Mourão, qual é a sua ambição?

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Escrevi o seguinte trecho em inícios de fevereiro, em um artigo (leia aqui) que resumia o primeiro mês de polêmicas protagonizadas pelo vice-presidente.

O general Hamilton Mourão, vice de Jair Bolsonaro, a despeito do que nossos costumes e leis digam sobre o que lhe compete no governo, parece querer reencenar, dentro de um quadro histórico totalmente diverso, o modelo de governo de duas coroas como se via nos povos da antiguidade mediterrânica. Talvez o general, ainda com a alma na caserna, não tenha conseguido digerir o revés hierárquico que a democracia provocou de modo que ainda não lhe soe cabível apenas seguir, enquanto general, as ordens de um capitão.

Até aquele momento, para espanto dos bolsonaristas e regozijo dos opositores, Mourão já havia criticado ministros alvejados pela grande mídia hostil – no caso, o chanceler Ernesto Araújo – , prestado um apoio desnecessário ao autoexilado Jean  Wyllys, inimigo antigo do presidente, apoiado o aborto, contrariando uma das mais importantes bandeiras do seu chefe e atacado Olavo de Carvalho, o maior responsável, no plano intelectual-cultural, pela ascensão de Bolsonaro à atual posição.

Decorridos mais dois meses, a tendência se manteve. O vice, por exemplo, deu uma declaração bastante grave em apoio à política desarmamentista, numa entrevista sobre a crise na Venezuela, mais uma vez indo em caminho oposto ao de Bolsonaro. Ademais, o general aceitou ir a um evento cujo convite, vazado na internet, era todo ele uma difamação grosseira a Bolsonaro e uma ode ao Mourão, o queridinho da mídia e intelectuais, conforme os organizadores deram a entender. Na mesma linha, houve o caso da curtida do perfil de Mourão a um tweet da jornalista Rachel Sherazade no qual ela se derrete de elogios ao vice enquanto ataca duramente o presidente.

Nesse meio tempo, além de jornalistas – que logo de cara adotaram Mourão como a figura representativa do governo, dando ao general da reserva a alcunha fofa de Mozão – intelectuais e mesmo políticos de esquerda radical passaram a tecer loas ao vice que cada vez mais passou a encenar o papel de democrata, sensato e inteligente contra o bronco e autocrata capitão. E veja, não há, por parte dele, nenhuma declaração ou se quer indicação, por mínima que seja, que desminta essa narrativa reinante. Os inimigos cingiram a testa de Mourão com os louros do poder e ele os aceitou de bom grado.

No entanto, a questão ganhou uma nova dimensão nos últimos dias. Vou tentar aqui retraçar o contexto.

O filósofo e os militares

Olavo de Carvalho, a principal referência intelectual de Bolsonaro e de seus filhos Eduardo e Carlos, que colecionam declaração públicas confirmando isso, desde o começo, com razão, encrespou com o vice e com outros militares colocadas no alto escalão do governo. A questão colocada pelo filósofo, desde o início, além da postura no mínimo temerária de Mourão, era que os militares, com suas origens intelectuais na ideologia positivista, estavam minando o front de guerra cultural que elegeu Bolsonaro, com a justificativa de que isso seria menos importante do que as questões técnico-administrativas. Ou seja, na visão do escritor, eles estariam incorrendo no mesmo erro que os generais das décadas de 60 e 70 que permitiram a infiltração cultural comunista em canais chaves de propagação cultural enquanto cuidavam, dentro dos gabinetes, do seu regime de viés tecnocrata-positivista.

 

O positivismo

Para quem não conhece, o positivismo surgiu no século XIX, na Europa, contemporâneo ao marxismo, embora com abordagem diferente. À época, acontecia no velho continente um grande boom de descobertas e avanços nas várias áreas das ciências naturais, sobretudo na física de tradição newtoniana. Esse sucesso científico acarretou ganhos econômicos, industriais e militares jamais vistos. Parecia que o mundo ocidental viveria, dali para diante, o auge definitivo de sua história sob o governo da racionalidade científica em detrimento da passionalidade religiosa, filosófica, política, artística etc.

Esse pensamento, presente de várias maneiras no imaginário da elite intelectual da Europa ocidental dezenovista[1], chegou, também, às ciências humanas. E foi assim que surgiu a física social de Augusto Comte, depois chamada de sociologia. Para esse professor francês, seria possível aplicar os mesmos métodos que obtiveram êxito nas ciências da natureza às coisas humanas. O ideário positivista, que é como o próprio Comte chamava sua doutrina, pregava, portanto, que a perfeita ordem política, não só em âmbito nacional, mas mesmo mundial, seria alcançada quando técnicos positivistas tomassem o controle dos governos e aplicassem os métodos dessa física social à realidade política.

Desse modo, para o agente político com mentalidade positivista, as questões de ordem ideológica, no sentido da discussão política entre facções com cosmovisões políticas conflitantes, importam menos que os índices econômicos, a assinatura de tratados internacionais, a promulgação dessa ou daquela lei e do controle racional da máquina pública por meio de técnicos roboticamente treinados para aquele fim. Em boa medida, o que eles vislumbram é a mecanização da vida humana, pelo menos no que diz respeito às atividades públicas.

Essa corrente de pensamento teve no militar Benjamin Constant, um dos pais da República, o seu grande porta-voz no exército brasileiro. Constant era adepto do positivismo inclusive nas suas dimensões religiosas e tratou de trazer às escolas militares essa a doutrina de Augusto Comte que o francês prometia substituir até mesmo o cristianismo – para esse fim, Comte lançou as bases da religião positivista com catecismo e tudo.

Dali para diante, essa vertente nunca mais perdeu força nos círculos militares do país. Vale ressaltar que mesmo a divisa estampada na nossa bandeira nacional republicana, criada pelos milicos, é um mote positivista. Ordem, a ser conquistada pela racionalidade de um governo autocrata que ordenará tudo desde cima; progresso, porque, o positivismo, assim como o marxismo, se insere na cosmovisão que enxerga a história como uma incoercível linha de desenvolvimento teleológico-axiológico. Ou seja, essas escolas de pensamento concebem, com certeza apodítica, que chegaremos em um ponto no futuro no qual os seres humanos alcançarão, definitivamente, sua plenitude física, moral e intelectual. Claro que, para o marxista, esse progresso depende da revolução; já para o positivista, depende da racionalização tecnocrática da economia, política e religião que só os militares treinados no assunto podem proporcionar.

 

Ideologia, positivismo e o militares

Entretanto, pensadores importantes como Christopher Dawson, Henri de Lubac, Roger Scruton, Eric Voegelin e outros, postularam, mais de uma vez, que o positivismo, ele mesmo, é uma ideologia. Na verdade, isso há muito é um consenso, exceto no Brasil, essa terra que é o paraíso das ideias mortas.

Eric Voegelin, usando um termo cunhado por Robert Musil, diz que ideologia é uma segunda realidade. Essa segunda realidade seria criada discursivamente – com palavras, símbolos, obras de arte etc. – por um agente político em vista de justificar suas ações, não importando se ele acredita ou não no mundo de fantasias criado pelo falatório ideológico. Ideologia, portanto, é um discurso retórico autojustificador cuja finalidade é convencer o interlocutor a essa ou aquela ação, finalidade típica dos negócios políticos. Porém, para se tornar mais eficaz, esse discurso vem adornado com bonitas cores idealísticas que o torna atraente para o público específico a que a mensagem se dirige.

E o que é o ideário positivista senão um discurso retórico autojustificador? Quer dizer, a mentalidade positivista, fingindo não ser ideológica, prega a supressão das outras ideologias para gozar sozinha e soberana do poder.

É isso o que os militares vêm fazendo, segundo a interpretação histórica de Olavo de Carvalho. Para o pensador, os militares traíram o povo que os apoiaram em 1964 quando se recusarem a devolver o poder às lideranças civis, como Carlos Lacerda, um político conservador que, segundo as estimativas, seria o eleito após o golpe cívico-militar de 31de março. E mais: imbuídos desse sonho comtiano, os milicos teriam suprimido toda a vida política do país, da esquerda à direita, transformando os parlamentares eleitos em meros burocratas, funcionários públicos carimbadores de papéis. Isso é a ideologia positivista posta em prática.

Acontece que essa explicação, que diminui em muito a relevância dos militares no cenário histórico e político nacional nas últimas décadas, ganhou ampla divulgação:

  1. Pela constante denuncia de Olavo, nos termos mencionados, usando suas muito visitadas redes sociais. O temor do filósofo, segundo se pode depreender dos seus reiterados posicionamentos, é que pode estar acontecendo o mesmo processo malfadado de 1964 – ascensão dos militares positivistas contra lideranças populares autônomas, no caso atual, o próprio Jair Bolsonaro. E o receio de Olavo é tanto mais compreensível, desde sua perspectiva, na medida em que sua análise da história política nacional enxerga uma permanente luta entre o estamento burocrático – classe política e intelectual, incluindo o alto clero – e o povo, que nunca conseguiu emplacar na política oficial um representante que vocalizasse suas reais demandas em vez de trabalhar por interesses oligárquicos, ideológicos, compadrios etc.
  1. Com o grande sucesso do documentário 1964: O Brasil entre Armas e Livros que, se por um lado desmistificou a história de heroísmo democrático da esquerda, minou também a lenda salvacionista dos militares difundindo para milhões de brasileiros a versão olavista com fartas provas documentais.

 

A nova confusão

Nesse contexto, as tensões internas e externas no governo se agravaram. Nas redes sociais, onde há uma grande massa de militantes que votaram em Bolsonaro justamente por conta das questões culturais-ideológicas – combate à esquerda, para ser mais claro – a posição insossa, tucana, dos militares, o desdém às questões morais, o coleguismo com a imprensa e o afago a políticos progressistas etc., começaram a ficar evidentes demais para serem ignorados. Criou-se, então, pelo menos para a camada mais politizada e mais ativa no debate público, a oposição olavista-bolsonarista versus militares positivistas. Ou: guerra cultural versus eficiência tecnocrática.

Claro que aqui temos uma análise do cenário em escala macro. O objeto está sendo olhado de longe e do alto. As fontes que a sustentam são apenas algumas declarações públicas de determinados agentes que podem não ser perfeitamente representativos do todo a que pertencem – alguns olavistas, alguns militares etc. Mas, desde esse ponto de vista, que é o possível até aqui, a opinião geral aponta para essa conclusão. E as posições recorrentes dos principais players da querela – Olavo, Mourão, os bolsonaros etc. – não desmentem a tese.

 

Carlos Bolsonaro

Vendo as coisas por esse ângulo, Olavo e seus seguidores ampliaram os ataques na proporção mesma em que quadros militares e sobretudo Mourão intensificavam suas ambiguidades quanto ao discurso do presidente. E o novo clímax se deu quando um vídeo em que o filósofo tece duras críticas aos generais lotados no governo, em entrevista para o jornalista Bernardo Kuster, foi parar no Twitter de Bolsonaro.

Vejam o vídeo que causou a polêmica:

 

 

O episódio certamente causou mal-estar e, horas depois, o vídeo foi apagado. No dia seguinte, o porta-voz da presidência, o também general Rêgo Barros, leu uma nota, anuída por Bolsonaro, em que agradece as colaborações de Olavo na divulgação das ideias conservadoras, que foram importante contraposição à hegemonia esquerdista, porém, assevera que os ataques do escritor a membros do governo não contribuem para o projeto de país desejado pela administração Bolsonaro.

Aqui, portanto, tivemos a primeira manifestação pública de Jair contra Olavo. É muito possível que a nota não tenha sido escrita pelo presidente, mas, sem dúvidas, ele permitiu sua emissão. O fato, então, parecia ter posto um ponto final – pelo menos temporário – a esse choque. Bolsonaro, espremido entre as duas artilharias, teria preferido apostar nos companheiros de classe, ao menos, pelo que parece, para tentar apaziguar as relações abaladas nos bastidores do Planalto.

Não obstante, entrou novamente na jogada um dos personagens mais importantes dessa nova fase política do país: Carlos Bolsonaro.

Tão logo saiu a nota de Rêgo Barros o filho do presidente passou a disparar, incessantemente, uma série de ataques, ilações e mesmo graves acusações ao vice-presidente. Suas redes sociais, nos últimos três dias, estão dedicadas exclusivamente ao assunto. Carlos comprou a briga pelo lado de Olavo e passou a encerrar as fileiras, agora publicamente, dos que consideram Mourão um traidor. E Eduardo também, com menor frequência, mas com virulência semelhante, entrou na briga. A guerra já não é mais fria. A seguir, alguns exemplos das postagens de Carlos mirando Mourão:

 

A traição em foco

Entretanto, o caso não acaba aí. Em meio a toda essa pressão de Olavo, Carlos e muita gente nas redes sociais contra o general, o jornal O Globo publicou uma matéria da jornalista Bela Megale em que uma integrante do PRTB, partido de Mourão, denuncia uma trama interna, encabeçada por Levy Fidelix, presidente da agremiação, para conseguir base parlamentar suficiente para um impeachment golpista contra Bolsonaro que levaria o vice ao cargo máximo do executivo brasileiro. A conspiração, que já contaria com cerca de cem apoiadores, envolveria uma retomada da política do “toma lá, dá cá”, minaria projetos como o Anticrime do ministro Sérgio Moro entre outras coisas. Ou seja, a tese de que Mourão e outros membros do governo estariam traindo Bolsonaro ganha uma nova evidência que agrava muito o caso.

Hoje mais cedo o jornalista conservador Caio Copolla, repercutiu na Jovem Pan a denuncia destacada em O Globo. Segue o vídeo:

 

 

Outro formador de opinião direitista que ampliou a discussão foi Bernardo Kuster. O jornalista publicou um vídeo em que demonstra a série de fatos que endossam a tese de que Mourão esteja traindo Bolsonaro. Confiram:

 

 

No meio desse balaio, há também o ato de Marcos Feliciano, um dos grandes aliados de Bolsonaro no Congresso e também fã de Olavo, que protocolou um pedido de impedimento contra Mourão sob o argumento de que o vice, ao desdizer tão flagrantemente o presidente, em tantos casos, e em tão curto espaço de tempo, estaria cotejando uma postura inadequada ao cargo. Veja a fala, bastante incisiva, de Feliciano na Câmara:

 

 

Sobre as declarações de Feliciano e os ataques de Carlos, Mourão nada disse de substancial até agora. Não obstante, o fato concreto é que o vice tem, sim, causado grande prejuízo ao governo e gerado um desgaste desnecessário com a base bolsonarista – a qual, inclusive, ele considera “boçal”. Mourão, que fora escolhido por Bolsonaro na esperança de que assomasse como uma retaguarda que aquietasse o golpismo da esquerda, agora é o principal acusado, ele mesmo, de estar tramando um golpe para derrubar seu governante.

Com tudo isso, o sentimento geral é de confusão, dúvidas e decepção. A essa altura, com a amplitude que o caso tomou, o que todos os eleitores ativos de Bolsonaro querem saber é: Mourão, qual é a sua ambição?


[1] Uma série de romancistas do primeiro time como Dostoiévski, Tolstói, Dickens, Balzac, Eça de Queiróz, Machado de Assis, Lima Barreto, Franz Kafka, Aldous Huxley e muitos outros imprimiram nas suas obras, quase sempre com olhar crítico, esse imaginário positivista.

3 thoughts on “Mourão, qual é a sua ambição?

  1. O VICE PRESIDENTE MOURÃO ESTÁ DESLUMBRADISSIMO COM O CARGO E OS ESQUERDOPATAS ESTÃO SE APROVEITANDO DESTA FRAQUEZA HUMANA DO ABESTADO ALIMENTANDO SEU EGO…

  2. Não creio que Mourão esteja conspirando contra o presidente. Na minha opinião, falta-lhe cultura política mesmo. Com tantos generais competentes, Bolsonaro escolheu exatamente o General Mourão. Por que? Quais qualidades ele viu em Mourão? Pelo partido não foi. O PRTB é nanico, sem tradição ou quadros importantes que pudesse captar votos e Bolsonaro nunca se importou com acordos políticos de qualquer espécie. Agora temos que aguentar o homem. Ou vão pedir o impeachment do homem também?

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