmos pequenos juízos isolados e fora de contexto como verdades, é o que faz com que pensemos ser possível “juntarmos” as verdades presentes em cada lado de um debate para formularmos, com isso, uma posição equilibrada. Ora, opta-se pelo equilíbrio por identificá-lo com o bem e, portanto, com a verdade. Mas o equilíbrio entre mentira e verdade privilegiará sempre a mentira, já que o arbítrio do conflito (o equilíbrio) já se baseia em falsear o critério de veracidade.
 
Qualquer arbítrio entre mentira e verdade pretenderia ser superior aos dois lados envolvidos e, portanto, superior à verdade. Então se trata de uma mentira.
 
A verdade depende do fim. E é esse erro que passa na cabeça de quem defende uma neutralidade pessoal em debates, uma prudência em tomar posição, que só se justificaria em questões complexas quando nos faltaria conhecimento e não quando se trata de questões morais muito claras, como o exemplo do aborto.
 
Cristãos de todos os tipos (embora principalmente católicos) andam entrando nessa postura supostamente equilibrada que propõe, nas entrelinhas, calar a verdade e dar poder à mentira. Basta que um debatedor lance um relato de um fato para paralisar o outro lado e fazê-lo se sentir errado e culpado.
OBS.: Obviamente, estamos falando do conceito de verdade plena, aquele que se identifica com o bem e a beleza, não no sentido moderno e estrito, baseado no conteúdo de afirmações e no critério da correspondência com fatos ou versões de fatos. Este último sentido é o que deu origem a afirmações tais como “não há verdade, mas somente afirmações verdadeiras”. Isso diminui e restringe o conceito de verdade àquele praticado pelos pré-socráticos ou, no máximo, àquele que mais tarde foi chamado de nominalismo, isto é, a ideia de que os conceitos foram criados a partir dos seus fenômenos e não o contrário. Para a filosofia clássica (na qual me baseio aqui), os fenômenos e espécies dos entes devem o que são aos princípios universais equivalentes. Por exemplo, afirmação verdadeira deve sua veracidade ao princípio universal da Verdade.
Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.
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