Ainda não temos uma política conservadora (parte 1)

O povo foi às ruas, “o gigante acordou”, a luz no fim do túnel trouxe o amanhecer de uma nova era. Mas a fatídica pergunta “e agora?”, feita desde o dia da posse de Jair Bolsonaro, ainda ecoa sem resposta. O que falta para o conservadorismo deixar de ser uma resistência à política para se tornar uma política?

Afinal de contas, uma coisa é levar as pessoas às ruas para uma eleição ou uma Copa do Mundo, cujo estímulo pode se assemelhar em muita coisa. Outra, bem diferente, é manter no poder um governo alinhado à sociedade em um país de hegemonia cultural de uma esquerda que cresceu justamente impedindo o contato entre a sociedade e a classe política.

Essa nova direita precisa trabalhar dentro de um ambiente político dominado por uma prática baseada em hábitos consagrados e dependentes de toda a estrutura já existente, isto é, um estamento cujo funcionamento serve apenas para a auto-manutenção. A “politicagem”, como se diz, precisa ser totalmente demolida ou adaptada aos novos tempos? E que novos tempos são estes? Será mesmo que houve uma “nova era” ou tudo isso não passa de mais um amontoado de palavras e slogans para a auto manutenção?

O que se tem feito, por enquanto, é um tipo de gambiarra. Conservadorismo de resistência. Mas nos caberia perguntar o que é preciso (se é que é preciso) para a construção de uma política conservadora de fato, como há ou houve em outros países? Será que isso existe?

É evidente para qualquer um que a chegada ao poder de uma direita de viés liberal-conservadora não tem como consequência imediata o surgimento de um movimento político acabado ou pronto para aquilo que o chanceler Ernesto Araújo chamaria de “travessia rumo a um verdadeiro destino nacional”. Muito menos algo deste gênero tenha sido a causa eficiente da vitória eleitoral, feito que só se pode atribuir a uma etapa mais ou menos fortuita do próprio processo revolucionário que se desenrola no Brasil. E isso é algo a se pensar. Se estamos dentro de uma revolução, nossa ação política será quase invariavelmente revolucionária.

O conservadorismo ainda reside numa ação individual, uma postura existencial. Trata-se de um movimento de ideias apenas potencialmente politico, embora genuinamente popular. Ser conservador é resistir, é reagir “a tudo o que não presta”, como diz a já repetida frase de Nelson Rodrigues. Mas tudo isso será feito em que ambiente? Até agora, pelos atores mais atuantes, foi feita por vídeos de Youtube, postagens no Face e outras tantas iniciativas que pela própria natureza dispensam alguma responsabilidade maior.

É preciso compreender do que se trata a política, suas funções e disfunções, e como ela foi entendida até aqui, para que possamos chegar a uma visão mais clara do que poderia ser uma política conservadora. Isso porque o Brasil conhece a política apenas por sua disfunção, ou seja, o uso dela para a concentração de poder por elites econômicas internacionais, apenas parasitadas por uma esquerda cultural que, em última análise, deseja desconstruir a sociedade, tornando-a disforme para moldá-la à imagem e semelhança de suas utopias.

A sociedade elegeu um presidente porque ele se aliou, se identificou, com as preocupações e os valores mais caros. Ao mesmo tempo, uniu a demanda mais popular anti-corrupção, à renovação de ideias trazida por Olavo de Carvalho, detonador ambulante de hegemonias intelectuais. A estatura intelectual de Olavo, por si só, faz uma sombra assustadora sobre a esquerda, pondo-a efetivamente fora do debate.

Mas a subida ao poder levou junto uma entulhada de fisiologismos. Juntos, militares, liberais e alguns tucanos de colete, ocuparam uma parcela perigosa do poder e passaram a exercer o papel do centrão. Eles representam a desconversa do verdadeiro combate cultural que movimenta o mundo e do qual o Brasil esteve fora por décadas.

Foi graças à guerra cultural que este novo centrão foi elevado às altas esferas, retirado da sua medíocre vidinha no ambiente dominado pela esquerda. Os generais foram retirados por Bolsonaro de baixo das suas camas, onde se escondiam da grande mídia e da esquerda hegemônica. Já os liberais estavam ocupados demais ganhando dinheiro dessa mesma esquerda, promovendo sua agenda cultural sob a forma de responsabilidade social e sustentabilidade.

Agora que estão no poder, desejam reduzir novamente o debate a questões burocráticas e reformismos da velha política para parecer, enfim, que a sua presença nos altos escalões está até servindo de alguma coisa. Comparada com a pesada guerra cultural que se desenrola, os teminhas da direita liberal e dos militares administrativos e tecnocratas são um campeonato de caça a borboletas num jardim distante do campo de batalha em que os verdadeiros soldados derramam seu sangue.

(continua…)


 
 

1 thought on “Ainda não temos uma política conservadora (parte 1)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *