Olavo, o bobo da corte de Bolsonaro

A soma da malícia com a profunda incultura do pessoal da Revista IstoÉ redundou em uma das melhores análises sobre o papel do filósofo Olavo de Carvalho no governo Bolsonaro. Coisas que só a providência explica.

Na verdade, não sei o que disseram, e isto pouco importa. Mas, está aí, para o Brasil ver, o símbolo que escolheram para retratar seu oponente. Segundo a capa da IstoÉ dessa semana, Olavo é o bobo da corte bolsonarista.

E ele é, em certo sentido, precisamente isso.

 

Os Bobos

Os bobos são figura cativa em uma série de grandes obras da literatura mundial. E – novidade para o pessoal da revista – eles não estão lá como meros palhaços cuja função é distrair um rei entediado ou irritadiço com toda sorte de macacagens que a mente humana possa conceber. Não é nada disso, caro editor da IstoÉ.

Como diz Jean Chevalier, em seu dicionário de símbolos,

“No séquito dos reis, nos cortejos triunfais, nos dramas da comédia, o bobo está sempre presente. É a outra cara da realidade, aquela da qual a situação presente se esqueceu e que, sem dúvidas, reclama nossa atenção”.

 

O bobo é aquela personagem que, por não ter nenhuma posição social a que proteger, nem posses que tema perder, nem aparências que precise disfarçar, tem a liberdade de dizer, na lata, de maneira crua, o quanto a situação está desordenada e quem são os causadores da confusão. Claro que diz tudo isso com chistes, galhofas, charadas e tudo o mais lhe molda o estilo, mas diz.

Ele é “a outra cara da realidade”, no sentido de que em um mundo corrompido, porém adornado pela aparência das convenções sociais, das hierarquias, dos laços políticos, do respeito humano etc., é ele que vem, fantasiado, como que para simbolizar que está fora daquela realidade – e nisso há algo de bobo em Dom Quixote –, e diz de fato como as coisas são.

 

Dois Bobos de Shakespeare

Em alguma medida, Hamlet foi um bobo na corte de seu falecido pai. Depois que o espectro do rei traído lhe apareceu e lhe revelou toda a trama montada pelo seu tio Cláudio e pela sua mãe Gertrudes, o único meio que o jovem encontrou para continuar atuando naquele mundo virado de ponta cabeça foi dissimular loucura – passou a fazer-se de bobo. E só quando convenceu a todos que estava mesmo louco é que ele pode revelar toda a podridão que fazia feder o reino da Dinamarca.

Porém, para o caso presente, há um outro bobo shakespeariano altamente significativo e que calha perfeitamente com a situação: é o bobo do Rei Lear.

A tragédia do Rei Lear é a seguinte: um rei justo e poderoso, porém idoso e cansado, resolve dividir seu reino entre suas três filhas. E está tudo pronto para o acerto, até que o rei pede que elas lhe façam declarações de amor, lealdade e fidelidade. As duas mais velhas, Goneril e Regane, dissimuladamente, fazem discursos belíssimos, pomposos e enchem o pai de orgulho. A terceira, Cordélia, a mais nova e preferida, vê a falsidade das irmãs, e, na sua pureza e firmeza de caráter, não cede. Quando questionada pelo pai sobre o que podia lhe dizer para garantir seu quinhão na herança, a jovem responde, secamente: “nada”.

Aqui se desenrola o drama. Ato contínuo, o Rei Lear, perdendo a razão, roga todo tipo de praga na menina, a deserda e a entrega, sem nenhum dote, ao Rei da França – que a disputava com o Rei da Burgúndia.

Desta feita, o conde de Kent, o homem mais leal ao rei, vendo que seu senhor enlouquecera, tenta de todo modo dissuadi-lo da decisão.

“Descortês será Kent, se louco é Lear. Que estás fazendo, velho? Acaso pensas que o dever tenha medo de falar, quando o poder se abaixa até à lisonja. A honra obriga à franqueza quando tomba na loucura, assim tanto, a majestade”.

 

Como resultado dessa atitude nobre – quantos conselheiros do presidente teriam a coragem de fazê-lo? – acaba humilhado e é expulso do reino.

O Rei, tomado por uma vaidade senil, afastou-se, de um só golpe, da verdade, da pureza, do espírito (Cordélia); e da justiça e nobreza (Kent).

Daí que Lear resolve deixar-se aos cuidados das duas filhas mais velhas – as bajuladoras – que se revezariam nessa tarefa. No entanto, logo de cara, a farsa se desfaz: as filhas que o encheram de elogios, na verdade, odiavam-no. Goneril, a mais velha, a quem primeiro coube acolher o pai desfeito de todas as posses, passa a maltratá-lo e incita os servos a desobedecê-lo.

“Velho caduco, a pretender o mando sobre o que doou! Por minha vida, os velhos tontos são de novo crianças; com ralhos, só, precisam ser tratados.”

 

Agora Lear não vale mais nada, o poder está definitivamente com as filhas que o venceram pela falsa lisonja.

Aqui entra o Bobo. Ele será o guia do Rei no caminho de restauração da razão – ou seja, na restituição das relações com Cordélia: o reencontro do homem decaído com o espírito. E é na cena IV do primeiro ato que acontece o início da tomada de consciência.

Depois de ser ignorado pela filha e maltratado pelos servos, o conde de Kent e o Bobo cumprem o seus papeis de revelar o cenário real e apontar o caminho da restauração de Lear. Diz o Conde de Kent – travestido de empregado para poder continuar servindo a seu senhor mesmo depois de ter sido despedido:

“Vamos, senhor, levantai-vos! Fora daqui! Vou ensinar-vos a distinguir as pessoas”.

E o Bobo:

“A verdade é um cachorro que se mete na casinha e precisa ser chibateada para sair…”

 

Mais adiante, há o seguinte diálogo entre os três que sintetiza a ideia geral da cena:

Lear – Com isso queres dizer que eu sou bobo, menino?

Bobo – Já abristes mão de todos os outros títulos; esse é o único que te veio do berço.

Kent – Milorde, o que ele disse não é inteiramente destituído de senso.

 

E o Bobo segue, por diferentes modos, tentando abrir os olhos do Rei à situação em que ele se encontra:

“Ora, tio, desde que de tuas filhas fizeste tuas mães. Porque desde que lhes entregastes a vergasta e desceste os calções, elas choram de alegria; de tristeza eu rio e canto, por ver um rei na folia, mas na cabeça nem tanto. Tio, por obséquio, arranja um mestre-escola que ensine teu bobo a mentir. Desejara muito aprender a mentir”.

Também:

“Não posso compreender que tu e tuas filhas sejais aparentados; elas me açoitam por eu dizer a verdade, enquanto tu pretendes fazer o mesmo no caso de eu mentir, sem contarmos que algumas vezes tenho sido açoitado por estar quieto”.

 

E quando é oprimido por olhares de Goneril – que quer manter a verdade oculta –, diz:

“Pois não, pois não! Vou segurar a língua, que é o que vossa fisionomia está ordenando, muito embora nada houvésseis dito”.

 

Logo depois que Goneril deixa claro que o pai lhe é um estorvo e que pretendia diminuir-lhe a metade do séquito – que era o que restava, ao menos como símbolo material, do poder que, de fato, Lear já não tinha – vem a primeira grande virada de consciência do Rei e o arremate sincero do Bobo:

Lear – Conhece-me ainda alguém? Não, não é Lear. Andava Lear assim? Falava assim? Onde terá os olhos? Há de fraca ter a razão e rombos os sentidos. Estarei acordado? Não. Quem pode vir-me contar quem em verdade eu seja?

Bobo – A sombra de Lear.

 

Lear era só a sombra de si mesmo porque perderá a luz representada por Cordélia. Ele enlouquecerá pela vaidade e havia perdido sua alma, sua identidade, seu coração – uma vez que Cordélia vem de cordis, cor, coração em latim.

Daqui para diante, o Rei vai restaurando a sanidade, vai se purificando dos vícios que o levaram ao cadafalso, até que uma tempestade e uma guerra restabeleçam a ordem.

O Bobo vai lhe seguindo por toda a peça cumprindo a missão de ir lhe revelando os cenários e as verdades que Lear receia aceitar – o Bobo é também sábio e pedagogo.

Claro que nesse caminho de regeneração atuam outros personagens como o conde de Kent, Edgar, o duque de Albânia e o Rei da França. Mas o Bobo é quem primeiro lhe limpa os olhos e lhe revela o quadro real. O fio da meada da tomada de consciência está no Bobo.

 

Olavo, o Bobo

Ora, é exatamente esse o papel que Olavo vem representando nesse início trágico de governo.

Vendo o presidente perdendo sua identidade por influência de aduladores que conspiram pelas costas, Olavo, que não deve nada a ninguém, que não defende um cargo e que não vende a verdade em troca de parecer um gentil-homem polido da high-society é quem está tentando mostrar o quadro real em que Bolsonaro está metido.

Claro que Bolsonaro não é um paralelo do Rei Lear.  Mas Olavo está mesmo fazendo um papel de Bobo – embora não se resuma a isso –, um dos mais nobres e necessários nesse teatro que é a política brasileira.

Nesse caso, certos generais, a mídia, intelectuais e detratores em geral são como a Goneril que, com cara feia,  pretendem fazer o bobo calar. Ou talvez pior.

Segundo Chavalier, ainda sobre o Bobo:

“Às vezes é condenado a morte por lesa majestade ou traição à sociedade; executado e sacrificado”.

 

Quantos, hoje, não desejam em segredo o silêncio eterno desse Bobo tão incômodo?

22 thoughts on “Olavo, o bobo da corte de Bolsonaro

  1. Meu Deus. Muito bom, não precisa bater tanto assim. Eu me senti um cretino ao ler isso, imaginado eu sendo escritor da revista ao tentar desclassificar alguém, sem ao menos de fato conhecer o papel do personagem.

  2. Olavo não é bobo da corte. Ele é um bobo na corte.
    Mesmo porque ele mesmo disse que não tem interesses políticos, mas apenas o desejo de ter seu pensamento imortalizado.
    Isso ele já conseguiu porém, de forma frustrante, o que é justo.
    Só não vê quem é cego, ou que não tem senso crítico.

  3. Esse Olavo leu alguma coisa e às vezes emite alguma opinião com alguma perspicácia. Entretanto, como não tem escolaridade, ele voa mas não sabe pôr os pés no chão.
    A visão geral dele é rasa porque apegada a dogmatismos, nesse caso, de uma antiga e nascente direita. Os teóricos da esquerda, é bom lembrar, também se enebriam, estes no caldo azedado de 1917.
    É incapaz de perceber que a ciência e a tecnologia viajando a uma velocidade da luz em nossos tempos deixa cada vez menos verdades para esses curiosos estudantes trostkistas ou aqueles do sr. Adam Smith do qual o seu Olavo é um saudosista.
    Além de que ele é, sem dúvida, uma pessoa que deixou-se levar pela vaidade, tornando-se um inconsequente.
    É um Lair Ribeiro da filosofia ou da astrologia, sei lá…

    A governabilidade do governo Bolsonaro está acima desses egos.
    “_Fui eu quem combati primeiro os comunista brasileiros…nhem nhem nhem_”.
    Para com isso, ôh sr. .

    O compromisso com a realidade politica enfrentada pelo presidente em nada é facilitado com essa verborreia destemperada, muitas vezes usando uma linguagem chula totamente inoportuna para o meio e para as pessoas para quem se expressa.

    Esse sr. destrói qualquer credibilidade que possamos esforçar para lhe dar.

    Todo dia ele vem com uma sandice derivada de sua vaidade extrema.

    Penso que já demos muita atenção pra esse gafanhoto desengomado !

    1. Estais certo que o Olavo às vezes extrapola se observado pelo senso comum, tem a sua forma de se fazer notório, mas isso não o desqualifica conforme o inseristes no texto.
      Seus feitos superam a largo qualquer procedimento que julgas inconvenientes, quiçá tivéssemos mais homens a altura de OLAVO DE CARVALHO

    2. Estais certo que o Olavo às vezes extrapola se observado pelo senso comum, tem a sua forma de se fazer notório, mas isso não o desqualifica conforme o inseristes no texto.
      Seus feitos superam a largo qualquer procedimento que julgas inconvenientes, quiçá tivéssemos mais homens a altura de OLAVO DE CARVALHO

  4. Eu fui difamado pelo Olavo de Carvalho e injustiçado, com acusações que eu posso facilmente provar são irrealidades. Eu desejaria alguma retratação pública dele, mas eu sei que é improvável que se admita haver cometido as falsas acusações que ele cometeu, nas circunstâncias em que ele se encontra. É errado da minha parte não me esforçar ao menos um pouco por ser vindicado. https://pedrohenriquedelima.wordpress.com/2018/10/25/esnobismo-e-pos-conciliarismo/

  5. Brilhante artigo! Parabéns Fábio Gonçalves! Prazeroso ler um comentário de alto nível em tempos de tanta baixeza!

  6. O Olavo é um imbecil à altura de seu maior seguidor e igualmente desqualificado, JAIR. Ambos já estão na hora de Já Ir.

    1. Sonha, garboso infante, pois apesar do fel que escorre do canto da tua boca
      E do limo fétido que não percebes a tisnar teus fundilhos à altura da cloaca
      Hoje, amanhã e doravante, não encontramos mais no palácio aquela louca
      Que impeachmada abriu caminho para caçar seu criador, que hoje está preso, babaca.

  7. Olavo é um idiota que so quer holofotes. Esta se lixando para o povo brasileiro . Seus seguidores se assemelham aos seguidores de Lula; fanatismo cego.

  8. Excelente artigo, professor! Como admiradora de Shakespeare sua crítica está perfeita! Parabéns! Devemos desprezar os detratores do mestre Olavo, “não têm olhos de ver…” ainda! Cordiais saudações

  9. Excelente artigo.
    Concordo com as últimas críticas do Olavo.
    Sinceramente não gosto da maneira como ele critica, como apelida as pessoas, tentando humilhá-las.
    Mas sei que ele continua importante na medida que opina sobre erros e acertos do governo e de seus integrantes.

  10. Pessoa, vc precisa ler Hamlet! Se informe sobre Yorick! Há uma matilha de pseudo intelectuais distribuindo suas vaidades por ai…

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