Reclamação ao poeta Fernando Pessoa

Revirando meu e-reader, essa minha biblioteca de volumes inexistentes que o espírito moderno inventou, me deparei com o Livro do Desassossego do Fernando Pessoa. Entediado da filosofia e já tendo cumprido a quota diária de história, deixei me levar pelo convite do poeta. Cliquei e pus-me a ler.

Logo no começo tive vontade de rir daquilo que agoniava o literato de outrora. Pessoa, ainda no primeiro parágrafo da obra, como que murmurava porque sua geração já não cria em Deus e, por isso, havia substituído o culto tradicional ao antigo Senhor pela devoção pouco convincente à Humanidade. Balela, Fernando. Fichinha. No meu tempo, saiba – se é que já não sabe melhor que eu – o pessoal não crê nem em Deus tampouco na Humanidade. Agora, canta-se salmos ao Mundo.

Meus contemporâneos, caro escritor, têm as Fridays for Future, a WWF, o GreenPeace, o veganismo e a Luísa Mell – principalmente a Luísa Mell. Fique pois sabendo a vossa excelência e todos os pessimistas do passado, que minha época, pior que as de então, deu um jeito de fabricar, a essa altura do campeonato cósmico, uma engenhoca neopagã, um novo culto, sem sal, confesso, à velha Gaia, essa distinta senhora que há tempos recolhe os benefícios do INSS greco-romano.

Não obstante, o poeta pode retrucar, lá do além, que também os seus forjaram um paganismo e que estaríamos, por assim dizer, pau-a-pau, empatados. Vejamos, então, o paganismo que preocupou Pessoa e julguemos se era motivo para criar caso:

“Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais”.

Ora, meus coetâneos, Sr. Pessoa, amam a Terra. E mais: amam a si próprios. E só. Louvam as árvores e o abdômen chapado conquistado no crossfit; acendem velas ao pôr-do-sol e, de igual modo, a um cupom de desconto no Paris 6; fazem rezas a um gato de traços místicos e, ao mesmo tempo, rogam a seu coaching que lhes instruam a quem dar match no Tinder.

Num quadro desses, meu querido lisboeta, louvar a Liberdade e a Igualdade do gênero humano seria coisa muito elevada, ainda caberia alguma esperança.

Daí que o símbolo alto dessa religiosidade da moda seja a Planned Parenthood.

Descubro que tenho uma criança gestando no ventre de minha esposa e, tão logo revelo a boa-nova aos conhecidos, todos mais ou menos obedientes aos dogmas dessa mitologia em 4K, e eles encaram-me com ar doutoral, com jeito paterno, com um quê de despeito e, abrindo mão de toda a etiqueta do trato social, adotando a franqueza do misantropo de Molière, despedem sobre mim toda uma torrente de recomendações e mesmo broncas. Mencionam que é muito complicado, insinuam que ganho pouco, arriscam que não darei conta do ensino, indicam-me bons castradores e advertem-me, com certeza apodítica, que “um só” é mais do que suficiente. Aliás, dão a entender que seria mais sábio se me satisfizesse em comprar uma calopsita, um hamster ou um poodle nas gôndolas autorizadas do IBAMA.

Vede o que passo, Pessoa? Na sua época ainda se podia desejar ter filhos e era mesmo coisa de Deus querê-los. Hoje, ai do pecador que isso almeje!

Há quem diga que botar crias no Mundo é egoísmo, que já há gente para além da conta. O Mundo, essa divindade perecível que adotaram, não vai sobreviver com o peso de mais um João ou mais duas Marias. É o que alegam. E dizem: que matemos um bom bocado dos vivos – de câncer, de fome ou de tédio – e que abortemos, felizes, todos os novos pleiteantes. Eis o mandamento áureo da nossa juventude que é repetido, com algumas variações mais sutis, porém com idêntica substância, pelo Secretário da ONU, pela Miss Azerbaijão, pelo craque do Manchester United e pelo motorista de Uber que trabalha além do razoável na Vila Madalena.

E seguem a catequese: há a pílula, a camisinha, o coito interrompido, o DIU e o misoprostol. Não há mais por que parir, não há desculpa a essa canalhice, admoestam-me. E, ora, há as viagens, os shows de stand up, o jeans P, o novo Iphone. Quererá, infiel, se ver apartado disso? Ficará de fora da vanguarda do Mundo?

Quanto a mim, de tudo isso tiro sarro, pois, graças ao Deus antigo, a quem porcamente deposito a minha fé, conheço as causas dessa doença e dela estou vacinado. Portanto, faço que ouço as dicas, finjo que concordo, não perco a compostura e sigo o baile. Nisso acompanho o grande professor Hamlet, o que melhor ensinou, em todos os tempos, a fórmula para bem conviver com os loucos: aprenda a dissimular loucura.

Entretanto, não sente vergonha, Pessoa-defunto, de ter reclamado e se atormentado, assim, de barriga tão cheia?


 
 

1 thought on “Reclamação ao poeta Fernando Pessoa

  1. Perfeito! Simplesmente perfeito. Pasma por ser ter encontrado esse site agora. É um completo bálsamo para os meus olhos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *