A única luz no quarto escuro era a que saía do aparelho sustentado a meio palmo do nariz de um homem de meia idade. Ele acaricia a tela de conteúdos infinitos com polegares cujas digitais já se acham ilegíveis.

Os olhos inertes e sem vida estatelam naquela tela cuja luz forte de led derrete-lhe a retina. As veias muito finas, vermelho-sangue, saltam naquele globo ocular irritadiço prenunciando, em vão, um hiposfagma.

E os dedos não param. Horas a fio empenhados nesse deslizar insistente, já se acham em carne-viva. Entretanto, deslizam, anestesiados, por aquele mundo inexistente que retém a alma do homem. Deslizam ligeiros, num clica-segura-arrasta-desliza interminável.

Daí que pelo canto da boca semiaberta e bafolenta do homem escorre, como baba, seu cérebro. O líquido rosé, muito viscoso, pegajoso, gosmento, empapa todo seu corpo sem que ele se aperceba.

Eis, porém, que um som estridente apita: falta 1%, avisa o aparelho. Os dedos, não obstante, não param. Ficam, ao contrário, mais ansiosos. Os olhos, muito ardidos, não arredam. O aparelho, indiferente, então, apaga. O cérebro, a essa altura, já escoara. O homem, satisfeito, enfim, dorme.


 
 

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