Faculdades de Humanas: um depoimento pessoal

Ato contra a transfobia na UFBA.

Um depoimento pessoal não serve como argumento em um debate. É verdade. No entanto, a coisa muda de figura quando esse depoimento coincide com outros milhares e, ademais, é atestado por fotos, vídeos e pela existência material, contemporânea e de conhecimento público dos fatos, cenários e personagens envolvidos no relato. É o caso da experiência que tive na USP e do quanto ela é representativa para o estado de coisas nos cursos de ciências humanas no Brasil.

(Esse artigo é a compilação de dois textos que publiquei em meu perfil no Facebook)

Parte I

Faculdade de Humanas – Um depoimento Pessoal 

Para quem não sabe, a USP, e mais especificamente a FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), é a musa inspiradora de todas as outras faculdades de humanas do Brasil. O desafio geral é ser mais radical, mais underground, cavar mais fundo o buraco da revolução do que os fflchianos. Tarefa dificílima. Eu estive lá, quietinho, diariamente, por um ano e meio – tempos tenebrosos. Vai um resumo:

A primeira impressão foi quanto ao ambiente. Pensei: “pô, saí duma favela e caí noutra”. Logo quando entrei no pátio fui surpreendido por dezenas de faixas e cartazes com toda sorte de mensagens de partidos de extrema-esquerda, movimentos diversitários, palavras de ordem contra o reitor, xingamentos ao governador tucano, convites para manifestações internas e externas, e por aí vai.

 

Protesto “Lula Livre” no pátio da FFLCH.

 

Cada parede era pichada. Símbolos comunistas, ditos lacradores, ameaças a homens, a brancos, a heterossexuais, a cristãos, qualquer coisa sobre ânus, pênis e vaginas, citações do Racionais MC´s, do Foucault, ou do Caetano Veloso, rabiscos ilegíveis, poesias pós-modernas autorais, pinturas rupestres etc. Cada milímetro era preenchido com alguma dessas coisas, tudo adornado com letras de pichadores profissionais, técnica comprada da periferia, embora nunca ninguém ali jamais tenha colocado os pés numa favela.

 

Sala DCE – Prédio História e Geogafia

 

Pichações pelo campus.

Importante: tudo isso era envolvido por uma batucada semelhante à de hostes bárbaras se preparando para a guerra.

E essa era só a moldura. O quadro era composto por centenas de figuras andróginas reunidas em rodas de conversa, sentadas no chão, com perninha de índio e semblante de quem come canabis no dejejum. Mulheres com barba, homens com batom, todos ou com roupa de ciganos, de budistas praticantes, ou com camiseta de genocida – no geral, uma mistura dos três. O esforço ali era parecer anormal, fora do sistema, quebrador de regras, transgressor.  No fim, eram todos irretocavelmente iguais.

 

Manifesto de estudantes de Direito da USP.

 

Esses eram os veteranos, a referência aos recém-chegados, jovens ansiosos para se integrarem nesse novo mundo libertador – onde todo mundo é forçado a vender a personalidade em troca da camaradagem vacilante de completos desconhecidos.

Lembro que nesse primeiro dia, enquanto esperava na fila para acertar detalhes da matrícula, um rapaz pardo, acima do peso, de quase dois metros, trajando saia e maquiado como uma drag percorreu de calouro em calouro convidando-nos para uma roda de conversa inaugural com os veteranos. Evidentemente, agradeci o convite e não fui.

De cara percebi: “é, serão duros esses quatro anos”. Como disse, fiquei só um ano e meio. Nesse meio tempo pude ver a transformação do aluno esperançoso em militante raivoso e histérico. Ninguém escapa. Aquilo é uma máquina de fabricar esse tipo de gente.

Lembro da única pessoa com quem conversei – sim, passei esse ano e meio sem dizer uma palavra, a não ser com essa pessoa, e só no primeiro semestre.

Era um rapaz vindo do interior de Minas. O menino, meio matuto, não tinha todas aquelas certezas dos daqui, devidamente condicionados nos cursinhos ou no ensino médio de escolas caras. O rapaz estava aberto a questionamentos. Na época, eu já estava vacinado. Entrei sabendo da patifaria. Não cairia nesse conto do vigário. Achei, portanto, que poderia ajudá-lo a vencer a manada.

Então, como criminoso fugindo da lei, lhe divulguei alguns autores outsiders, puxei certos temas filosóficos, demonstrei o viés dos professores – todos comunistas militantes, literalmente – e indiquei o bovinismo dos alunos. O moço balançou, me deu razão, quase se salvou.

Daí teve uma greve e ficamos cerca de dois meses sem aula. Quando voltei, cruzei com o rapaz, já mudado, passeando com um dos muitos grupinhos de engajados. Não demorou muito a metamorfose.

Desde então passei a entrar mudo e sair calado. Coloquei-me como observador e vi tudo que é tipo de loucura: vi todas meninas aparecendo com os cabelos raspados como sinal de que tinham feito a iniciação na seita feminista; vi professores incitando protestos na maior tranquilidade; vi bloqueios de salas; vi assembleias do DCE em que todas as decisões eram unânimes; vi alunos quarentões, moradores do CRUSP, anunciando com megafone um novo ato, um novo inimigo, uma nova causa; vi os professores dizendo as coisas mais extremistas com o assentimento mecânico de todos os alunos; vi puxação de saco de aspirantes a acadêmicos; vi o livre mercado de drogas; vi pouquíssimos estudantes sérios.

 

Alunos fumando maconha na USP. Algo rotineiro.

 

Foto da página Antes e depois da Federal. Não sei se essa foto é real, mas o que acontece é bem semelhante.

 

Uma assembleia na FFLCH deliberando sobre mais uma greve.

 

Saí de lá por praticidade e tédio. Atravessar a cidade todos os dias para assistir variações desse mesmo quadro feio era martírio demais. Troquei um diploma uspiano pela sanidade mental.

E veja: a FFLCH é a mãe. Todas as outras faculdades de humanas são suas filhas que, querendo impressionar a coroa, sempre vão um pouco além, numa infinita espiral de degradação.

Parte II

Um retrato do Ensino Superior

Como disse, escrevi no meu perfil no Facebook esse depoimento sobre minha experiência na USP. E é aquilo mesmo, só o nega quem já foi absorvido por aquele tipo de ambiente e, por consequência, perdeu todo o senso de orientação na realidade.

Por ser um dos grandes temas do momento, a coisa ganhou grande repercussão e uma tonelada de comentários na postagem, de pessoas que vivenciaram aquilo, confirmam minha narrativa. Entretanto, o que me chamou mais a atenção foram os inúmeros depoimentos de pessoas mais velhas, gente da geração da minha mãe, assustadas, indignadas e decepcionadas com a situação que descrevi por cima. E é compreensível.

Os nossos avós e pais, salvo poucas exceções, não fizeram faculdade. A maioria deles veio da roça, do sertão. Ensino Superior era uma miragem, uma promessa de tempos melhores, de ascensão econômica e social da família. Era sair da penúria do mato e emplacar dois ou três doutores na cidade. Todo mundo queria isso. Porém, esse sonho só seria realizado por uns poucos abastados, ou para gente extremamente dedicada que comeria o pão que o diabo amaçou para pegar o canudo.

Nossos avós e pais não conseguiram, mas meteram na cabeça que nós, seus netos e filhos, conseguiríamos. E ralaram para isso. Toparam jornadas duplas, bicos, aceitaram empregos ruins, humilhações, economizaram, não compraram aquele carro, não fizeram aquela viagem, enfim, fizeram das tripas coração para bancar uma escola particular caríssima e um cursinho conceituado para seus filhos.

E deu certo. Comemoram com muita festa a aprovação no vestibular. O filho, finalmente, chegou à universidade. Agora é vida ganha.

Teríamos realmente esse final feliz se não fosse por algumas coisas que não contaram a esses pais.

  1. O Brasil tem ocupado, sucessivamente, os últimos lugares no PISA, exame internacional que mede a qualidade do ensino de dezenas de países;
  2. Segundo o INAF, em pesquisa de 2018, 50% dos nossos graduados (ensino superior concluído) não são plenamente alfabetizados (não atingiram o nível proficiente);
  3. Nossas melhores universidades estão pessimamente colocadas nos rankings internacionais. A USP, por exemplo, figura entre a posição 250 e a 300 no The World University Rankings.
  4. Nossas pesquisas, apesar da grande quantidade, no geral, são irrelevantes.
  5. Nossos melhores estudantes viram pesquisadores de sucesso em outros países. A tal Fuga dos Cérebros.
  6. Há uma massa gigantesca de diplomados fora de sua área de formação.

*As fontes dessas afirmações estão no final do artigo.

 

Quer dizer, o sonho dourado era uma farsa.

Claro que há casos de sucesso, sobretudo de quem se formou em faculdades mais conceituadas e, por isso, conseguiu beliscar um espaço relevante no mercado ou conquistou a desejada estabilidade no serviço público.

No entanto, a coisa vem decaindo e o cenário é meio esse mesmo. No geral, faculdade no Brasil se tornou, por um lado, uma fábrica de militantes histéricos de extrema-esquerda; por outro, uma fábrica de frustrados.

Agora, imagine a dor de um pai e de uma mãe que deram o sangue para colocar o filho lá, na esperança de que o futuro deles fosse menos duro que o seu passado. O que fizeram com essa geração, no que diz respeito ao ensino, é um crime muito mais cruel e de consequências muito mais duradouras que qualquer mensalão ou petrolão.

 


  1. http://www.oecd.org/pisa/
  2. http://acaoeducativa.org.br/wp-content/uploads/2018/08/Inaf2018_Relat%C3%B3rio-Resultados-Preliminares_v08Ago2018.pdf
  3. https://www.timeshighereducation.com/world-university-rankings/university-sao-paulo
  4. https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/brasil-produz-e-investe-em-muitas-pesquisas-cientificas-resultado-baixo-impacto-mundial-2d80nu5riefr6q40gzdtc85lr/
  5. https://exame.abril.com.br/ciencia/por-que-uma-fuga-de-cerebros-ameaca-o-brasil-na-crise/
  6. https://www.bbc.com/portuguese/brasil-37867638

 


 
 

3 thoughts on “Faculdades de Humanas: um depoimento pessoal

  1. Essa é uma realidade muito triste!
    Mas se não se fizer nada, deixar como está, só tende a piorar.
    Acho que seria bom que muita gente (vacinada) entrasse nessa área de humanas e ocupasse espaço por lá tb.
    Precisamos formar professores, escritores, filósofos, poetas, conservadores.

  2. *amassou

    Depoimento contundente e cru. Por mim haveria privatização geral e deixaria rolar o choro e ranger de dentes.

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