Técnicas de manipulação usadas nas guerras foram adaptadas à democracia

A maioria das técnicas publicitárias de manipulação social usadas hoje nasceram em períodos de guerra, quando psicólogos e médicos eram contratados por governos para investigar os caminhos secretos da mente humana e direcionar comportamentos e pensamentos de prisioneiros de guerra.

Confissões induzidas, delações e, mais tarde, influência social subversiva em países alvo, foram exaustivamente pesquisadas. O resultado de décadas de pesquisa ficou aparentemente sem uso após o fim das guerras. A solução foi readaptá-las para a manutenção da paz global.

O constrangimento social e a espiral do silêncio, em termos coletivos, foram descobertos muito mais tarde nas sociedades ocidentais (A teoria da Espiral do Silêncio foi descrita em 1978, por Elisabeth Noelle-Neumann). Mas o seu uso em indivíduos já contava com densa documentação militar. Exemplos não faltam. Esforços diplomáticos ou militares deram origem a uma infinidade de métodos de persuasão e comunicação não verbal para o controle das ações humanas em larga escala.

Uma das origens da censura linguística que conhecemos hoje como politicamente correto, por exemplo, está no pensamento do psicólogo americano Marshall Rosenberg, criador da “Comunicação-não-violenta” para arbitrar conflitos diplomáticos em tempos de guerra. No pós-guerra, dedicou seu trabalho à construção de uma linguagem interpessoal mais “empática”. Quanto ao conteúdo das mensagens, a indução persuasiva tem outras origens, como a chamada Teoria Crítica ou Escola de Frankfurt, que mesmo em sua base une conteúdo à forma persuasiva de um tipo de rebelião dialética ou “trabalho do negativo”. 

No entanto, os teóricos criadores da forma científica através da qual as mensagens seriam transmitidas não são tão lembrados quanto os seus sucessores subversivos, em geral menos discretos.

No livro A Transformação Social: como a mídia se tornou uma máquina de propaganda (2016), tentei reunir algumas dessas teorias que fizeram parte dos estudos de comunicação, como a “teoria matemática”, de Shannon, a herança de metáforas biológicas como a chamada “teoria da agulha hipodérmica” são exemplos bastante evidentes, além da “causalidade circular”, de Norbert Weiner, precursor da cibernética, Stephen Pfohl e sua “cibernética social”, precursores do uso tecnológico dos “sistemas complexos” para o controle social.

O uso de instrumentos psicológicos para o controle social, objeto de interesse e financiamento por governos nos tempos de guerra, acabaram sendo abraçados e financiados por fundações internacionais e iniciativas privadas ou de grupos de milionários, como o Tavistok Institute e outros centenas existentes ainda hoje.

Grande parte da engenharia social usada pela propaganda e a comunicação em geral foi um subproduto das guerras, a partir das conhecidas lavagens cerebrais usadas em câmaras de torturas soviéticas, chinesas e coreanas, adaptadas a expedientes governamentais e depois privados, como mostra também o livro raro O rapto do espírito, de Joost Meerlco, de 1959.

As técnicas usadas na lavagem cerebral obviamente se apresentam analogamente nas manipulações de massa em dinâmicas de grupo, outra invenção de cérebros tecnicistas como Kurt Lewin, que estruturou o comportamento humano em um trabalho admirável que serviu de base para quase tudo o que veio depois em psicologia social.

O medo do pós-guerra, de um colapso global se houvessem conflitos nucleares, motivou também na ciência política. As ciências do comportamento humano ganharam grande importância sob forma do que Karl Mannheim chamou de “técnicas sociais” para a criação de uma “democracia militante”. A teoria democrática enfatiza o poder popular em uma estrutura que não pode suportá-lo de maneira alguma. A administração total é a verdadeira doutrina por trás dos slogans democráticos, que servem para o controle de punições e recompensas sociais.

Opinião pública substitui o indivíduo decisor

Como mostrou Noelle-Neumann, em A Espiral do Silêncio, os defensores da democracia ficam desconfortáveis diante de estudos de opinião pública que demonstrem o quanto o cidadão pode ser manipulado pela própria estrutura social. Isso porque a crença democrática depende essencialmente da crença na independência e na liberdade do indivíduo.

A opinião individual, unidade formadora e analogia fundamental da figura da Opinião Pública, é a partícula agente, o motor inicial e final, da democracia. Essa liberdade individual existe, mas é bem mais trabalhosa e rara do que reza a teoria democrática, que prefere repetir seus chavões com ingênua credulidade a aceitar a dificuldade concreta e inconveniente da sua efetivação. Afinal, o ódio do entorno é, mais do que o isolamento social, uma travessia quase obrigatória em tempos de politicamente correto, rumo a uma consciência independente. Embora, é claro, não sejam condições necessárias.

Opinião Pública nada mais é que uma figura artificial, selecionada, usual e legítima do sistema democrático. Ela legitima as decisões e ações da sociedade pelos definidores dos canais comunicativos, isto é, pelos proprietários da narrativa histórica e social – talvez até antropológica – da vida humana.

Como figura artificial, uma ficção comunicativa, promete resumir a opinião de uma sociedade. Mas na prática pode facilmente invertê-la mediante a ameaça constante do isolamento e da segregação social para o qual o estereótipo é arma fundamental. O indivíduo estereotipado é isolado e morto socialmente. Nada mais lhe resta senão revoltar-se contra o sistema, aderindo a um outro estereótipo disponível na coleção de vestimentas subversivas ou disruptivas.

A liberdade ou independência consciente possui pouco ou nenhum estímulo social e político, exceto como rótulo prometido e desejado, sobre o qual vai sendo associada uma infinidade de novos adereços simbólicos atraentes. Esse processo impõe ao indivíduo uma escolha constante e insuportável, que acaba vencendo-o pelo cansaço. A fadiga social, outro monstro indesejado, do qual se foge histericamente assim como do temido isolamento. Contra a fadiga social formam-se os grupos.


 
 

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