O sucesso de um filme e o fim de uma hegemonia

No momento que escrevo, dia 3 de abril de 2019, às 14h, o filme-documentário 1964: o Brasil entre armas e livros já atinge a impressionante marca de 1,5 milhões de views do YouTube. Nos comentários da plataforma, muitos elogios. No resto da rede, só se fala nisto. O sucesso é incontestável.

E esse êxito se deve – para além da beleza, seriedade e importância mesma da produção – ao fato de que por uma constante humana escolhemos sempre ficar ao lado dos injustiçados.

Havia muitos interessados em que o filme não vingasse. A grande mídia, em uníssono, o catalogou como um filme “pró-ditadura” e a rede Cinemark, a maior do país, com uma desculpa esfarrapada, vedou a exibição do filme em suas salas. Entretanto, não há defesa melhor à causa do mais fraco que a soberba pública do poderoso.

Toda essa operação abafa se deu porque a obra toca justamente no centro nevrálgico da narrativa que manteve, até hoje, a esquerda brasileira de pé. A obra de pouco mais de 2 horas de duração, simplesmente desacredita, talvez de maneira incontornável, o mito fundador dos movimentos político-ideológicos que construíram e comandaram a Nova República.

O mito oficial, repetido ad nauseam no Fundamental II, no Ensino Médio, nos cursinhos, nas faculdades, nos documentários, no noticiário, nos filmes, nas peças teatrais, nos seriados, nas novelas e nos livros, era: houve, no Brasil, em 1964, a interrupção abrupta de um processo democrático que ia, até ali, às mil maravilhas. Quem interrompeu? Os militares, com a ajuda dos EUA, o polo capitalista-opressor da Guerra Fria.

Por conta disso, grupos de esquerda, em defesa dos interesses nacionais, dos mais pobres e da democracia aviltada, se articularam para derrubar o regime ditatorial – que censurava, torturava e matava aos milhares, inescrupulosamente.

Então, em 1984, depois das pressões de movimentos democráticos como o PT de Dilma, Dirceu e Genuíno, todos antigos heróis-guerrilheiros, e de verdadeiros mártires da cultura amordaçada, como Caetano Velosos e Chico Buarque, os militares cederam e devolveram o país aos civis. Foi a libertação, o êxodo do nosso Egito.

Por fim, para coroar o processo, os opositores do regime facínora emplacaram a Constituição Cidadã de 1988. Criava-se, doravante, um novo país, cujo Norte era ser antítese do passado sombrio, da Idade das Trevas que se formou sob o comando dos homens de verde-oliva e coturno.

A partir de então, quem ficasse contra esses verdadeiros salvadores da nação, como Brizola, Lula, Paulo Freire, Frei Betto, FHC, José Serra, Ciro Gomes e tutti quanti seria logo tachado de viúva da ditadura, fascista, torturador, criminoso e toda a sorte de vitupérios – vitupérios merecidos aos que se pusessem a defender os monstros militares pintados em um tal quadro.

Mas era realmente só uma pintura. Pintura que fora sacralizada, que não se podia ousar retocar.

E foi exatamente isso que o Brasil Paralelo e os entrevistados do filme fizeram. Tocaram no assunto proibido, reviraram os documentos, checaram as fontes e, sacrílegos!, deram ao país uma pintura nova, em que só alguns poucos traços, rabiscos e cenas de plano de fundo, coincidem com a anterior.

Eis o motivo da ira, do boicote e da fofocagem em torno do filme.

 

Um resumo

A nova narrativa, por sua vez:

  1. Traz uma importante contextualização do fenômeno (o regime militar) dentro do quadro mundial amplo da Guerra Fria;
  2. Demonstra que nesse quadro internacional havia menos uma luta entre dois tipos de organização econômica, mas, antes, entre dois tipos de mundos: de um lado, o mundo da liberdade – que se goza ainda hoje, por exemplo, nos EUA, na Coreia do Sul e na Austrália – e, do outro, o mundo da tirania – que vigora na Venezuela, na Coreia de Norte, em Cuba;
  3. Prova, documentalmente, que, ao contrário do que versa a mitologia esquerdista, não havia agentes da CIA lotados no Brasil, mas, de outro modo, toda uma vasta rede de agentes secretos e discretos de vários países ligados à Moscou tramando, já muito antes de 64, uma revolução comunista no Brasil – desmentindo toda aquela história de que o perigo comunista havia sido mero pretexto inventado pelos milicos;
  4. Mostra que havia agitação guerrilheira maoísta, no interior do Brasil, em 1962 – o que contradiz a versão oficial de que as guerrilhas tenham surgido apenas como uma reação democrática ao golpe;
  5. Retrata com fidelidade os momentos decisivos do governo de João Goulart que antecederam ao golpe, colocando a figura do ex-presidente numa perspectiva mais justa;
  6. Assume, aliás, que houve não um, mas dois golpes: um parlamentar e, só depois, o militar.
  7. Revela, porém, sem ficar em cima do muro, que a população queria se ver longe das garras comunistas – o que, olhando a realidade dos regimes desse viés, fazia todo o sentido – e que legitimou, por isso, todo o movimento cívico-militar que tinha por fim preservar as instituições democráticas e a estabilidade econômico-social que se via em risco.
  8. Critica, todavia, o governo militar, numa fria análise caso a caso, mostrando as nuances dentro do regime – que no mito se encara como um bloco –, apontando os erros, reconhecendo os acertos etc., tudo sem demonizações ou beatificações;
  9. Deixa claro que a repressão e a censura que houve nos meios culturais, foi branda, ineficaz e sazonal, e que, ademais, acometeu igualmente esquerdistas e direitistas – ambos vistos como inimigos pela ótica positivista que dava o tom do regime;
  10. Desmistifica a ideia do assassinato em massas, mostrando que houve abusos e cadáveres inocentes na conta de ambos os lados, talvez até mais do lado dos revolucionários que, na década de 1970, apostaram no terrorismo urbano como estratégia de sublevação – como mandava o manual de Carlos Marighella;
  11. Explica, por fim, como a esquerda, vencida na bala, venceu nos livros. E, que, por isso mesmo, pode reescrever a história – só agora revisitada – a seu bel-prazer.

 

Estamos falando, portanto, de um feito de grande monta. Agora, depois de décadas falando sozinha, a esquerda vai ter que descer do seu mundo intangível da CAPES e do CNPq; vai ter que desentocar dos DCEs, dos comitês juvenis, dos diretórios partidários; enfim, vai ter que responder. Se desdenhar, vai continuar perdendo, vai ficar mais feio. Se retrucar, inevitavelmente terá que rever pontos, que abrandar a verve, que confessar exageros. Em suma, será forçada a debater o assunto. E isso se chama: o fim de uma hegemonia.

 

Para quem ainda não assistiu essa peça história, não perca o bonde:


 
 

4 thoughts on “O sucesso de um filme e o fim de uma hegemonia

  1. O valor do documentário do Brasil Paralelo suplanta qualquer elogio. Com ele, a hegemonia esquerdista foi feita em frangalhos. Aplausos, portanto.

  2. Isso é muito maior do que parece num primeiro momento. Agora temos material isento para mostrar aos nosso filhos, prepara-los para eventuais professores-militantes.

  3. Estamos sendo resgatados de um mar de mentiras que afogou a nação por 35 anos, criado por bandidos do PMDB, PSDB, PT etc., em coluio com a grande mídia podre e setores empresariais globalistas.

  4. A qualidade da obra e o profissionalismo do Brasil paralelo é surpreendente.

    1964 é um documentário impecável e deve se guardado para as futuras gerações.

    Outra obra de arte produzida por eles chamada; Brasil a última cruzada é fenomenal.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *