Os novos e os velhos mendigos

“‘Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.’” (Mateus; 25:40)

Aqui no metrô de São Paulo formou-se, de uns anos para cá, uma nova modalidade de mendicância: são os mendigos profissionais.

Você está lá, perdido no seu feed infinito, jogando aquele joguinho sem sentido ou mesmo lendo aquele best-seller água com açúcar, perdido em si mesmo, num trem lotado entre o Jabaquara e o Paraíso, e como que por bruxaria surge um bilhete surrado no seu colo.

Daí toma nas mãos o já manjado papel tentando adivinhar na multidão quem foi o entregador. Divisa então com um rapaz na flor da idade, razoavelmente bem trajado – às vezes calha de eu estar mais mendigo que eles –, cabelo cortado, limpo e portando uma mochila bem conservada, de onde vai tirando seus bilhetinhos. E os distribui desdenhosamente, lançando-os às pernas dos passageiros, homens, mulheres e velhos, sem ter ao menos o cuidado de marcar a cara do potencial benfeitor.

Então ele termina a partilha da mensagem e, ao se voltar à plateia, sempre revela uma cena, no meu entender, das mais engraçadas: seu rosto, e só seu rosto, está todo tingido de prata gritante, metálico, como se se tratasse de um ciborgue. O sujeito quer se passar por aqueles dignos artistas da Praça da República e do Viaduto do Chá, aquelas estátuas humanas. Não obstante, todos os passageiros do dia-a-dia já sacamos que nisso são totais impostores.

Seguindo o script, o jovem pedinte pede atenção de todos – o que atualmente só uns poucos concedem – e se põe a rezar a decorada ladainha de valor retórico já prescrito. “Desculpe atrapalhar a viagem de vocês…”. Etc. etc.

Acaba que apenas um ou outro menos avisado ou mais mão larga, saca do bolso uma moeda miúda ou um saquinho de pão de queijo amassado dos que vendem nas bancas das estações.

O moço, por conseguinte, mais bronco que na entrada, talvez pelo baixo sucesso da empresa, pega de volta, aos solavancos, seu cartão de visitas, mete-os na mala, averígua se não há guardas na plataforma, ajeita-se e sai correndo para o próximo vagão, onde vai repetir ritualmente todo o processo. É uma espécie de mecanização industrial do ato tradicional de mendigar.

E no ato tradicional de mendigar se dá um dos tipos de relações humanas das mais belas e profundas. Não que seja bom estar na posição do mendigo, nem posso conceber o quão ruim seja. De jeito nenhum pretendo aqui romantizar a desgraça alheia. Mas o mendigo tradicional, o da sarjeta, o da estrada, aquele com seu cão a lhe encalçar, ele é um símbolo concreto, palpável, indisfarçável, da nossa pequenez, da nossa fraqueza.

Você está todo soberbo depois de um dia produtivo no serviço, indo para um jantar chic com a nova ficante, dirigindo o carro zero recém quitado. Acha-se nos píncaros da existência. Daí para o carro no farol e, pá, está lá na porta do McDonald’s da esquina um seu semelhante à míngua, com sede, fome e frio. E como a Fortuna é inexorável, e isso todos sentimos, calculamos que ali poderia ser nós mesmos. Dessa forma, com a delicadeza de um campeão do UFC, o senso da realidade nos compele à concretude trágica da vida terrena. Obra do mendigo.

Cabe aqui o relato de uma experiência pessoal.

Certa feita, ia num agradável ônibus vazio para o trabalho, num dia delicioso de meio de ano, clima temperado, com o sol bem saído, o céu calvo de nuvens e um vento alentador soprando suave. Desci numa avenida pouco movimentada – o que dava uma impressão ainda mais gostosa ao ambiente.

Entretido com a música alta estalando no fone, atravesso a rua e ladeio uma pracinha bem pequena, daquelas protocolares, com o punhado mínimo de vegetação que a lei manda e cheia dos aparelhos de ginástica com os quais os velhos, no irromper da alvorada, se exercitam.

Mas já era meio-dia e a praça estava deserta. Deserta senão pela presença de um único ser. Aliás, descobri-o sem vê-lo. Ele se apresentou, antes, pelo cheiro. O cheiro era um encarniçado de muitos ratos mortos há dias, algo que invadia, irresistivelmente. Era como se aquilo tivesse arrebatado todo o ambiente e só restasse aquele cheiro muito agudo, fedido, horroroso. Um cheiro com textura, lúbrico, color.

E eis que do cheiro brotou o homem. O pobre diabo estava num estado lamentável, imundo, aos trapos, algo ferido. Tinha jeito de muito doente. Quem sabe à beira da morte – embora ainda se mantivesse em pé.

Olhei-o com interesse profundo. Meti a mão no bolso, interrompi a execução duma ouverture wagneriana que acabara de começar e tirei os fones fazendo-os penderem na gola da camiseta. Aquela presença monstruosa tinha me ocupado todo e, maquinalmente, quis verter todos os sentidos a perscruta-la. Todo o regozijo do dia, todo o estado interior que vinha tranquilo, tudo foi suplantado. Voltei-me todo à contemplação daquele andrajo.

Entrementes, num relance de reflexão, uma ideia me apedrejou. Notei, assustado, que aquela besta-fera era… eu. Sim, eu, sobretudo meu eu mais íntimo, aquele que só eu conheço. E senti que, em alguma medida, se tratava de todos nós. Se a Igreja nos ensina que somos Lázaro, defunto de dias, porque não seríamos esse semivivo? Todos fedemos assim, afinal. Por que então logo eu, que sou ele, afetaria repugnância?

Porquanto tive o ímpeto de aspirar mais profundo, e o fiz. Meu estômago revolveu e algum movimento interno fez-me crer que vomitaria. Só um susto.

Ali tive uma das experiências mais profundas. Um quadro duro e comovente a um só tempo. Em suma, o cheiro da morte fez-me sentir muito vivo.

Não lhe dei nada. Não tive as forças de um São Francisco para travar conversa com ele. Tudo isso não durou dois minuto. Foi o tempo de ser invadido pelo cheiro, fitar o corpo donde ele exalava e seguir a marcha. Não lhe dei nada, reitero. Mas ele me deu tudo. O fato se deu há uns três anos.

O que vinha dizendo, então, é que os mendigos tradicionais têm essa peculiaridade de nos purgar de um sem-número de orgulhos, vaidades e avarezas. Um homem naquela situação nos obriga a cumprir o mandamento dos mandamentos. Não tem como vê-los sem nos colocarmos em seu lugar; e, não querendo nos ver naquela situação, desejamos honestamente que eles também se safem. Por isso lhes damos algo. E é como se déssemos auxílio a uma possibilidade de nós mesmos, malgrado uma tendência diabólica, das muitas que fazem vigília na nossa alma, cumpra seu papel e faça brotar aquele pensamento mesquinho e indecente que comemora: “que bom que não sou eu”. Mas isso é de somenos. A esmola está dada e o milagre da caridade está feito. E o diabo que se lasque.

Agora, os mendigos do metrô… veja lá, não julgo se se tratam de meros malandros e que não precisem de ajuda, mas é certo que eles não nos despertam nada que não seja suspicácia, indignação e maledicência.

Pensei nisso justamente quando vinha pendurado num trem lotado da linha azul, com a cabeça recostada no braço esquerdo que se esticava para segurar o ferro do teto. Boa posição para pensar.

Pensei nisso e fiquei melancólico. Todavia, quando, aos empurrões, saia do vagão para ganhar a plataforma da estação Conceição, notei, comovido e contente, que se esgueirava para entrar um homem maltrapilho, descalço, barbudo e sujo.

Talvez ele tenha convertido alguém ali e, no fim, cumprido a missão espiritual dessa lamentável e a um só tempo providencial condição humana.


 
 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *