Fábio Gonçalves

Professor de História e Redação, jornalista e articulista dos Estudos Nacionais. Aluno do Seminário de Filosofia do Olavo de Carvalho.


Bêbado da Tristeza da Terra

Já o vinho vos acena na sua taça dourada,

mas não bebei ainda. Antes que vos cante uma canção!

A canção do desgosto

ressoa como uma gargalhada nas vossas almas.

Quando o desgosto sutura,

ficam desolados os jardins da alma,

esmorecem e morrem a alegria e os cantos.

Sombria é a vida, é a morte.

(Das Lied Von Der Erde, Gustav Mahler)

 

 

Dormi mal, como que nauseado. E isso porque ontem sorvi, em goles lentos, algo de pútrido, de doente, desde o rio que corta de fora a fora esse Vale de Lágrimas de que fala o hino à Regina.

E uma tal beberagem começou cedo, logo ao despertar. Por péssima mania, mal abro os olhos e vou me informar às apalpadelas no smartphone. Diviso que tudo se concentra em Suzano. Houve um massacre. Em uma escola. Um massacre de crianças. De crianças!

Correria, choro, desespero. São cinco, seis, oito, dez os mortos. Já repararam que os repórteres de hoje, não digo todos, mas boa quota, como que babam de regozijo ao aumentar o número de vítimas de uma tragédia? Isso porquanto eleva o impacto, garante maior audiência. Frutos da banalidade do mal.

Tendo adentrado há pouco no ofício de jornalista, eis que me vi tendo que noticiar aquilo. E é diferente só receber a informação, como eu sempre fizera. O jornalista, percebi isso, tem que escaramuçar o lodaçal, tem que tanger os cadáveres, tem que aspirar o cheiro acre da morte. Mas nunca tive vocação para necrólogo. Acusei o golpe.

Já então tonto desses tragos de desgraça, cada vez sabendo mais, quando queria esquecer tudo, dá-se que no fim do dia, depois que o cair da noite faz pesar em dobro o sofrimento humano – porque aí refletimos – como um masoquista enchi, até a tampa, um caneco com essa bebida horrível que vinha me alquebrando pouco a pouco: em uma dessas fuçadas nas redes sociais, topei com o vídeo da chacina.

Hesitei, mas há o demônio da curiosidade, como o que instou o grego Leôncio, segundo o conto, a ir bisbilhotar a ravina profunda onde se lançavam os criminosos executados. Algo tentou dissuadi-lo, mas em vão. Irredutível, inclinou-se ao pé do monte, e, vendo a cena lamentável, arrematou: “Aqui tendes, ó gênio mal, saciai-vos desse belo espetáculo”. E foi assim comigo.

Se há algo de que queria me caducar, era disso.

O filme mostra um jovem entrando sossegado na escola, sacando o revólver da mochila e, resolvido, abrindo fogo contra um grupo de alunos que nem sabem que morreram. Em seguida, o outro satanás, mais covarde, disfere golpes de faca ou de machado nos corpos jacentes e na turba que, apercebendo-se do ataque, saiu em disparada para salvar-se.

E tudo me doeu ainda mais, pois, em pouco, serei pai. Só então a dor de um pai me ficou concreta. Vi minhas crias ali, em fuga, nas mãos desses perversos que nos cercam, aos montes. Nisso fiquei contrito. Não quis dizer mais nada. Já me quedava algo febril, enjoado.

Senti naquele momento algo do abandono cósmico, daquele que mesmo Cristo sentiu nos momentos derradeiros. Fiz menção de questionar Deus, mas retive-me. Sorvi, por conseguinte, a última gota desse líquido, já conformado com seu gosto estragado. Rezei e dormi.


 
 

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