Feliz Aniversário, professor

Escrevi o artigo Olavo de Carvalho e a Restauração da Ordem em dezembro passado, antes do filósofo se tornar uma das pessoas mais comentadas – e difamadas – na grande mídia. Hoje, em homenagem a seu aniversário, republico o texto – com algumas correções e uns poucos acréscimos – porque entendo que seja o melhor que consigo dizer nesse dia do seu aniversário.  

 

Olavo de Carvalho e a Restauração da Ordem

Esse título faz referência à obra de Michael P. Federici Eric Voegelin A Restauração da Ordem e isso porque há muito em comum entre esses dois gigantes do pensamento contemporâneo que, constrangidos pela crise civilizacional do ocidente moderno e intoxicados na juventude pelas mazelas da soberba ideológica, fizeram um esforço sobre-humano para resgatar a única terapia eficaz contra a desordem individual e social, terapia esta engendrada há mais de dois milênios por Sócrates, Platão e Aristóteles: a filosofia.

 

A descoberta da alma

O grande feito do mundo grego foi descobrir a alma humana. Essa é uma afirmativa que num primeiro momento pode causar um choque. Parece querer dizer que os seres humanos que viveram até ali, noutros povos fora da Hélade, eram espécies de fantoches ou zumbis perambulando errantes pela Terra. Obviamente, não se pretende afirmar o absurdo de que nenhum ser humano de outros lugares e de outras eras mais remotas não tivesse compreendido em profundidade o que é o ser humano e já tivesse um vislumbre da sua alma. Afirmar tal coisa seria, no mínimo, uma insensatez.

O que na verdade se quer dizer é que a civilização grega pós-homérica se moldou – ou pelo menos buscou se moldar – em torno dessa nova experiência da alma humana; colocou-a no centro de suas criações e constituiu toda uma nova cosmovisão tendo-a como o eixo central. Esse povo ensinou-nos, brilhantemente, e com uma profundidade quase que jamais alcançada, que o homem pode ser o centro do mundo ao passo que na alma humana, lá nos seus recônditos mais escondidos, pode-se encontrar a verdade, a justiça e a beleza. Em suma, descobre-se ali, na Grécia Antiga, que Deus pode ser conhecido não necessariamente pela observação atenta do céu, dos astros, das aves e do oceano como faziam os politeístas antigos. Pode-se descobrir Deus olhando para dentro, para seu centro animador, sua anima ou alma. Logo, o homem que agir segundo a ordem divina descoberta em sua alma, pode ser, ele mesmo, o centro de ordem para a sociedade.

Dentro desse quadro histórico desenvolveu-se as ideias que moldaram o mundo ocidental. Todo o progresso intelectual grego posterior – de Sólon a Péricles, de Ésquilo à Sófocles, de Sócrates à Platão e Aristóteles – tem como centro a ideia de que o homem individual, mesmo estando contra as crenças sociais, é quem pode descobrir a verdade. É o drama de Antígona contra o rei Creonte na tragédia de Ésquilo, de Sócrates contra a Pólis em seu julgamento, de Moisés contra o Faraó, de São Tomás Morus contra Henrique VIII e do suprassumo simbólico dessa tensão: o Filho do Homem, Cristo Inocente, contra os fariseus e o império. De um lado, a consciência individual capaz de especular e descobrir por si, ou de penetrar na substância das experiências de outros homens que descobriram, como realmente funcionam as coisas; do outro, as crenças da cidade, as verdades tradicionalmente aceitas e que custaria a manutenção da ordem social descartá-las. É o conflito entre as Leis Eternas, escritas por Deus e que só se pode ler no coração do justo, e as leis socialmente estabelecidas, que raramente refletem com excelência as Leis Eternas.

 

Olavo e o Brasil

Pertence ao sábio ordenar as coisas

Santo Tomás de Aquino

 

É aqui que se enquadra, no Brasil, a obra e, sobretudo, a pessoa do filósofo Olavo de Carvalho. Olavo é como o Larry Darnell de O Fio da Navalha, romance clássico de W. Somerset Maugham. É o homem que, inserido num meio social tóxico pela superficialidade e vaidade reinantes, percebe a real medida da vida na morte – Larry numa experiência de guerra, Olavo por uma doença na infância –, e, doravante, sai em desesperada busca pelo que realmente importa, por aquilo que se sente como crucial para o curso de sua existência. É o sujeito que percorre piedosamente todo o duro caminho da vida espiritual e intelectual e, depois de ter perdido tudo, menos a personalidade, depois de ter conhecido todo um universo cultural, desde a mística medieval até a mais profunda e antiga sabedoria oriental, volta para sua terra – ou entra em contato com ela – com a pretensão de que

[…] algumas almas indecisas – para ele atraídas como mariposas para a chama – chegarão, com o tempo, a compartilhar de sua maravilhosa crença de que a verdadeira felicidade só pode ser encontrada nas coisas do espírito.

WSomerset Maugham, O Fio da Navalha

E foi isso que Olavo fez e seu próprio nome é maravilhosamente simbólico do fato. Olavo vem do germânico Olafr adaptado do nórdico antigo Aleifr uma junção de ano (ancestral) leifr (herança, legado). Olavo significa, por conseguinte, herança dos ancestrais. Raras vezes o nome é tão representativo do homem. Dentro do quadro de desoladora desordem espiritual, intelectual e moral do Brasil Olavo é como que o elo que nos liga, jovens e velhos, homens e mulheres, pobres e ricos, imergidos nas brumas infernais de uma sociedade em frangalhos, aos esforços, que remontam aos sábios gregos, de se encontrar os meios para nos elevarmos àquilo que é imortal, eterno e divino a despeito das pressões da realidade imediata, por pior que seja.

O que as pessoas da grande mídia, da intelectualidade mainstream e da classe política não conseguem atinar, na medida que são exemplos vivos da noese (doença espiritual) dos nossos tempos, é que, para além de sua significativa importância no cenário político imediato – pôs abaixo a hegemonia esquerdista, possibilitou a ascensão de movimentos políticos alternativos, criou o ambiente que abriu as portas para o fenômeno Bolsonaro e sugeriu nomes para ministérios –, Olavo trouxe a essas pobres plagas tropicais a civilização que havíamos perdido no último meio século e isso é uma obra heroica de valor inestimável[i]. O Brasil tem uma dívida impagável com esse homem.

Ele, o homem, em sua completude, com sua personalidade total, nos atrai a todos que, embora perdidos, ansiamos, ainda que inconscientemente, por aquela reviravolta (periagoge) descrita no Mito da Caverna de Platão. E, mais do que nos ensinar qualquer doutrina política ou mesmo uma pseudofilosofia salvacionista[ii], Olavo nos mostra que o caminho para a felicidade verdadeira está na busca da verdade e que essa busca não tem uma forma redutível a qualquer manual comportamental dos que se vendem no show business. Antes, é uma mudança radical de conduta, uma abertura permanente para o real, em todos os seus aspectos, com todas as suas tensões e contradições. É uma verdadeira conversão que se expressa, por exemplo, nos milhares e milhares de seus alunos que, assim como eu, retornaram ou descobriram a religião, que entenderam a necessidade de se encontrar a vocação, que passaram a dar o real valor à família e que, no fim das contas, se tornaram seres humanos mais normais – artigo raro na atual sociedade brasileira.

Como o próprio Olavo gosta de dizer, citando Goethe, a personalidade humana é a maior força que existe e, na sua atuação nos últimos 30 anos, a premissa não só se confirma como alcança um incomum resultado histórico: um só homem, com a personalidade forjada na sinceridade e na humilde, porém insistente busca pela verdade, mudou os rumos de uma nação atulhada na mais pegajosa e malcheirosa lama da corrupção intelectual, do engano, da baixeza e da animalidade. E digo incomum, pois, nesses conflitos do indivíduo que encontra e encarna as Leis Superiores contra a sociedade, quase que invariavelmente a comunidade se sai vencedora. No mais das vezes, o homem acaba sendo envenenado, decepado ou crucificado. Olavo, apesar das bordoadas, é um dos poucos que venceu. E nós somos infinitamente gratos por sua vitória.

Parabéns, professor! Que Deus lhe dê muitos anos de vida e saúde.

 


[i] Há quem veja nesse tipo de declaração um fanatismo de olavete. Mas, como contraprova, dou meu depoimento – que converge com o de milhares de outros alunos: conheci Olavo em 2013, no meio da confusão das Jornadas de Junho. Àquela altura eu era, literalmente, um analfabeto. Não analfabeto político. Era um analfabeto material. Não sabia nada de coisa alguma. Mal sabia escrever. Conheci-o, pois, e, desde então: busquei me alfabetizar pelos caminhos que ele ensinou, pelo latim de Napoleão Mendes de Almeida; li centenas de livros de literatura clássica mundial, de Homero à Carlos Drummond de Andrade, seguindo a obra de Otto Maria Carpeaux que ele tanto recomenda, a História da Literatura Ocidental; de Carpeuax, também por recomendação de Olavo, ouvi quase tudo que há no Livro de Ouro da Música, e então o favelado aqui teve acesso a nomes como, Palestrina, Gabrieli, Monteverdi, Verdi, Bach, Mozart, Chopin, Wagner, Sibelius etc. Também por sua recomendação entendi como ler melhor os diferentes gêneros textuais – seja por conta do seu primoroso texto Os gêneros literários e seus fundamentos metafísicos, pelo curso Como tornar-se um leitor inteligente ou pelo livro Como ler livros de Mortimer Adler; foi o professor que me falou, pela primeira vez, sobre vocação, e mais, sobre vocação intelectual – no COF, no curso Princípios e métodos de autoeducação e no livro de Sertillanges A Vida Intelectual; foi igualmente no COF e nos seus livros que fiquei sabendo de uma plêiade de pensadores – dentre os quais o Eric Voegelin, a quem tenho dedicado alguns anos de estudos – que são simplesmente desconhecidos no universo intelectual brasileiro – universo esse que conheci bem na PUC-SP e na USP; e, mais importante que tudo isso, Olavo foi quem primeiro fez com que eu me deparasse com a ideia da morte e da responsabilidade da vida vívida sob a perspectiva da eternidade. Resultado: me converti ao catolicismo, quis casar e casei, quis ter filhos e já aguardo o primeiro, quis trabalhar mais e tenho trabalhado, quis fazer coisas de maior valor e creio que tenho feito. Se isso não significa trazer a civilização, se tudo isso é só fanatismo de olavete, fica para o julgamento do leitor. Eu sei o que significa para mim.

[ii] Diferentemente do que relatam os ressentidos como Francisco Razzo e Martins Vasques da Cunha ou charlatães como o tal do Denis Russo e o Joel Pinheiro da Fonseca.


 
 

7 thoughts on “Feliz Aniversário, professor

  1. Parabéns, para qualquer um que tenha lido qualquer livro do Olavo com um mínimo de humildade, você traçou bem como pode ser e quais os frutos que se colhe num contato verdadeiro com a vida e obra de Olavo de Carvalho.

  2. PARABÉNS PATRIOTA! TE DESEJO MUITA SAÚDE, PAZ, HARMONIA, MUITOS ANOS DE VIDA, SABEDORIA, AMOR, FORÇA E GARRA!
    ESTAMOS JUNTOS!

  3. Excelente texto Fabio, parabéns.
    Simples, direto, muito acessível, claro e melhor, fala o essencial.

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